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“Avalovara”: itinerário de espinho e flor

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Quem já leu “O som e a fúria”, de William Faulkner, sabe o que é ter a sua capacidade leitora posta à prova. Não é diferente com “Avalovara”, de Osman Lins. Aliás, talvez seja. A diferença, nesse caso, é para um grau de dificuldade que foge a qualquer comparação. É muito provável que a sua competência de leitor se desfaça às primeiras páginas tanto quanto é possível que jamais se restabeleça até chegar às últimas. Isso no caso de chegar.

Exageros à parte, não me surpreenderia com leitores que abandonassem o livro por total falta de aptidão ou disposição para compreendê-lo. É preciso, sim, esforçar-se. É que “Avalovara” rompe com todos os padrões literários tais como os conhecemos. É um romance (?) que mais se parece com uma obra arquitetônica, cuja construção se dá bem diante dos olhos do leitor, como se fosse “em se fazendo”, se esquadrinhando em ‘tempo real’, conforme nos prepara (adverte?) o próprio narrador: “Pouco sabe do invento o inventor, antes de o desvendar com o seu trabalho.”

E o que se vê acontecer é uma obra de linguagem mais do que de narrativa, na qual se entretecem sentidos a uma profusão exponencial. Tudo é símbolo, simbologia, tudo se insere num universo delimitado por uma espiral e o quadrado que a contém (?), tudo se move e se orienta por um palíndromo cujas letras correspondem cada uma a um quadrado menor constituindo o quadrado. Enfim, em “Avalovara”, tudo é enigma, tudo é jogo. É preciso estar disposto a jogar.

Uma vez aceito o mirabolante esquema de leitura projetado pelo autor, é impossível abandoná-lo. Há qualquer coisa que nos seduz; uma coisa qualquer que se, por um lado, nos desencoraja a prosseguir, por outro lado nos incita, nos impele a seguir adiante. E não é em si o desejo de conhecer o que vai suceder entre Abel e suas três mulheres que nos faz prolongar a leitura. É antes o desejo de se manter no jogo, de se manter jogando, de se sentir enredado nessa aventura alucinante que é desvendar um texto e seu mundo. Que é, na verdade, desvendar a si mesmo.

Mas é preciso dizer: atravessei “Avalovara” com grande dificuldade e uma intermitente frustração. Sim, intermitente, porque momentos há em que se tem (ou se pensar ter) o texto sob controle: a narrativa é compreensível, inteligível, assimilável. E então, a contrapartida: momentos em que o texto se faz caótico, incompreensível, indecifrável. Talvez fosse esse mesmo o propósito de Osman com sua obra: deixar-nos perplexos. Tal qual o personagem Julius almeja com os sistemas de som de seu relógio: “colocar as pessoas […] na mesma atitude de perplexidade que se sofre perante o Universo.”

Por isso, de “Avalovara” pode-se dizer muitas coisas, só o que não se pode dizer é que o livro nos seja indiferente. É impossível não se deixar tocar pelas deliberações ao longo do texto (“Fio conduzido pela agulha são as vidas? Tua vida é agulha a costurar sem fio?”; “Colhe-se realmente entre canções quando em pranto jogamos as sementes?”; “Ama-se o que em quem se ama? O que, em quem amamos, faz com que o amor se manifeste?”). E são tantas, belas e surpreendentes as deliberações! De “Avalovara” pode-se dizer inclusive que é um metalivro a falar, através de uma metalinguagem, sobre o que é o livro, o que é o amor, o que é a vida.

Sim, pode-se dizer muitas coisas mais de “Avalovara”. Dizer, por exemplo, que das agruras do texto brotam espinhos e flor, sendo a flor um puro instante de poesia que se faz sentir na lavratura da palavra (como no trecho, de uma delicada beleza, em que o narrador nomeia “as horas” de “o hálito do tempo”). Por essa poesia que às vezes irrompe__ e ainda que somente por ela__ já o livro se justificaria.

E se falo em justificativa é porque precisei justificar-me por essa leitura. Em certa passagem do livro, diz Abel, o escritor-protagonista, que “ver é encargo tortuoso.” Pois bem. Digo eu, ao final dessa experiência, num exercício de absoluta honestidade para comigo __ e por que não dizer, para com você que me lê__ que, considerada a complexidade da obra, ler “Avalovara” também foi, em certo grau e medida, um tortuoso encargo.

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É verão, mas faz inverno (ou: Seleta de Letras: Luiz Sérgio Metz)

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É bruto o calor. São 37 graus de prostração, sede e suor. Sem brisa do mar, e ainda o mormaço varrendo as calçadas depois da súbita pancada de chuva.

