Citação · Literatura · Viagem

A Suécia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Estocolmo

Estamos, desde ontem, na capital da Suécia, com tempo o suficiente para algumas das visitas de praxe nessa cidade-arquipélago, incluindo um passeio de barco.
Hoje, saímos a caminhar em direção a Gamla Stan, a cidade velha ou centro histórico, com construções medievais que agora abrigam, em sua maioria, lojinhas, cafés e restaurantes. Partindo do hotel, o percurso até o bairro antigo é tranquilo e sossegado, e as cenas são típicas de uma urbe qualquer: pessoas se deslocando de um lado a outro, trabalhando, se exercitando, negociando, gerindo suas vidas e carreiras enquanto nós, em família, turistamos. “Quando caminho pelas ruas duma grande cidade todo o meu desejo é deixar-me levar, sem plano nem bússola, como que erguido na crista da onda humana que coleia nas calçadas.” Ser turista é um pouco isso mesmo, meu querido Verissimo: deixar-se levar, sem nunca ter um compromisso urgente nos aguardando. Mas deixar-se levar é um luxo que só nos cabe quando o cotidiano pelo qual perambulamos não é o nosso.
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Um dos inúmeros becos em Gamla Stan

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No alto do edifício, ao final dessa quadra no centro comercial de Estocolmo, tremula uma bandeira. Não sei se ali é uma moradia, um restaurante, uma instituição ou o quê. Sei apenas que aqui, na chamada capital da Escandinávia, temos essa bandeira e eu a mesma nacionalidade: somos brasileiras. Eu, a passeio. A bandeira, bem, não sei o que faz uma bandeira do Brasil hasteada no topo de um edifício no centro da capital da Suécia além de evocar nessa turista aqui embaixo um sentimento piegas de amor à pátria. Mas a verdade é que, nesse momento, à vista desse símbolo pátrio no meio de uma rua em Estocolmo, me sinto um pouco menos estrangeira.
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Ambiente dentro de uma loja de departamentos

Não sei dizer o porquê, mas Estocolmo me parece a mais escandinava das cidades escandinavas que conheço. Suspeito que tenha algo a ver com esse design tão limpo, tão simples, tão difundido pelo mundo globalizado e que aqui se faz notar por tudo quanto é lado. Do mobiliário e decoração ao vestuário, tudo é de uma simplicidade poética. Tudo parece pensado para ter uma função prática e usual, tudo concebido dentro de uma estética visual com pouca informação, o que é um doce descanso para os olhos. Há pouco uso da cor, estampas são uma exceção, e o uso de fibras naturais e muita madeira são a exata medida do conforto e aconchego nesse país onde as temperaturas invernais são sempre negativas. Observo todas essas coisas e sinto, durante o passeio, o peso da contradição humana. Vivo num país tropical e colorido, por que então me sinto atraída por essa quase ausência de cor e por esse vento gelado que sopra em pleno verão aqui na Suécia?
Precisamente porque vivo num país tropical e colorido é que desejo o seu oposto. Um país tropical e colorido é o que haveria de desejar se eu vivesse aqui. Sempre alguma coisa nos falta, nos faz ressentidos, nos faz nostálgicos. E também disso somos contraditoriamente feitos.
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No interior do Museu Vasa

Estamos do lado de fora do Museu Vasa, o mais visitado dos museus nórdicos. Faz sol, e ninguém quer ficar à sombra. Nem mesmo essa mulher alta e magra, que agora vem se achegando de minha filha mais velha para conversar. À distância em que estou, e por causa do vento, ouço-lhes apenas uns fragmentos de diálogo, mas presumo um ar preocupado e levemente agitado no rosto dessa falante senhora. Venho saber depois: ela aguardava saírem do museu a filha e o namorado, a quem [a mãe] acabara de conhecer. Contava ela__ numa ânsia por desabafar__sobre a má impressão que o eleito da jovem lhe causara. Recém chegada de um intercâmbio na Alemanha, a menina trouxera para casa, em total intimidade, um desconhecido rapaz alemão, deixando a pobre mãe atordoada. Causou-me uma certa comoção que a angústia da mulher fosse tal que a tivesse levado a confessar-se com uma estranha à porta do museu. Quanta turbulência há de ter sacudido o edifício interno dessa pessoa para fazê-la falar, em língua estrangeira, sobre algo tão pessoal e íntimo? Afinal, fora ela mesma que o dissera: necessitava urgentemente desafogar-se através das palavras, dirigi-las a quem quer que fosse, libertá-las da prisão de seu peito. Quanto à minha filha, soube ser ouvinte e aconselhar de uma forma que eu mesma não teria sido capaz de fazer, porque os dramas maternais, incluindo os alheios, embaçam-me a visão e embargam-me a voz. Olho em redor à procura de ver outra vez essa mãe e seu desatino, de verificar se está menos desamparada após o desabafo, mas só o que vejo é uma multidão em busca de sol e luz. Ninguém quer ficar à sombra.
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Helsinque

