Citação · Companhia das Letras · Literatura · Livros · Resenha

“Avalovara”: itinerário de espinho e flor

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Quem já leu “O som e a fúria”, de William Faulkner, sabe o que é ter a sua capacidade leitora posta à prova. Não é diferente com “Avalovara”, de Osman Lins. Aliás, talvez seja. A diferença, nesse caso, é para um grau de dificuldade que foge a qualquer comparação. É muito provável que a sua competência de leitor se desfaça às primeiras páginas tanto quanto é possível que jamais se restabeleça até chegar às últimas. Isso no caso de chegar.

Exageros à parte, não me surpreenderia com leitores que abandonassem o livro por total falta de aptidão ou disposição para compreendê-lo. É preciso, sim, esforçar-se. É que “Avalovara” rompe com todos os padrões literários tais como os conhecemos. É um romance (?) que mais se parece com uma obra arquitetônica, cuja construção se dá bem diante dos olhos do leitor, como se fosse “em se fazendo”, se esquadrinhando em ‘tempo real’, conforme nos prepara (adverte?) o próprio narrador: “Pouco sabe do invento o inventor, antes de o desvendar com o seu trabalho.”

E o que se vê acontecer é uma obra de linguagem mais do que de narrativa, na qual se entretecem sentidos a uma profusão exponencial. Tudo é símbolo, simbologia, tudo se insere num universo delimitado por uma espiral e o quadrado que a contém (?), tudo se move e se orienta por um palíndromo cujas letras correspondem cada uma a um quadrado menor constituindo o quadrado. Enfim, em “Avalovara”, tudo é enigma, tudo é jogo. É preciso estar disposto a jogar.

Uma vez aceito o mirabolante esquema de leitura projetado pelo autor, é impossível abandoná-lo. Há qualquer coisa que nos seduz; uma coisa qualquer que se, por um lado, nos desencoraja a prosseguir, por outro lado nos incita, nos impele a seguir adiante. E não é em si o desejo de conhecer o que vai suceder entre Abel e suas três mulheres que nos faz prolongar a leitura. É antes o desejo de se manter no jogo, de se manter jogando, de se sentir enredado nessa aventura alucinante que é desvendar um texto e seu mundo. Que é, na verdade, desvendar a si mesmo.

Mas é preciso dizer: atravessei “Avalovara” com grande dificuldade e uma intermitente frustração. Sim, intermitente, porque momentos há em que se tem (ou se pensar ter) o texto sob controle: a narrativa é compreensível, inteligível, assimilável. E então, a contrapartida: momentos em que o texto se faz caótico, incompreensível, indecifrável. Talvez fosse esse mesmo o propósito de Osman com sua obra: deixar-nos perplexos. Tal qual o personagem Julius almeja com os sistemas de som de seu relógio: “colocar as pessoas […] na mesma atitude de perplexidade que se sofre perante o Universo.”

Por isso, de “Avalovara” pode-se dizer muitas coisas, só o que não se pode dizer é que o livro nos seja indiferente. É impossível não se deixar tocar pelas deliberações ao longo do texto (“Fio conduzido pela agulha são as vidas? Tua vida é agulha a costurar sem fio?”; “Colhe-se realmente entre canções quando em pranto jogamos as sementes?”; “Ama-se o que em quem se ama? O que, em quem amamos, faz com que o amor se manifeste?”). E são tantas, belas e surpreendentes as deliberações! De “Avalovara” pode-se dizer inclusive que é um metalivro a falar, através de uma metalinguagem, sobre o que é o livro, o que é o amor, o que é a vida.

Sim, pode-se dizer muitas coisas mais de “Avalovara”. Dizer, por exemplo, que das agruras do texto brotam espinhos e flor, sendo a flor um puro instante de poesia que se faz sentir na lavratura da palavra (como no trecho, de uma delicada beleza, em que o narrador nomeia “as horas” de “o hálito do tempo”). Por essa poesia que às vezes irrompe__ e ainda que somente por ela__ já o livro se justificaria.