Quem diz que gosta do verão que venha vivê-lo ao Sul. As temperaturas que aqui fazem, não as fazem como lá. Lá onde, mesmo? Lá pras bandas do propagandeado nordeste, com suas praias exuberantes e seu calor deleitável. Aqui não. Aqui o calor é literalmente prova de fogo, com a camada de ozônio mais danificada do país. Com a sensação térmica mais abafada que panela de arroz. Gaúcho quando gosta do verão é só por modo de justificar uma saudade da estação mais fria do ano.

A verdade é que acabo de ler “Assim na terra” e não sei se é o livro ou o calor infernal que me faz desejar o retorno do inverno, mas anseio pela estação dos ponchos e das geadas com a mesma intensidade com que sobem os termômetros pelo pampa afora.

É que preciso urgentemente reler o livro de Luiz Sérgio Metz sob o aconchego de uma manta, ao pé de uma lareira e com uma cuia de mate numa das mãos. É que preciso recriar a poesia do instante, da frase que é verso quando diz: “Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul.”É que preciso do “Inverno, flor de paina fria” para reacender o lume do meu coração. Sim, à moda de Adélia, só melhoro quando faz frio.

Só o frio tem o condão de nos levar à introspecção. Tudo no inverno se recolhe, se entoca, se concentra. A vida acontece do lado de dentro. É dentro _ de si e da casa_ que se agasalham as memórias, se contam acalorados causos, se aquecem as mãos e as almas. As horas passadas junto do fogão a lenha tecerão reminiscências de calor e afeto, de infância e de saudade. O frio é um texto que se lê ao avesso, ou seja, por dentro.

Em outras palavras: ler a obra de Metz requer essa mesma interiorização que nos exige o mais rigoroso dos invernos. No livro, como na casa, há frestas, frinchas, pelas quais resvalam sutilezas e devaneios, e por isso convém sempre perguntar: “Seria ‘lá fora’ um lugar além de nossas paredes?” Da mesma forma, convém fazer silêncio: “Quem pode ficar a sós com sua alma?”

“Assim na terra” não é livro. É lugar. É o próprio inverno, instando ao recolhimento, chamando à vida interior. O narrador e seu interlocutor, Gomercindo, fazem lembrar um pouco o próprio Riobaldo e seu compadre Quelemém, cavalgando e filosofando não pelas Gerais, mas pelo pampa gaúcho. Dentro de um galpão, o Pensário, é onde se desfiam lembranças, divagações, tergiversações: legítimas veredas. Diadorim, se há, converteu-se “no estojo de um camafeu” de onde as pequenas mãos acenavam e de cujas “bordas da fotografia o clima ia trabalhando um debruado que alcançava o contorno do corpo, como molestado por vitiligo. O mofo não impedia a vida na imagem.” Sobre esse amor, Gomercindo arremata com um pedido e um conselho dirigidos ao narrador: “Aonde a palavra alcança eu a visitei. Um assédio de tropos, a perda do foco e do conjunto. Isso tudo também passou. Gostaria que um dia tu levasses flores a esse retrato. E se um dia tiveres um, esquece-o. Vive o objeto do retrato. Ela é o sujeito. Esquece, portanto, o sentido. O sentimento é maior. Esquece-te para que ela surja. Gostaria que levasses a flor do linho. Ela gostava dessa, mais que de outra. Se puderes, planta-o. Depois dele, não há o azul.”

Mas há ainda outra coisa a se dizer: não espere o leitor encontrar esclarecimentos na narrativa de “Assim na terra.” Há, antes, uma fina cerração a encobrir o texto, camadas nebulosas de sentido e, sobretudo, uma densa, transbordante e onipresente poesia. Cada frase mais parece um verso, porque Metz dispôs da linguagem como um artista dispõe do pincel diante da tela: de modo a criar algo inteiramente novo, inusitado, e surpreendentemente belo. “Assim na terra” é o quadro de uma paisagem interior à espera de ser desbravada pelo leitor.

Lá fora, 37 graus de absurdo calor. Aqui dentro, o livro de Luiz Sérgio Metz inaugura o inverno. E prepara a alma para a mais aconchegante das estações.

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Colhi “versos” no jardim de poesia que é “Assim na terra.” Entrego-os ao leitor na esperança de que ele busque, algum dia, visitar o jardim original.

