Ver o mundo · Viagem

A Estônia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

 

1502903277744
Tallinn vista do alto

 

Nunca estive na Rússia, mas a visão à distância da Catedral Alexander Nevski, em Tallinn, Estônia, faz lembrar as cúpulas da Catedral de São Basílio em Moscou, que aprendi a reconhecer através dos livros de história. De perto, sua arquitetura em estilo russo se impõe de forma ainda mais majestosa. É impossível olhar para o alto de suas torres sem sentir uma pequena vertigem. Não faço questão de adentrar esse templo ortodoxo por uma razão muito simples: é agradável olhar para o edifício daqui onde estou. Vejo-o de frente, a uma quantidade de passos suficiente para vê-lo por completo, inteiriço, e fico maravilhada diante dessa imensa construção que mãos humanas foram capazes de erguer. Mas o interior da catedral me chama, ou antes, chamam-me os que entram, chama-me o imponderável que diz: “eis que tu estás aqui e agora. Toma o momento por único, porque assim o é.” Entro, afinal. Saio dois minutos depois. O cheiro forte das centenas de velas queimando me nauseia, cheira a velório de avô numa casa de interior. O imponderável é também a infância adormecida em nós.
**************************************************************************************

1502903368247
Portão da Fortaleza que dá acesso à cidade antiga

Caminhar por Tallinn__ passando pelos portões que conduzem à parte antiga e lentamente ir subindo ao centro histórico__ é render-se ao turismo contemplativo, que se congraça com os artistas de rua pintando telas, tocando um instrumento musical (há muitos violinistas pelos becos e ruelas), cantando, com os pequenos e charmosos restaurantes, com simpáticas cafeterias, com lojinhas de artesanato local, com gente de boa e de bem, com tudo, enfim, que faz bem aos olhos e à alma.
Sim, Tallinn é uma cidade turística, mas de um turismo feito sem pressa, andarilho, sossegado.
Sei que daqui a alguns dias ou meses, já de volta à minha terra, num dia qualquer da semana __ algo que, neste momento ainda desconheço, irá desencadear essa memória __ lembrarei dessa praça, do jovem violinista ao cordão da calçada, das pinturas expostas nos muros da fortaleza de pedra, do tranquilo vaivém de toda a gente, e sei que, ao lembrar, hei de sentir uma doce e terna saudade. E há também de me condoer __ ou talvez, consolar__ saber que lá, nessa mesma Tallinn que meus olhos registraram encantadora e medieval, a vida segue com outras gentes a passar pelo mesmo violinista, pelas mesmas pinturas, pelas mesmas praças. A vida segue em Tallinn como em qualquer outro lugar do mundo: irrefreável.

 

1502903393708
Artista de rua
1502902722792
Praça Central da Old Town

**************************************************************************************

 

1502904082969
Mercado das Flores

De regresso ao hotel, há que passar pelo grande portão da antiga fortaleza e pelo curioso mercado das flores, aberto 24 horas por dia, 365 dias ao ano. Pode parecer um exagero que essas bancas floridas estejam à disposição do consumidor o tempo todo, ainda mais quando se trata de um artigo que está longe de ser considerado item de primeira necessidade e que mesmo flor comestível ainda é coisa para poucos paladares. Mas é que em Tallinn é costume quando as pessoas se visitam (e devem se visitar muito) levar flores aos donos da casa. Gentilezas que, se não justificam o incessante comércio, certamente enfeitam com cor e perfume o cotidiano.
Mas é precisamente perto desse mercado que agora se acumula uma multidão. Formam um grande cordão humano a bloquear a rua que dá acesso ao antigo portão pelo qual desejamos passar. Não há tumulto, nem agitação, há apenas esse grande grupo de pessoas que, celulares à mão, fotografam ainda não sei bem o quê. Aproximo-me e vejo que a área toda está isolada e que há duas viaturas policiais e um caminhão de bombeiros. Estranhamente, não vejo sinais de acidente ou atropelamento, tampouco de fogo. Resolvo perguntar a uma jovem que ali está o que se passa. Ela me diz que não faz ideia do que está acontecendo, mas não me parece assustada ou preocupada. É quando percebo que há um grupo de adolescentes uniformizados, atendentes de um McDonald’s, do lado de fora do estabelecimento. Deixo-me levar pela curiosidade e, vencendo qualquer espécie de timidez, abordo uma das funcionárias para saber o que há. “A polícia está procurando por uma bomba ali dentro”, ela me diz com a simplicidade de quem anota um pedido. Tento disfarçar o pavor que sua frase me provoca e procuro, sobretudo, não bater em retirada imediatamente. Prolongo a breve conversação desejando-lhe que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto, mas tão logo lhe dou as costas, apresso o passo em direção aos meus e toco-lhes o terror. Saímos dali à procura de um outro caminho para o hotel, a considerar que, perto do mercado das flores, nem tudo são flores!
****************************************************************************************

 

 

1502903896612
Ao fundo, a Catedral Alexander Nevski, à noite

 

Já agora é noite nesse país báltico onde estou à janela do quarto. O que vejo à luz crepuscular, às vinte e duas horas dessa noite de verão, é nada menos do que um espetáculo epifânico. Sim, é uma verdadeira epifania a visão desses três templos iluminados por um céu tingido de ouro, paz e silêncio. Não sei descrever o que sinto, mas é bom, é manso, é sereno. Só sei olhar e sentir. Seja essa a minha prece.
****************************************************************************************

 

 

 

Ver o mundo · Viagem

Fragmentos de um quase diário

 

1501243886866
Nyhavn, em Copanhagen

 

 

A Dinamarca dos meus olhos

 

Que se tenha encontrado uma forma de medir a felicidade de um povo ainda é coisa que não consigo bem assimilar. Mas há. E a tal medida tem levado a distante Dinamarca a patamares bem elevados: por três anos consecutivos esse tem sido o país mais feliz do mundo.

