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A Noruega dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Passar da Dinamarca à Noruega é uma surpresa que se vai descortinando pelo caminho.De uma geografia plana e quase monótona a cercar a autoestrada, passamos a uma rodovia igualmente bem cuidada, mas sinuosa e estreita. Estamos adentrando terras norueguesas e não tardará a agigantar-se sobre o horizonte toda a exuberância dos fiordes.
Pela janela do ônibus panorâmico vejo esse cenário de montanha e de verde que vem dar ao pé de pitorescos vilarejos, com suas casas avermelhadas, de aberturas brancas e telhados pontiagudos. Riachos e cachoeiras bordam a paisagem de forma intermitente, brincando de se esconder e se revelar na próxima curva do caminho. Quisera ter os olhos aumentados, dilatados a poder alcançar todos os recantos desses vales incrustados à volta de cada fiorde. Diante de mim, da minha janela, o que há o tempo todo é uma tela gigante de beleza estonteante, um longa-metragem a passar, a passar e a passar. Tudo o que faço é deixar que a paisagem se mostre, se exiba, porque bem sei que “olhar, olhar, olhar é um cinema.”
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A natureza aqui parece ser sagrada, intocada e intocável, talvez porque protegida pelos lendários “trolls”, uma espécie de duendes de aparência muito feia, quase assustadora. Mas a verdade é que, com ou sem esses personagens do folclore escandinavo, o que se vê por aqui é uma natureza imaculada, sem o lixo e o descarte comumente produzidos pelo homem. É uma natureza sem interferências.
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Há, sim, campistas, pescadores, praticantes de esportes aquáticos, toda a gente aproveitando o que o curto verão nórdico tem para dar junto a esses bosques, rios e cascatas. Mas é como se não houvesse a mão humana sobre essa terra. É que os noruegueses desfrutam da natureza sem agredi-la, sem desrespeitá-la. Desfrutam-na de uma forma quase primitiva, o que quer dizer, em perfeita comunhão. O mais que deixam para trás de si, passada a época de veraneio, é o mesmo que encontraram: toda a exuberância do mundo natural.
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De todos os passeios pela Noruega, o mais impressionante é navegar pelos majestosos fiordes, esses dedos de mar que avançam pelas gigantescas montanhas rochosas. Nada sei sobre as leis que regem o universo, mas há uma aura de mistério e sacralidade por entre esses penhascos invadidos por um mar silencioso. Talvez seja isso também: se há um som no silêncio, é aqui que se pode ouvir. Quanta mansidão, quanta placidez, quanta serenidade emana desse espetáculo natural que o tempo esculpiu. Admirando esse colosso da natureza, só consigo pensar à moda de Adélia: o fiorde na minha mirada / ou é Deus/ ou é nada.
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Criança feliz e fantasiosa, eu vivia mesmo era para o Natal. Na verdade, ainda hoje, os dias de dezembro são sinônimos de uma alegria quase infantil que me invade o coração e a casa. Deve ser por isso que tão facilmente posso me imaginar vivendo no interior da Noruega: por esse espetáculo de vermelho e verde que são as casas rubras junto à natureza, a parecer um Natal de ano inteiro.

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Encontro Oslo, a capital, ligeiramente mudada (também eu?!). Não lembrava que fosse assim tão cosmopolita, o calçadão principal repleto de rostos mestiços, indianos, muçulmanos, ciganos. Há pedintes _ poucos, mas há_ sentados rente às paredes dos prédios. Não importunam os passantes, não se acercam, não os seguem. Marcam sua presença humildemente sentados, com olhar de súplica e com pequenos cartazes numa língua que me é enigmática, e que se faz acompanhar por fotos de crianças ou de algum outro familiar que logo imagino ter ficado distante, num país talvez em guerra. Alguns entoam uma espécie de cântico ou reza, e dessa língua estranha só consigo sentir que vem um apelo, um pedido qualquer a um deus ou aos homens, e me parece _ céus!_ que nem um, nem o outro está a ouvir.

 

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Escultura no Vigeland Park

Oslo, com suas praças floridas, sua alvíssima Ópera, sua moderníssima Estação Central, seu badalado cais do porto, seu visitadíssimo parque de esculturas inigualáveis, retratando o ciclo da vida humana, essa Oslo, que conheci há exatos quatro anos, continua linda. Mas a mínima lembrança daquela fração de sofrimento e miséria humana rente às paredes de seu calçadão principal, ainda ferem meus olhos e maculam _ inexoravelmente_ a cor desse fim de tarde.
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Um passeio por uma cidade nunca é completo sem uma visita a seus museus ou às galerias de arte. É pela história e pela arte de um povo que se chega o mais perto possível de conhecê-lo, isso no caso de não se dispor de um ano sabático para se deixar ficar e viver como vive um local. Por isso hoje amanheci contente: a agenda do dia me reserva dois museus _ e alegria suprema: são diversos dos visitados quando da primeira vez por essas terras_ e a Galeria Nacional. É nesta galeria, aliás, que deponho toda a minha alvissareira expectativa: estou prestes a ver_ de perto, de muito perto_ a mais famosa e difundida obra de Edward Munch: “O grito”. Sim, esse mesmo, o que inspirou o popular emoji usado nas redes sociais.
Nunca entro em uma galeria de arte sem desejar ter feito um melhor aproveitamento das aulas escolares sobre todos os períodos e mestres da pintura. Hoje, minha professora daquele tempo é também uma de minhas melhores amigas, artista plástica renomada, e tudo o que quero agora, enquanto subo o primeiro lance de escadas dessa imensa galeria, é que ela me perdoe pela desatenção adolescente e me ajude, me ensine a olhar. Sem o conhecimento, somos apenas espectadores; vemos mas não compreendemos, vemos mas não sabemos apreciar.

