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Por mais lua, conhaque [ou música]

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Por mais lua, conhaque [ou música]

Cris M. Zanferrari

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.”

Carlos Drummond de Andrade

Parem tudo, desliguem os celulares, cessem o monólogo interior. Eu hoje vim falar de música.

Acho que foi Nietzsche a dizer que “a vida sem música seria um erro.” Mas a verdade é que também sem arte e sem literatura, a vida seria igualmente um equívoco irremediável. É isto mesmo: sem a música, sem a arte e sem a literatura, estaríamos todos condenados.

Basta observar como o mundo anda excessivamente comovente. O que nos chega pela tela da TV ou do tablet nos assusta, nos põe em choque, nos comove. São imagens desumanas como essa do pai com os filhos gêmeos__ e sem vida__ ao colo. São cenas do terror atacando pedestres na ponte em Londres, e alguns dias depois, no calçadão em Estocolmo. Por aqui, o horror da morte de um estudante na frente de casa à volta da aula. Por aqui, as tragédias todas: a vida ceifada no trânsito, dentro dos muros escolares, diante dos filhos, diante dos pais, diante das câmeras, todas vigilantes, mas impotentes. Onde, afinal, se escondeu a paz?

Tanto excesso só pode ser anestesiante. De tanta comoção, já não nos comovemos mais. O choque diante da brutalidade humana dura o tempo da notícia, vira passado ainda que mal tenha passado. Que grande condenação é estarmos assim: dessensibilizados. Ou ao menos, pensar que assim estamos. Porque já não choramos mais diante dos horrores noticiados, acreditamos mesmo que estamos imunes, imperturbáveis, insensíveis. E então, quando menos se espera, uma música nos pega. Uma determinada música__ ouvida não importa onde, na rádio, em casa, num show __ nos desarma. E nos faz lembrar como se molham os olhos.

Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelos gêmeos ao colo do pai, pela menina morta no banheiro da escola, pela mãe que perdeu o filho. Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelas dores que há no mundo, por mim e por você, e__ paradoxalmente__ me faz chorar por ninguém.

É isso mesmo. Há músicas que nos fazem chorar porque sim. Porque não é preciso haver dor, tristeza ou raiva para que haja lágrima. Porque se pode, sim, chorar de um puro contentamento, de um puro transbordamento da emoção, de uma pura alegria que a música nos dá. A música desperta os nossos sentidos, e é tão sensorialmente estimulante que chega a literalmente arrepiar a pele numa espécie de, digamos, orgasmo musical. É forte o que digo porque é forte o que sinto. Por uma música assim vale a pena estar vivo.

É que a música __ tanto ou mais que a arte e a literatura__ nos põe num estado de (re)conexão com o que há de mais profundo e primevo em nós mesmos. A música alcança a nossa alma. A música __ assim como a arte e a literatura__ é a comoção que nos chega por meio da beleza. Comove porque a beleza se converte, dentro de nós, em puro e absoluto sentimento.

Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, fazia música com as palavras, e sobre a música propriamente dita escreveu inúmeros textos. Em um deles, sobre o samba, diz assim: “A malandragem existe mais no samba que na realidade. […] Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…”

Então é isso. Fazer música, tocar música, ouvir música. Musicar a vida para sentir mais e melhor. Musicar a vida para se comover e se sensibilizar. Musicar a vida para descobrir que dentro de cada um é onde a paz, finalmente, pode ser encontrada. Musicar a vida porque também a música é emoção.

Então é isso, Drummond. “Eu não devia te dizer”, mas também a música “bota a gente comovido feito o diabo.”


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

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