Eu nada sabia dos tais índices de felicidade quando fui a Copenhagen pela primeira vez, e não sabê-lo fez a mesma diferença que há entre dois e um par: nenhuma. Aqui, a felicidade faz-se ver é no modo como a gente se sente, e toda a gente sente-se bem.

Pelas ruas de Copenhagen __ København, em bom e sonoro dinamarquês__ transitam rostos de olhos claros, de uma tez ou muito alva ou artificialmente bronzeada, de um semblante tranquilo e ar despreocupado. O ritmo da cidade em nada lembra as metrópoles europeias; nada é frenético, a esquizofrenia das ruas de Paris ou Roma não satisfaria aqui seu afã de pressa e consumo. Tudo é sustentável (ou busca ser), tudo é organizado e voltado para o bem-estar social, e o turismo está longe de ser massivo ou maçante. Tudo nessa cidade acolhe.

Agora mesmo entro numa cafeteria e é como se entrasse na sala de estar de uma casa: há sofás com mesa de centro, objetos decorativos, abajures, pessoas à vontade, conversando e, claro, tomando café. Penso imediatamente que o conceito tão em alta do “hygge” __ sobre como viver bem e com aconchego__ transpôs os muros dos lares dinamarqueses para frequentar também os espaços públicos, como a atestar que o mundo é mesmo um grande e acolhedor casulo.

Saio outra vez à rua e acabo por conversar com Úrsula, uma senhora dinamarquesa que fala um português impecável, e ela me diz que há séculos não existem analfabetos no país e me assegura ser a educação formal __ que é gratuita em todos os níveis, incluído o universitário__ a mola propulsora do desenvolvimento. Desde muito cedo, as crianças e jovens são estimulados a encontrar soluções criativas para todo o tipo de problema. Na opinião dessa jornalista, que atualmente trabalha como guia de turismo, o que a Dinamarca mais exporta é simplesmente o seu know-how. Aproveito que falamos sobre conhecimento para perguntar como adquiriu fluência na minha língua, e fico sabendo de sua vida uma história de amor que a fez viver por quatro anos no Brasil. Ah, sempre o amor. O amor desconhece fronteiras e faz as malas de idas e vindas com a mesma habilidade de um viajante profissional. Ouço Úrsula com atenção, mas é o verso do poeta libanês que me sussurra o final de sua história: “Só o amor e a morte mudam todas as coisas.” Se foi difícil aprender português? Difícil mesmo é falar dinamarquês, me garante essa falante nativa de uma língua que nunca irei aprender.

Prossigo o passeio até chegar ao Nyhavn, o mais reproduzido cartão-postal de Copenhagen. É nesse canal, margeado por restaurantes e bares, que o verdadeiro estado de espírito da capital dinamarquesa se faz sentir. Há descontração, despojamento, despreocupação. Há convivência, celebração, tranquilidade. Há boa música, boa comida, sorrisos nos rostos. Há, enfim, um clima de serena felicidade. Cai a noite e estou no país mais feliz do mundo.

*******************************************************************************************

 

20170709_190508
Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca

 

Sim, é uma menina dos olhos a bonita Dinamarca. Viajo entre cidades por autoestradas seguras e bem-cuidadas e secretamente invejo as belas condições de tráfego (e de vida) dos cidadãos dinamarqueses. Chego a Aarhus depois de uma rápida passagem por Odense __ terra natal de Hans Cristian Andersen__ e o que encontro é uma cidade incrivelmente limpa e calma, apesar de ser a segunda maior cidade do país. É domingo, quase não há gente pelas ruas, e o maior “agito” parece estar mesmo concentrado nos restaurantes ao longo do canal. Penso, aliás, que grande parte do charme das urbes dinamarquesas se deve a infinidade de canais que se distribuem por onde quer que se vá. São charmosos porque dão ares de romantismo, de uma natural boemia, de um congraçamento do bem-viver. Tão bom deixar-se estar, apreciar o vinho e o momento, fruir a passagem das horas com lassidão e indulgência. No país mais feliz do mundo a única urgência é ser feliz.

*****************************************************************************************

Se de fato “há algo de podre no reino da Dinamarca”, não estive lá tempo o bastante para o perceber. Ademais, viajo como um legítimo estrangeiro deve viajar: com olhos para ver e perceber o que é belo e bom. A ver miséria, corrupção e violência, não necessito deixar minha pátria.

*******************************************************************************************

É Saramago que me vem à lembrança agora: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” Sim, meus olhos precisavam desse alento, de ver beleza, respeito e cidadania em algum lugar. Precisava dessa viagem para desenhar uma saudade do meu país. É preciso estar longe para saber o lugar onde pertencemos. É preciso tomar um tempo, uma distância, para então regressar e ver, com o olhar benevolente de um estrangeiro, que também aqui há o bem, o belo e o bom. É preciso regressar estrangeiro para ver a própria terra com uma renovada esperança. Sim, já tenho olhos para voltar.