E se falo em justificativa é porque precisei justificar-me por essa leitura. Em certa passagem do livro, diz Abel, o escritor-protagonista, que “ver é encargo tortuoso.” Pois bem. Digo eu, ao final dessa experiência, num exercício de absoluta honestidade para comigo __ e por que não dizer, para com você que me lê__ que, considerada a complexidade da obra, ler “Avalovara” também foi, em certo grau e medida, um tortuoso encargo.

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A arquitetura da felicidade · Citação · Consueloblog · Livros · Moda · Mundo fashion

Pra não dizer que não falei de moda

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Pra não dizer que não falei de moda

Cris M. Zanferrari

Era inevitável. Mais dia, menos dia, o assunto teria de vir à pauta. Como assim nunca ter falado de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Por outro lado, como me atrever a falar de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Logo eu, que já cheguei a pensar que moda é ocupação de quem não tem com o que se ocupar? Falar de moda, eu?

Preconceitos abandonados ao final da adolescência, ouso sim falar de moda. É que falar de moda hoje é quase tão natural como falar da previsão do tempo. Claro, há quem o faça com conhecimento e autoridade, mas falo do mesmo lugar de onde fala a vizinha de apartamento, a estudante de biologia, a profissional liberal: falo do lugar de quem a consome. E que ninguém se engane pensando que não se deixa levar por esse bem de consumo. A menos que você viva numa comunidade alternativa, não há quem resista a uma bela vitrine ou a folhear uma revista sem reparar nos anúncios de jeans e afins. A moda nos entra pela vida como um combustível a injetar sonhos e aspirações. Ou, simplesmente: a moda é a projeção de nossos desejos.

Quando, dez anos atrás, li “A arquitetura da felicidade”, do filósofo Alain de Botton, lembro de ter ficado supresa diante da revelação de que uma casa, mais do que expressar quem somos, expressa como, na verdade, gostaríamos de ser. Uma casa excessivamente organizada, por exemplo, não implica que seu morador seja um sujeito calmo e centrado. Ao contrário, a ordem e o alinhamento de móveis e decoração representariam o desejo de o morador aquietar e acalmar uma mente agitada e até turbulenta. O filósofo suíço parte, portanto, do princípio de que nos cercamos de formas materiais que nos proveem com aquilo de que necessitamos interiormente.

Tenho pensado que se isso vale para a arquitetura pode bem valer também para a moda. Sempre se disse que a moda é um meio de expressão, que a moda comunica, que o modo como nos vestimos diz muito sobre nós. Pois bem. Talvez diga ainda mais sobre quem ou como gostaríamos de ser. Talvez por isso é que quem deseja parecer autoconfiante sobe no salto. Quem deseja transmitir seriedade e competência, usa peças clássicas e elegantes. Ok, nada disso é regra, mas a verdade é que mesmo que se queira esquecer ou negligenciar o dress code, a maneira como nos vestimos projeta _ de uma maneira ou de outra_ o modo como estamos nos sentindo ou como desejamos nos sentir. Deve ser por isso que, chegando aos cinquenta, adoro usar um jeans rasgado e uma jaqueta despojada. Não tenho dúvidas de que o poder de um item fashion preenche o desejo de juventude tanto quanto um botox.

Mais o tempo passa, mais percebo que vestir-se é um exercício de autoconhecimento. Aprende-se a valorizar certas partes do corpo e a disfarçar o que se consideram as imperfeições. Aprende-se que determinadas cores favorecem, iluminam, acendem o look e o astral. Aprende-se que um belo acessório pode compor toda a diferença no visual. Aprende-se que ler livros e blogs sobre moda pode ser útil e nos poupar de alguns micos, mas que a palavra final sobre a roupa que se veste só pode ser mesmo a nossa. Aprende-se que descobrir o próprio estilo é tarefa que pode levar anos; às vezes, a vida toda.