 

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Felizmente, há um jovem guia a explicar sobre algumas das obras expostas, o que já é alguma coisa. Meu olhar passeia pelos quadros e se detém nessa grande tela vertical em que uma menina, trajada de branco e sentada em uma cadeira hospitalar, com seu olhar penetrante, me intimida, me indaga. A pintura é assustadoramente real. Sinto toda a carga de uma misteriosa aflição estampada em seu rosto. Não sorri. Não há o mínimo vestígio de um sorriso em seus lábios. Tampouco há raiva ou contenção. Seu semblante é um enigma. É uma Monalisa ao fim da infância. Não chegará a adolescente, quanto mais à vida adulta. Deixará de viver antes mesmo de ter vivido. Se é mito ou verdade, tudo o que sei a respeito desse quadro é o que nos conta, num espanhol muito claro, esse guia que nos acompanha. E o que ele conta é que a infante, retratada pelo pintor norueguês Christian Krohg, de fato existiu, e ali se encontrava já em fase terminal de uma tuberculose que acabaria por levá-la pouco depois de concluída a obra de arte.
Seguimos parando o tempo todo a fim de observar, contemplar e ouvir as explanações sobre outras obras até chegarmos, finalmente, diante da angústia humana expressada por Munch em sua obra mais célebre. Ouvida a interpretação da obra, podemos já fotografá-la, porque, sim, não basta ver “O grito”, é preciso registrar que se esteve aqui, junto dele, na Galeria Nacional de Oslo. Nesse instante, penso em Gabriel García Márquez e seu “Viver para contar” e não resisto, diante da quantidade de selfies em frente ao quadro, a intitular a contemporaneidade da cena: “Viver para postar.”
Saio da galeria impressionada e não é com a obra que aqui vim ver. É antes com a obra que me viu, que me tocou: a desse pintor naturalista e sua menina enferma. De forma inevitável, acabo por comparar: o que acontece quando lemos um livro, acontece também quando vemos uma obra de arte: em essência, é a nós mesmos que vemos; é a nós mesmos que lemos.
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Da carta ao blog: lições da escrita

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Da carta ao blog: lições da escrita
Cris M. Zanferrari

“Se és feliz, escreve;
se és infeliz, escreve também.”
Machado de Assis

Faz poucos dias, concluí a leitura de um livro de cartas. Sim, sei que é no mínimo curioso que alguém se interesse por ler uma carta que não lhe foi endereçada. Por isso, explico: trata-se de cartas redigidas pelo ilustre escritor Mário de Andrade e destinadas a outro dos grandes: Carlos Drummond de Andrade. E o interesse vem do fato de que sempre há o que aprender com os grandes. Ou simplesmente, com os outros.

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade” me fez pensar, uma vez mais, na razão pela qual alguém escreve. Já li muitos artigos, já assisti a inúmeras entrevistas, já vi muitos escritores justificarem, cada qual à sua maneira, o que os leva a escrever. São motivos os mais diversos, os mais criativos, os mais existenciais possíveis. Longe está de se encontrar uma unanimidade nos depoimentos. Mas a franqueza de Mário ao amigo Drummond acende uma luz. Diz ele: “Estou criança e só o carinho me dá prazer e sossego. As minhas cartas são todas nesse sentido, pedidos de carinho.” Daí que quem escreve, escreve para satisfazer uma carência.

Mas não vá logo o leitor se apiedando do ser carente que escreve, porque por trás dessa carência há também uma presunçosa vaidade, que consiste em pensar que o que se escreve pode ter alguma serventia para quem lê. Ou seja, o texto escrito pode bem preencher as carências alheias. É o próprio Mário quem o diz: “[…] ter coragem das suas próprias besteiras me parece neste caso muito útil pros outros.” E, sim, escrever exige sempre uma certa coragem, porque sempre há o risco de o texto fugir ao sentido original, àquele que se pretendeu no momento mesmo da escrita, e aí então é como parir um filho que não saiu aos seus.