 

O último dia em Helsinque, na Finlândia, é também o último dia desse belíssimo passeio pelos países escandinavos. É um dia cinzento, chuvoso, melancólico como as despedidas. E estamos, sim, a nos despedir. Não apenas da cidade__ que é bela, pacífica e urbanamente civilizada__, mas também de tudo o que representaram esses dias de lazer, cultura e conhecimento, boa gastronomia, e, sobretudo, de uma intensa e amorosa convivência familiar. Estamos a nos despedir desses dias de sonho e festa a que comumente chamamos férias.
Mas a bem da verdade, o último dia só não acaba se tornando ainda mais lamurioso porque, marinheiros de outras viagens, descobrimos o antídoto infalível contra a melancolia das despedidas: consiste, pois, em mal tendo acabado o passeio estarmos já a planejar o próximo. Não sei dizer se isso é bom ou se é mau, se é precipitado ou se nos impede de vivenciar de forma plena o sentimento natural que é essa tristeza de partir. Sei apenas que funciona, porque a névoa de nostalgia que ameaça se instalar, em verdade se dissipa tão logo se comece a cogitar o novo destino. E, afinal, talvez seja da natureza humana o desejo de sempre nos pormos em movimento. Ou culpa de alguma gravura que se viu na infância, como Erico bem assinalou:
“Creio que a gente viaja muitas vezes por culpa duma gravura que viu na infância, num velho livro. A ilha de Bali… Cena de rua em Hanói… Cerejeiras floridas em Washington… Voltamos a página, devaneamos um pouco, depois aparentemente esquecemos a figura. Mas acontece que a lembrança do clichê se transforma num desejo, e esse desejo fica como que adormecido durante anos e um dia, em a sorte ajudando, ele nos leva a viajar. Vamos ver a ilha mágica, as cerejeiras à beira do Potomac, a capital da Indochina __ para chegar à conclusão de que todos esses lugares e coisas não possuem na realidade metade da graça e da sugestiva poesia, já não digo das velhas gravuras, mas do mundo que elas criaram em nosso espírito. Verificamos também, quando em viagem pelo estrangeiro, que nossa casa, nossa querência __ que nos pareciam antes foscos, prosaicos e repetitivos __ ganham com a distância um lustro, um encanto tão grande como o da gravura da infância. Voltamos liricamente para a casa, julgando saciada nossa fome de horizontes. Mas um dia o velho livro nos cai de novo sob os olhos. Lá está a rua de Hanói, a ilha verde e as cerejeiras em flor. Ficamos outra vez a devanear, nostálgicos, e nosso desejo de viajar é tão grande que acaba nos jogando dentro dum trem ou dum avião, nem que seja para uma viagem intermunicipal.”

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A Estônia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

 

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Tallinn vista do alto

 

Nunca estive na Rússia, mas a visão à distância da Catedral Alexander Nevski, em Tallinn, Estônia, faz lembrar as cúpulas da Catedral de São Basílio em Moscou, que aprendi a reconhecer através dos livros de história. De perto, sua arquitetura em estilo russo se impõe de forma ainda mais majestosa. É impossível olhar para o alto de suas torres sem sentir uma pequena vertigem. Não faço questão de adentrar esse templo ortodoxo por uma razão muito simples: é agradável olhar para o edifício daqui onde estou. Vejo-o de frente, a uma quantidade de passos suficiente para vê-lo por completo, inteiriço, e fico maravilhada diante dessa imensa construção que mãos humanas foram capazes de erguer. Mas o interior da catedral me chama, ou antes, chamam-me os que entram, chama-me o imponderável que diz: “eis que tu estás aqui e agora. Toma o momento por único, porque assim o é.” Entro, afinal. Saio dois minutos depois. O cheiro forte das centenas de velas queimando me nauseia, cheira a velório de avô numa casa de interior. O imponderável é também a infância adormecida em nós.
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Portão da Fortaleza que dá acesso à cidade antiga