Aliás, pensando bem, a vida toda é muito longa para se ter um único estilo. Nada mais démodé. E, por favor, não me levem a mal, mas ter usado a expressão francesa ao final de um texto, que era pra ser sobre moda, também me pareceu inevitável.


Publicado originalmente no blog de moda e lifestyle http://www.consueloblog.com

A propósito · Citação

A parede e o verso

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Não se deve adiar nada. Nem mesmo as mínimas coisas. A vida, como se sabe, é inadiável.

Mas falo mesmo é das coisas menores. Aquelas que postergamos sem uma grave razão. Aquelas que deixamos para depois porque o depois pode tanto estar logo ali como alhures. Qualquer depois é melhor que agora. No fundo, todo mundo é um pouquinho o “deixador” de Mário Quintana, afinal “só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois.”

Cá onde moro há uma parede que, por muito tempo, esperou receber poesia. É um espaço em branco, pouco mais acima da pequena adega, que ficaria perfeitamente harmonizado e ornamentado com o verso de Pessoa: “Boa é a vida, mas melhor é o vinho.” Sempre pensei adesivar, pintar, tatuar à parede essa frase tão pertinente ao uso da casa que ali se faz. Lugar de celebrar, de confraternizar, de reunir amigos e fazer tilintar o jogo de taças até no mais banal dos brindes. Um lugar para fazer jus à frase do poeta português.

Mas aconteceu que, dentre mil e outras prioridades, a parede foi ficando para depois. Depois dos móveis todos, depois das viagens, depois do tratamento dentário, depois do carnaval, depois do depois. Agora, quase oito anos depois, há uma mudança em curso. A parede _ e o verso_ serão abandonados, deixados para trás. Terão sido sempre como um casal que, feitos um para o outro, não conheceu quem os apresentasse. O que fica para depois corre sempre o risco de ficar incompleto ou irrealizado.

Não, não se deve adiar nada. Tudo é urgente. A vida urge. A vida ruge. A vida, Quintana que me perdoe, a vida não é para depois.

 

 

 

Companhia das Letras · Literatura · Livros

Bernardo e Teresa, uma história de amor

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Não, não é pra ser uma história de amor, mas ainda assim é das mais belas histórias de amor que até hoje meus olhos já leram. É pra ser a história de um homem de espírito indomável, resiliente e fiel aos seus princípios e valores. Mas não, não seria a mesma história sem o amor que o sustenta, fortalece e apazigua. Estou falando do romance “O fiel e a pedra”, do pernambucano Osman Lins.

Cheguei ao livro desavisada desse amor. Amigos recomendaram-me a leitura, a sinopse me apresentou uma “saga quase mítica”, um “arquetípico confronto do Bem contra o Mal”, mas nada nem ninguém me preparou para a fúria poética de tão grande e obstinado amor.

Sim, a literatura universal nos presenteou com amores trágicos e inesquecíveis: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. A literatura brasileira nos concedeu o também trágico amor de Riobaldo e Diadorim, mas foi a literatura regional nordestina que me arrebatou com um amor a toda prova, encravado a ferro e fogo nas vidas de Bernardo e Teresa. Bernardo e Teresa são a encarnação de um amor que__ mais do que resistir aos trágicos eventos __ extrai de toda fatalidade a sua força e o seu alimento.

A perda do único filho, bem ao início do romance, dá o tom e a medida das vidas desse casal de nordestinos. Marcados por essa dor, que jamais os abandonará, buscam recomeçar a vida longe de tudo e de todos, num engenho onde Teresa será a única mulher e onde a hostilidade de “uns tipos duvidosos” crescerá à medida mesma das tensões e conflitos que os funestos acontecimentos trarão. A amparar marido e mulher, um amor crescente, a verdejar sobre a aridez dos dias e da terra.