Ok, talvez eu esteja exagerando, mas o que quero dizer é que sempre que alguém escreve _ e estão aí incluídos os mais diversos tipos de texto: cartas, livros, teses, jornais, revistas, anúncios, blogs e um universo mais_ é para chamar a sua atenção. É para estabelecer alguma forma, qualquer que seja, de contato, de comunicação. De ponte. Só alcançamos o outro quando nos dirigimos a ele e ele nos devolve __ o seu olhar, a sua escuta atenta, o seu precioso tempo. Quem escreve é como quem fala: lança palavras para que elas ecoem. Sem eco e sem resposta, somos crianças buscando um carinho. Somos todos carentes.
Mário escrevia cartas pela mesma razão que escreve um qualquer escritor, jornalista ou blogueiro. Mário escrevia cartas para se sentir vivo, mas sobretudo para se sentir gente. É que o ser humano só se reconhece como verdadeiramente humano quando se relaciona com os outros. Até mesmo, e muito, por escrito. Quem escreve, escreve para se aproximar, para aplacar a sua, a nossa tão humana solidão. Escrevemos para estarmos mais próximos uns dos outros. E de nós mesmos.

Sim, porque o autor de Macunaíma também faz ver que escrever é, fundamentalmente, um exercício de autoconhecimento. Pensamos estar escrevendo para o outro quando, na verdade, escrevemos para nós mesmos. Deve ser por isso que é tão terapêutico (e recomendável) manter um diário. Quem assistiu a Escritores da Liberdade, filme baseado em uma história real, deve lembrar o quanto foi transformador e catártico, para aquela turma de alunos marginalizados, o uso da escrita como reescrita da própria história. Escrever nos reorganiza, nos confronta, nos liberta. É Mário, ainda outra vez, quem diz: “[…] estes raciocínios são mais pra mim que pra você mesmo. […] a maioria das cartas que escrevo são pra mim mesmo. É que desde muito ando completamente desguaritado de mim mesmo e carecendo me reachar.”

Nem todos seremos escritores, missivistas, jornalistas ou blogueiros. E só muito poucos serão grandes. Ainda assim é fato que sempre há o que aprender uns com os outros. Sempre há o que revelar-se a si. Por isso se escreve. Por isso se lê. E por isso se aprende: tudo na vida é lição.


Texto publicado em primeira mão em: http://www.consueloblog.com

 

Mood Board · Poema · Poesia · Sem categoria

Mood Board

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“e todos os dias
trazer à tona meu melhor rosto
[…]
e todos os dias
depurar o melhor de mim
[…]
e todos os dias
não deixar a sede vencer a garganta
não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)
[…]”

Caio Fernando Abreu

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A primavera olímpica

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Poema “Saudade”, de Arnaldo Antunes, apresentado na cerimônia de encerramento das Olímpiadas 2016, no Rio de Janeiro

Política e políticas (assim mesmo, no plural) à parte, os jogos olímpicos no Rio causaram comoção. A gente quase tinha esquecido desse sentimento tão bonito que é ser brasileiro, que é ter uma alma aguerrida, que é arrepiar-se ao som do hino nacional.

A gente quase não acreditava que esse país de tantas mazelas, de tanta desordem e corrupção, tivesse ainda tanta alegria pra dar.

A gente quase agourava, prevendo vexames e humilhações de toda espécie. A gente quase se envergonhava de ter reivindicado sediar um evento desse porte.

A gente quase esperava que tudo fracassasse, que fosse um fiasco, que fosse (mais uma) vergonha a ser estampada na mídia internacional.

E então, quando a gente sequer pagava pra ver, a gente viu.

A gente viu uma abertura que fez bonito. A gente viu atletas dando o melhor de si. A gente viu atletas subindo ao pódio. A gente viu seleções virando o jogo. A gente viu capacidade, talento e garra. A gente viu empenho, vontade e determinação. A gente viu um encerramento com frevo, forró, e poesia. A gente viu um país viver momentos de alegria e de uma _ainda que tênue_ inegável esperança.

E então, em pleno mês de agosto, com muito vento, chuva e frio, a gente se reconheceu e se refez verde e amarelo. Em pleno e corrente inverno, a gente assimilou que “toda glória é primavera.” Então e enfim, que conste dos registros históricos que também nós, brasileiros, tivemos nossa primavera olímpica.

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Palavra de Rachel de Queiroz

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Não, não me venham com retrospectivas de 2015. Que não suporto reviver mazelas, e 2015 foi ano delas nesse país que, por hábito de conjugação, ainda chamo de meu. Não, retrospectivas não. Que delas sempre pululam as más notícias a ofuscar as boas. E não é saudável que recordemos o que, em maior ou menor escala, nos atinge e nos faz mal. Que se danem, pois, as retrospectivas. Que se dane tudo o que de pior 2015 nos trouxe.

Que se dane. Que se dane. Que se dane.

Pra 2016, menos retrospectivas. Menos preconceito. Menos violência. Menos corrupção. Menos intolerância. Menos miséria. Menos seca. Menos enchente. Menos terror. Menos guerra. Menos rancor.

Pra 2016, apenas um desejo. Que não se dane.

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Talvez o último desejo

Rachel de Queiroz

    Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade – que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe.      Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz – o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!

Fonte: QUEIROZ, Rachel de. Talvez o último desejo. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.