Caminhar por Tallinn__ passando pelos portões que conduzem à parte antiga e lentamente ir subindo ao centro histórico__ é render-se ao turismo contemplativo, que se congraça com os artistas de rua pintando telas, tocando um instrumento musical (há muitos violinistas pelos becos e ruelas), cantando, com os pequenos e charmosos restaurantes, com simpáticas cafeterias, com lojinhas de artesanato local, com gente de boa e de bem, com tudo, enfim, que faz bem aos olhos e à alma.
Sim, Tallinn é uma cidade turística, mas de um turismo feito sem pressa, andarilho, sossegado.
Sei que daqui a alguns dias ou meses, já de volta à minha terra, num dia qualquer da semana __ algo que, neste momento ainda desconheço, irá desencadear essa memória __ lembrarei dessa praça, do jovem violinista ao cordão da calçada, das pinturas expostas nos muros da fortaleza de pedra, do tranquilo vaivém de toda a gente, e sei que, ao lembrar, hei de sentir uma doce e terna saudade. E há também de me condoer __ ou talvez, consolar__ saber que lá, nessa mesma Tallinn que meus olhos registraram encantadora e medieval, a vida segue com outras gentes a passar pelo mesmo violinista, pelas mesmas pinturas, pelas mesmas praças. A vida segue em Tallinn como em qualquer outro lugar do mundo: irrefreável.

 

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Artista de rua
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Praça Central da Old Town

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Mercado das Flores

De regresso ao hotel, há que passar pelo grande portão da antiga fortaleza e pelo curioso mercado das flores, aberto 24 horas por dia, 365 dias ao ano. Pode parecer um exagero que essas bancas floridas estejam à disposição do consumidor o tempo todo, ainda mais quando se trata de um artigo que está longe de ser considerado item de primeira necessidade e que mesmo flor comestível ainda é coisa para poucos paladares. Mas é que em Tallinn é costume quando as pessoas se visitam (e devem se visitar muito) levar flores aos donos da casa. Gentilezas que, se não justificam o incessante comércio, certamente enfeitam com cor e perfume o cotidiano.
Mas é precisamente perto desse mercado que agora se acumula uma multidão. Formam um grande cordão humano a bloquear a rua que dá acesso ao antigo portão pelo qual desejamos passar. Não há tumulto, nem agitação, há apenas esse grande grupo de pessoas que, celulares à mão, fotografam ainda não sei bem o quê. Aproximo-me e vejo que a área toda está isolada e que há duas viaturas policiais e um caminhão de bombeiros. Estranhamente, não vejo sinais de acidente ou atropelamento, tampouco de fogo. Resolvo perguntar a uma jovem que ali está o que se passa. Ela me diz que não faz ideia do que está acontecendo, mas não me parece assustada ou preocupada. É quando percebo que há um grupo de adolescentes uniformizados, atendentes de um McDonald’s, do lado de fora do estabelecimento. Deixo-me levar pela curiosidade e, vencendo qualquer espécie de timidez, abordo uma das funcionárias para saber o que há. “A polícia está procurando por uma bomba ali dentro”, ela me diz com a simplicidade de quem anota um pedido. Tento disfarçar o pavor que sua frase me provoca e procuro, sobretudo, não bater em retirada imediatamente. Prolongo a breve conversação desejando-lhe que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto, mas tão logo lhe dou as costas, apresso o passo em direção aos meus e toco-lhes o terror. Saímos dali à procura de um outro caminho para o hotel, a considerar que, perto do mercado das flores, nem tudo são flores!
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Ao fundo, a Catedral Alexander Nevski, à noite

 

Já agora é noite nesse país báltico onde estou à janela do quarto. O que vejo à luz crepuscular, às vinte e duas horas dessa noite de verão, é nada menos do que um espetáculo epifânico. Sim, é uma verdadeira epifania a visão desses três templos iluminados por um céu tingido de ouro, paz e silêncio. Não sei descrever o que sinto, mas é bom, é manso, é sereno. Só sei olhar e sentir. Seja essa a minha prece.
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Fragmentos de um quase diário

 

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Nyhavn, em Copanhagen

 

 

A Dinamarca dos meus olhos

 

Que se tenha encontrado uma forma de medir a felicidade de um povo ainda é coisa que não consigo bem assimilar. Mas há. E a tal medida tem levado a distante Dinamarca a patamares bem elevados: por três anos consecutivos esse tem sido o país mais feliz do mundo.