Esse amor, esse “forte amor”, costurado à linha do tempo e da narrativa, tece seu mais nítido bordado em uma fala de Teresa, a consolar Bernardo de sua angústia por tê-la deposado sem poder lhe oferecer o conforto que ela merece. Diz Teresa: “Eu tenho muito, Bernardo: aí está você. Imagine quantos se querem neste mundo e gostariam de ter o que nós temos: o direito de estar aqui, sem conforto algum, ameaçados, mas juntos, o homem ouvindo a confissão da mulher, a mulher com um filho do homem no seu sangue. E os dois com a lembrança de um filho que morreu. Eu tenho certeza, há casais que dariam metade de sua vida por isto, pelas dores comuns que sofremos, pelo privilégio de recordar um filho morto, mas deles. Como iria eu desejar mais do que tenho? Como posso lamentar o que tem sido a minha glória?” Isso tudo diz a mulher, e diz ainda mais, porque o fio do amor que os une não se desgasta, antes se encorpa, se engrossa, se prende ao tecido da vida e não se deixa por nada no mundo romper.

Sim, bem sei que “O fiel e a pedra” é mais, muito mais que uma história de amor. É uma história sobre a existência humana, sobre seus caminhos e descaminhos, sobre a interna e eterna luta entre ficar ou partir, ceder ou resistir, matar ou morrer. É uma história quase-poema, tamanho o lirismo com que se congraça a linguagem. Mas é também, ao cabo e ao fundo, uma história de amor.

É uma história de amor para quem assim a quiser. Para quem esteja desejoso de notícias de um amor assim. De um amor bonito, sem ser idealizado, sem ser impossível. De um amor bonito, porque verossímil. De um amor bonito, porque realizado.

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Citação · Consueloblog · Literatura · Livros · Rubem Braga

Por mais lua, conhaque [ou música]

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Por mais lua, conhaque [ou música]

Cris M. Zanferrari

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.”

Carlos Drummond de Andrade

Parem tudo, desliguem os celulares, cessem o monólogo interior. Eu hoje vim falar de música.

Acho que foi Nietzsche a dizer que “a vida sem música seria um erro.” Mas a verdade é que também sem arte e sem literatura, a vida seria igualmente um equívoco irremediável. É isto mesmo: sem a música, sem a arte e sem a literatura, estaríamos todos condenados.

Basta observar como o mundo anda excessivamente comovente. O que nos chega pela tela da TV ou do tablet nos assusta, nos põe em choque, nos comove. São imagens desumanas como essa do pai com os filhos gêmeos__ e sem vida__ ao colo. São cenas do terror atacando pedestres na ponte em Londres, e alguns dias depois, no calçadão em Estocolmo. Por aqui, o horror da morte de um estudante na frente de casa à volta da aula. Por aqui, as tragédias todas: a vida ceifada no trânsito, dentro dos muros escolares, diante dos filhos, diante dos pais, diante das câmeras, todas vigilantes, mas impotentes. Onde, afinal, se escondeu a paz?

Tanto excesso só pode ser anestesiante. De tanta comoção, já não nos comovemos mais. O choque diante da brutalidade humana dura o tempo da notícia, vira passado ainda que mal tenha passado. Que grande condenação é estarmos assim: dessensibilizados. Ou ao menos, pensar que assim estamos. Porque já não choramos mais diante dos horrores noticiados, acreditamos mesmo que estamos imunes, imperturbáveis, insensíveis. E então, quando menos se espera, uma música nos pega. Uma determinada música__ ouvida não importa onde, na rádio, em casa, num show __ nos desarma. E nos faz lembrar como se molham os olhos.

Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelos gêmeos ao colo do pai, pela menina morta no banheiro da escola, pela mãe que perdeu o filho. Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelas dores que há no mundo, por mim e por você, e__ paradoxalmente__ me faz chorar por ninguém.