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“Deus nos fez com pressa, as mãos para o alto e o olhar para dentro, poucos no começo e poucos no fim.” (pág. 34)

“Saber também é um exercício de paralisação corajosa.” (pág. 74)

“A juventude é um merecido mergulho que às vezes damos num rio rolando sobre pedras.” (pág. 80)

“Olhar para trás na despedida é incluir um tempo em outro. A saudade que desce na lágrima no espaço de uma vidraça no tempo de uma viagem é mesmo pensamento. Pensamento ligado ao tempo, mas não é tempo. Durar sequer é tempo, mas pode ser amor.” (pág. 110)

“Tudo palavras, elas nos sustentam. Só elas penetram o corte, são o atalho. Elas desordenam, elas aparentam, aparecem, e somem nas essências. Gotas de apojo pingando na caneca. Buscamos alcançar o que intuímos, um ideal de nome para essa coisa, que já não mais está, ficou a palavra da coisa, e a palavra que muda é a que mais acompanha a coisa e a transforma.” (pág. 133)

“Há muito o que se fazer em terra, e ler sobre o mar também é ser do mar.” (pág. 147)

“A terra terminava bem perto, e assim na terra logo começava o céu. Por isso, na minha infância as coisas ainda desciam do céu para a terra e Deus, de vez em quando, fresteava a reza no quarto. Demorávamos a crescer, e como! As botas nos aguardavam novas em suas idades jovens. Um dia as usaríamos. Esse dia chega como todos os outros. Tardio.”(pág. 153)

“Talvez o fazer mude o sonho. O que não existe diz do que existe. […] Tudo na noite ressoa. Tive um livro que extraviei. Tratava de um povo que não conseguia mais usar sua linguagem, pois o conteúdo das palavras-chave fora alterado ou esquecido. Mas no texto havia uma esperança e numa altura da narrativa testemunha: um lugar é habitado e habitável quando dele se pode ter saudade, sempre e somente saudade.” (pág. 204, parágrafo final do romance.)

 Fonte: METZ, Luiz Sérgio. Assim na terra. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Amiga lição

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Numa época em que não existiam redes sociais, e-mail e que tais, eu usava escrever cartas. Mais que isso, eu adorava escrever cartas. É que sempre gostei mais de falar por escrito, de falar escrevendo mesmo. Escrevendo, falei com amigos, parentes e até desconhecidos. Sim, fiz amizades por pen-pal, uma espécie de chat por correspondência. Levava semanas e até meses, claro, para receber uma resposta, principalmente quando vinda do exterior. Mas era uma bonita espera.

Escrever uma carta é um pouco como desnudar-se. Numa carta, desvelam-se pensamentos os mais secretos, sentimentos os mais inconfessáveis, nacos de vida os mais intangíveis. Por isso, também é um pouco vouyer aquele que aprecia ler cartas alheias. A leitura das cartas dos outros é a observação curiosa e expectante sobre uma intimidade que, em verdade, não lhe diz respeito, mas que de alguma maneira o fascina. O leitor do gênero epistolar é antes de tudo um curioso, alguém que pensa ser capaz de apreender mais, de conhecer mais intimamente os interlocutores por meio desses diálogos escritos. E conhecer mais, para esse leitor, quer dizer assimilar aprendizagens, de vida e literatura, por meio da conversa escrita que é uma carta.

Sou assumidamente um desses leitores. Amo ler e reler as correspondências trocadas entre Clarice Lispector e suas irmãs, entre Clarice e Fernando Sabino, entre Pessoa e sua Ophélia, entre Rilke e seus contemporâneos, entre Caio Fernando e o seu rol de amigos, entre Tchékov e os seus, entre Mário de Andrade e Drummond. Dos dois últimos, leio “A lição do amigo” com um contentamento quase religioso.

Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade cultivaram uma amizade missivista por vinte anos. Isso mesmo. Durante vinte anos, o autor de Macunaíma e o poeta de Itabira foram amigos íntimos, trocaram conselhos literários, experiências de vida, conversaram fraternalmente, debateram assuntos linguísticos, fizeram confidências. Conviveram mesmo, literalmente, foi por escrito. É o próprio Drummond quem trata de esclarecer logo na apresentação do livro: “A bem dizer, e paradoxalmente, jamais convivi com Mário de Andrade a não ser por meio das cartas que nos escrevíamos […].” Paradoxal e intransponível, mas ainda assim: uma convivência. Poderia se dizer até mesmo: uma rica convivência. De uma riqueza que vem, nas palavras de Mário, do fato de “compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela.” Vivê-la, inclusive, por escrito.

Em uma nota de Antônio Cândido, lê-se que Mário de Andrade encarava a tarefa de escrever cartas como uma responsabilidade moral e literária tão grande quanto escrever poemas ou estudos. Diz Cândido que Mário via nas cartas “um instrumento de revelar beleza e servir ao próximo.” Mas talvez fosse ainda mais do que isso. Para o poeta de “Lira Paulistana” (seu último livro), redigir longas missivas era um gesto existencial. É ele mesmo quem o diz: “Escrevo mesmo só pra lembrar você de que existo.” Lembrando ao outro da sua existência, lembrava-se a si mesmo. E existia, largamente, pelas cartas. A verdade é que quem escreve quer estar perto, quer estar junto: “[…] escrevo por precisão de me sentir mais junto com os amigos.”