Eu nada sabia dos tais índices de felicidade quando fui a Copenhagen pela primeira vez, e não sabê-lo fez a mesma diferença que há entre dois e um par: nenhuma. Aqui, a felicidade faz-se ver é no modo como a gente se sente, e toda a gente sente-se bem.

Pelas ruas de Copenhagen __ København, em bom e sonoro dinamarquês__ transitam rostos de olhos claros, de uma tez ou muito alva ou artificialmente bronzeada, de um semblante tranquilo e ar despreocupado. O ritmo da cidade em nada lembra as metrópoles europeias; nada é frenético, a esquizofrenia das ruas de Paris ou Roma não satisfaria aqui seu afã de pressa e consumo. Tudo é sustentável (ou busca ser), tudo é organizado e voltado para o bem-estar social, e o turismo está longe de ser massivo ou maçante. Tudo nessa cidade acolhe.

Agora mesmo entro numa cafeteria e é como se entrasse na sala de estar de uma casa: há sofás com mesa de centro, objetos decorativos, abajures, pessoas à vontade, conversando e, claro, tomando café. Penso imediatamente que o conceito tão em alta do “hygge” __ sobre como viver bem e com aconchego__ transpôs os muros dos lares dinamarqueses para frequentar também os espaços públicos, como a atestar que o mundo é mesmo um grande e acolhedor casulo.

Saio outra vez à rua e acabo por conversar com Úrsula, uma senhora dinamarquesa que fala um português impecável, e ela me diz que há séculos não existem analfabetos no país e me assegura ser a educação formal __ que é gratuita em todos os níveis, incluído o universitário__ a mola propulsora do desenvolvimento. Desde muito cedo, as crianças e jovens são estimulados a encontrar soluções criativas para todo o tipo de problema. Na opinião dessa jornalista, que atualmente trabalha como guia de turismo, o que a Dinamarca mais exporta é simplesmente o seu know-how. Aproveito que falamos sobre conhecimento para perguntar como adquiriu fluência na minha língua, e fico sabendo de sua vida uma história de amor que a fez viver por quatro anos no Brasil. Ah, sempre o amor. O amor desconhece fronteiras e faz as malas de idas e vindas com a mesma habilidade de um viajante profissional. Ouço Úrsula com atenção, mas é o verso do poeta libanês que me sussurra o final de sua história: “Só o amor e a morte mudam todas as coisas.” Se foi difícil aprender português? Difícil mesmo é falar dinamarquês, me garante essa falante nativa de uma língua que nunca irei aprender.

Prossigo o passeio até chegar ao Nyhavn, o mais reproduzido cartão-postal de Copenhagen. É nesse canal, margeado por restaurantes e bares, que o verdadeiro estado de espírito da capital dinamarquesa se faz sentir. Há descontração, despojamento, despreocupação. Há convivência, celebração, tranquilidade. Há boa música, boa comida, sorrisos nos rostos. Há, enfim, um clima de serena felicidade. Cai a noite e estou no país mais feliz do mundo.

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Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca

 

Sim, é uma menina dos olhos a bonita Dinamarca. Viajo entre cidades por autoestradas seguras e bem-cuidadas e secretamente invejo as belas condições de tráfego (e de vida) dos cidadãos dinamarqueses. Chego a Aarhus depois de uma rápida passagem por Odense __ terra natal de Hans Cristian Andersen__ e o que encontro é uma cidade incrivelmente limpa e calma, apesar de ser a segunda maior cidade do país. É domingo, quase não há gente pelas ruas, e o maior “agito” parece estar mesmo concentrado nos restaurantes ao longo do canal. Penso, aliás, que grande parte do charme das urbes dinamarquesas se deve a infinidade de canais que se distribuem por onde quer que se vá. São charmosos porque dão ares de romantismo, de uma natural boemia, de um congraçamento do bem-viver. Tão bom deixar-se estar, apreciar o vinho e o momento, fruir a passagem das horas com lassidão e indulgência. No país mais feliz do mundo a única urgência é ser feliz.