É isso mesmo. Há músicas que nos fazem chorar porque sim. Porque não é preciso haver dor, tristeza ou raiva para que haja lágrima. Porque se pode, sim, chorar de um puro contentamento, de um puro transbordamento da emoção, de uma pura alegria que a música nos dá. A música desperta os nossos sentidos, e é tão sensorialmente estimulante que chega a literalmente arrepiar a pele numa espécie de, digamos, orgasmo musical. É forte o que digo porque é forte o que sinto. Por uma música assim vale a pena estar vivo.

É que a música __ tanto ou mais que a arte e a literatura__ nos põe num estado de (re)conexão com o que há de mais profundo e primevo em nós mesmos. A música alcança a nossa alma. A música __ assim como a arte e a literatura__ é a comoção que nos chega por meio da beleza. Comove porque a beleza se converte, dentro de nós, em puro e absoluto sentimento.

Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, fazia música com as palavras, e sobre a música propriamente dita escreveu inúmeros textos. Em um deles, sobre o samba, diz assim: “A malandragem existe mais no samba que na realidade. […] Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…”

Então é isso. Fazer música, tocar música, ouvir música. Musicar a vida para sentir mais e melhor. Musicar a vida para se comover e se sensibilizar. Musicar a vida para descobrir que dentro de cada um é onde a paz, finalmente, pode ser encontrada. Musicar a vida porque também a música é emoção.

Então é isso, Drummond. “Eu não devia te dizer”, mas também a música “bota a gente comovido feito o diabo.”


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

Anton Tcheckov · Citação · Editora 34 · Literatura · Livros · O beijo e outras histórias · Para refletir

A vida comum e “O beijo”

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Toda gente sabe que a matéria dos dias se faz de pequenices, aquelas coisas pequenas que alimentam corpo e alma de uma só vez: um café passado, uma música nova, uma velha música, encontrar amigos, abraçar quem se ama, tomar banho sem pressa, aprender coisas novas, se exercitar, comer bem, dormir em paz. Pequenas alegrias que duram o tempo que duram apenas. Às vezes, um pouco mais.

Toda gente_ mesmo sabendo das pequenices de que são feitos os dias_ sonha mesmo é com grandiosidades. Sonha encontrar um grande amor, sonha grandes feitos profissionais, grandes viagens, grandes bens materiais. Em matéria de sonhos, pequeno é não sonhar.

Mas o que muita gente não sabe é que a grandiosidade do sonho pode acabar por fazer sombra às minúcias, às pequenas delicadezas, incrustadas no dia-a-dia. Sombreadas, passam despercebidas, ignoradas, esquecidas. Até que alguém, ou alguma coisa, ou algum acontecimento as traga de volta à luz, fazendo brilhar uma pequena grande verdade: ser feliz pode ser, simplesmente, viver uma vida comum.

Essa é ao menos uma dentre as reflexões a que nos conduz a leitura de “O beijo”, de Anton Tchekhov. Nesse conto, o jovem oficial Riabóvitch vive uma pequena e inusitada aventura. Convidado, juntamente com os outros oficiais de sua brigada, a tomar chá em casa de um desconhecido tenente-general, o tímido e inexperiente Riabóvitch é surpreendido pela seguinte situação: ao sair de uma sala de jogos e tentar retornar ao salão principal, vê-se perdido pelos aposentos da imensa casa e acaba por adentrar um escritório meio escuro, onde uma voz feminina o alcança, enlaça e beija. Por engano, o “mais incolor dos oficiais de toda a brigada” foi beijado por uma desconhecida que, ao dar-se pelo lapso, fugiu sem que ele pudesse ver-lhe a face. Esse momento, doce e fugaz, foi o quanto bastou para que o rapaz se sentisse, de súbito, profunda e ligeiramente tocado por uma inesperada alegria de viver.

Até aquele momento, Riabóvitch vivia sua vida sem sobressaltos, sem grandes entusiasmos, vivia sua vida de modo comum. E, no entanto, o comum de sua vida havia se transformado por dentro. Ele agora conservava, no seu íntimo, um contentamento sereno, que lhe permitia extrair dos dias um novo frescor: “Todas as manhãs, quando o ordenança lhe trazia o necessário para lavar-se, ele despejava água fria sobre a cabeça e lembrava que em sua vida havia algo bom e tépido.”

Assim são certos momentos na vida: um súbito acontecimento transforma-se em uma faísca a acender a cor dos dias, acrescentando-lhes colorido e vivacidade. A partir de então, a simples lembrança de uma dessas faíscas nos move, nos ampara, nos alenta. A uns, pode mover por dias ou semanas. A outros, move por uma vida inteira. A Riabóvitch moveu pelo tempo necessário à compreensão de que nada havia de errado em ser um homem comum. “Tudo o que eu agora sonho e que me parece impossível e não terrestre é, na realidade, muito comum”, pensa o jovem, “E o pensamento de que era um homem comum e que a sua vida era uma vida comum, alegrou-o, deixando-o mais animado.”

Que grande liberdade é reconhecer-se comum! A grandiosidade das coisas, até mesmo dos sonhos, nos aprisiona a um modo de vida que não é, por natureza, o nosso. Trabalhamos demais, corremos demais, enlouquecemos demais porque queremos ser grandes. E porque queremos ser grandes, fechamos os olhos às coisas pequenas, que são as verdadeiramente grandes.

Viver uma vida comum é também deixar de esperar. Eis a libertação. Somos livres quando deixamos de esperar. Quando fazemos_ seja o que for_ pelo prazer de fazer, pela alegria e pelo contentamento que o fazer nos dá, pelo bem que sentimos ao fazê-lo, encontramo-nos a nós mesmos. Riabóvitch viveu longos dias acalentado pela lembrança do beijo e pelo desejo de (re)conhecer a desconhecida mulher. Ao abandonar essa esperança, viu regressar a paz da normalidade dos dias. “Agora, quando ele não esperava nada, a história do beijo, sua impaciência, as esperanças vagas e a decepção apresentavam-se sob uma luz clara. Não lhe parecia já estranho […] o fato de que jamais veria aquela que o beijara em lugar de um outro; pelo contrário, o estranho seria se ele a encontrasse…” Liberto dessa espera, sentiu-se dono do próprio destino e, apesar de chegada a oportunidade, esquivou-se de um outro chá à casa do general.

O jovem oficial do conto de Tcheckov nos faz, mais do que ver, valorizar o que há de bom e belo em se viver uma vida comum. Uma vida em que se aceita o que vem e o que vai com igual temperança. E cujo segredo está em se receber e se guardar _ para evocar nos momentos menos afortunados_ uma lembrança doce e terna de um momento inesquecível.

 

 

Consueloblog · Minhas "croniquetas" · Para refletir

De presentes e sonhos

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De presentes e sonhos

Cris M. Zanferrari

Corre o ano e as tradicionais datas festivas já estão a se aproximar: alguns aniversários, Páscoa, Dia das Mães. Com elas, o imperativo de dar ou trocar presentes. Até aí nada de novo, a não ser a pergunta que se repete mal passado o Natal: ciranda, cirandinha, que presente vamos dar?

Cresci ouvindo e seguindo um conselho popular, o de que devemos presentear alguém com aquilo que nós mesmos gostaríamos de ganhar. Só há bem pouco tempo percebi o imbróglio desse conceito. Tudo bem que a premissa seja nobre porque, afinal, demonstra que a intenção é quase bíblica: agradar ao outro como a si próprio. Mas, convenhamos, nem todo mundo gosta de orquídeas, de livros, ou de acessórios para cozinha. Perfume então, pessoalíssimo. Objetos de decoração, só se o gosto de quem presenteia passar longe do kitsch.