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Se de fato “há algo de podre no reino da Dinamarca”, não estive lá tempo o bastante para o perceber. Ademais, viajo como um legítimo estrangeiro deve viajar: com olhos para ver e perceber o que é belo e bom. A ver miséria, corrupção e violência, não necessito deixar minha pátria.

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É Saramago que me vem à lembrança agora: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” Sim, meus olhos precisavam desse alento, de ver beleza, respeito e cidadania em algum lugar. Precisava dessa viagem para desenhar uma saudade do meu país. É preciso estar longe para saber o lugar onde pertencemos. É preciso tomar um tempo, uma distância, para então regressar e ver, com o olhar benevolente de um estrangeiro, que também aqui há o bem, o belo e o bom. É preciso regressar estrangeiro para ver a própria terra com uma renovada esperança. Sim, já tenho olhos para voltar.

 

 

 

 

 

 

Citação · Viagem

De (vi)ver e escrever

 

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Minha alma, contente, está em preparativos de viagem. E quando falo em ‘preparativos’ não me refiro a nenhuma check-list para a mala nem a qualquer outra coisa de ordem prática. Falo de uma preparação do estado de espírito, de uma disposição interior para antecipar o contentamento pelo que se vai ver e viver, de uma silenciosa expectativa pelas emoções e sentimentos que, inexoravelmente, os lugares hão de despertar. Sim, há muito que sei, assim é que é: toda viagem começa e termina sempre em nós mesmos.

E porque tudo depende unicamente de nós, e porque a cada ano desconfio mais e mais dos olhos da memória _ já reparou o leitor que as lembranças se sobrepõem umas às outras e os olhos com os quais lembramos em muito diferem dos olhos que viram e viveram? _, decidi escrever. Vou prender as imagens, as impressões, as vivências às palavras. Amarrá-las o mais breve possível ao instante vivido. Concentrá-las num Moleskine à moda de um escritor antigo. Corro riscos, bem sei. Do maior deles advertiu-me Guimarães, em “Ave, Palavra”: “Redigir honesto um diário seria como deixar de chupar no quente cigarro, a fim de poder recolher-lhe inteira a cinza.”

Ok, talvez os registros não sejam feitos no imediato do instante, talvez eu trague o cigarro antes mesmo de encontrar a caneta na bolsa, talvez o mundo dê tantas voltas que eu acabe descendo. Talvez. Quem pode predizer o minuto seguinte? A vida também é papel em branco a receber às vezes um borrão, às vezes um poema.

Ainda assim, me proponho a fazer alguns registros. Andarei por lugares já vistos, pelas mesmas cidades e suas ruas, mas serão outras mesmo sendo as mesmas. Serão outras como outros já são os olhos que as veem. É fato: por onde quer que andemos, levaremos nossas retinas impregnadas de mundo, leitura e memória. Ver nunca é ver pela primeira vez. Erico Verissimo já bem o sabia quando se perguntou: “Quando nos será possível olhar o mundo com olhos sem memória, puros e naturais?”

Pois vou-me assim mesmo. Com olhos excessivamente lidos, cheios de literatura e poesia; com olhos satisfatoriamente viajados, cheios de paisagens urbanas e humanas; com olhos de ver não a cara, mas o coração. Vou-me, pois, com olhos que ainda se espantam diante da dor e do amor. Com olhos que reverenciam a graça de ver e que acham graça no movimento irrequieto dos aeroportos e estações. E porque “nunca desembarcamos de nós mesmos”, vou-me, pois, com os olhos meus.

Na bagagem de volta, hei de trazer os olhos mais gastos _ se Deus quiser, prazerosamente bem gastos. Tão gastos quanto as folhas de papel escritas, rasuradas, anotadas, compondo, quem sabe, um diário; quem sabe, uma fabulação.

Na de ida, levo pouco mais que a boa e sincera intenção da escrita; levo a certeza de que também escrever é um grande e profundo aprendizado, como bem constatou mestre Rosa: “Pôr tudo num diário é meio salutar de nos envergonharmos de nós mesmos para aperfeiçoamento.” Assim é que me vou. Au revoir.