Presentear com coisas do nosso gosto pessoal é querer impor ao outro o nosso próprio modo de ser. É fazê-lo refém das nossas vontades. Ao submetermos o outro a apreciar o que nos agrada e interessa estamos exibindo o nosso lado mais egocêntrico. Vaidosos que somos, cremos estarem as nossas preferências alinhadas aos mais altos níveis da estética, requinte e bom gosto. Tudo isso, claro, segundo os nossos próprios critérios. Em suma, todo presente é, bem no fundo, autoelogioso.

Felizmente, nem tudo é oito ou oitenta nessa vida. E assim é que também uma outra verdade se esconde por trás do gesto. Uma verdade um pouco mais nobre, bela e humana: o simples desejo de que o outro goste do que gostamos nós. É que gostar das mesmas coisas nos torna mais próximos, nos deixa mais íntimos, e nos faz menos solitários. Ter apreço e afeição pelas mesmas coisas nos faz mais parecidos,mais aparentados, nos torna mais irmãos. É nobre, belo e humano o desejo de, ao longo da vida,nos fazermos acompanhados.

Agora, bonito mesmo, de verdade, é quando alguém nos conhece tão bem que sabe exatamente o que nos  agrada, o que desejamos, a que aspiramos. Essas pessoas, que sabem ler as outras, dificilmente erram ao presentear. É que elas estão sempre atentas aos detalhes, às entrelinhas, e interpretam gestos e intenções. Dedicam-se a verdadeiramente conhecer o outro. Sabem de antemão os seus desejos, antecipam os seus sonhos, reconhecem as suas vontades. E por conhecê-lo assim, tão profundamente, dão ao outro o melhor presente que o outro poderia receber: ver-se respeitado em sua mais completa e absoluta individualidade. Essas pessoas, que sabem ler as outras, presenteiam apesar das diferenças, das dessemelhanças, porque sabem que não há que sermos iguais para estarmos juntos.

Mas é verdade também que há leituras equivocadas, afinal, se não é fácil conhecer a si próprio, o que dirá bem conhecer ao outro. Digo isso e me vem à lembrança uma historinha acontecida já há alguns anos.

O marido costumava dizer à mulher que tinha um sonho guardado. Queria aprender a tocar saxofone. Imaginava-se tocando não em recitais, mas no aconchego do lar, plateia restrita e familiar. A mulher sonhava junto, antevia ter o seu próprio Kenny G. na sala de estar. O homem reservava o sonho para a aposentadoria, a ocupar as horas vazias com música clássica soprada pelo próprio pulmão. Mas eis que a mulher decide que um sonho guardado é apenas um sonho e que esperar por realizá-lo _tão curta é a vida_ pode significar condená-lo a ficar para sempre e tão somente no universo onírico. Assim, ela trata de comprar um belo saxofone dourado para presentear o marido. E para garantir que o presente não permanecesse no estojo, anexou ao instrumento de sopro o cartão do professor que ministraria as aulas de iniciação musical.

Mas eis que o presente menos surpreendeu do que o compromissou. Foi instado a aprender as notas e escalas musicais, a praticar exercícios de embocadura, a ter mais um apontamento na agenda a cumprir. A realidade exigia um esforço incompatível com a sublimidade do sonho. Achou que o aprendizado era dificultoso, que não levava jeito, que isso e aquilo. Aos poucos_ sem que a mulher o soubesse, temia desapontá-la_ foi cabulando aulas e se esquivando das práticas. Quando a mulher se deu conta, já estavam o sax e o sonho extraviados no estojo de veludo.

Passadas as frustrações de ambos, presenteado e presenteador, ficou o saxofone a exibir-se, emoldurado, como parte da decoração da casa, a lembrar que talvez o mais bonito do sonho seja isso mesmo, apenas o prazer de sonhar. E que, afinal de contas, de presentes e sonhos, nunca se sabe o que esperar.


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com