Mário de Andrade prezava por demais o valor da amizade. E se era certo que havia o desejo de transpor e de estender as relações amistosas do papel à vida real, era certo também que esse desejo se revestia de ofertas generosas, como esta feita através de um convite a Drummond para que fosse a São Paulo e fizesse um ‘retiro espiritual’. Assim dispôs Mário ao amigo: “Venha pois tentar dois meses sozinho. Talvez que uma intimidade mais objetiva com minha felicidade possa organizar você. Hei de achar jeito pra conversarmos bastante. Você aqui não está sozinho. Você entra e sai na minha casa a hora que quer. Se eu estiver trabalhando não deixo o trabalho por causa de você. Você fica mexendo no que quiser. Se quiser dormir durma. Se quiser ir à merda, eu não deixo. Se vier com confiança ou cerimônias, te dou um bruto dum soco e dois insultos de inhapa. E tenho um coração de ouro, com muita paciência e todos os perdões pra você.” Mário ofertava ao seu destinatário muito mais do que palavras. Ofertava sua casa, seu tempo, sua compreensão. E ofertava, sobretudo, uma amizade duradoura: “Que passem anos, se um dia um de nós sofrer e encontrar ou buscar o outro, sabe que nesse ombro terá descanso.”

Repletas de sabedoria, de experiência de vida, de literatura e de conselhos, as cartas de Mário seduzem e apaixonam o leitor por seu alto teor lírico e por sua finíssima carga poética. “A lição do amigo” é mesmo repleta de lições, e é também uma prova irrefutável de que ler a correspondência alheia pode ser útil, proveitoso, e nem um pouco indecoroso, principalmente quando o próprio remetente consente em que sejam publicadas: “Está claro que isso é o que mais me absolve de minhas cartas. Foram escritas com tamanho amor, tamanha integração, tão decisórias como esses momentos raros de que a gente ‘nunca se esquece na vida.’”

Esteja em paz, Mário. Mais do que absolvição, as tuas cartas te elevam àquela categoria de texto do qual se diz, num perfeito estado de sublimação: é literatura que ajuda a viver. Muito obrigada pela amiga lição.

 

Literatura · Livros · Poema · Poesia · Resenha

As mortes de Carpinejar

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Carpinejar exercita morrer. Parece até manchete jornalística, mas é só uma constatação. Que me vem da leitura de seu mais recente livro, “Todas as mulheres”. Que me vem dessa leitura somada à leitura de seu “Terceiro sede”. Ambos são livros de poesia. Fina poesia.

Na obra recém-lançada, o poeta imagina-se morto, e pergunta reiteradamente: “Quem será a minha viúva?” Na obra de 2001, Fabrício Carpinejar imagina-se velho, ele próprio o viúvo. Exercícios, portanto, da imaginação poética de quem se antecipa à própria vida. Da vida com seus amores, memórias e dores. Será a dor imaginada menos dor que a dor deveras vivida? Não creio. Não o crê o poeta: “Aqui nada é real. Mas o que é real?/ A literatura ou o que escapa da escrita?”

Ao poeta, como a todo artista, é lícito viver muitas vidas em uma. E ao fazê-lo, permite que também nós o façamos. Por intermédio de sua obra, também nós nos vemos velhos, mortos, chorados ou a chorar. Também nós exercitamos morrer. Também nós exercitamos viver.

Ler a poesia de Carpinejar faz doer a alma. Faz entrar em transe. Desprepara sentimentos. Desnorteia a emoção. Ler a poesia de Carpinejar é enternecer-se de humanidades.

“Quem será a minha viúva?”, pergunta o poeta a costurar curiosidades.

Somos nós as tuas viúvas.
As que te leram com arroubos de um primeiro amor.
As que te leram da única forma possível: com profunda devoção.
Seremos sempre nós.
Incuráveis da viuvez.
Incuráveis da tua voz.
Da tua poesia.
Da fina poesia tua.

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“Quem será a minha viúva?

Quem, dentre todas as que me amaram, realmente

[me guarda intacto?

Quem não mentiu seu amor, não desistiu de mim

[desfeito o trato?

Quem é o cristal no meio das garrafas lascadas e

[anjos caídos?

A que está perto do caixão ou a dissimulada do

[fundo da sala,

que pintou as unhas das mãos e dos pés para

[minha morte?

A que segura a argola do féretro como se fosse seu

[bracelete

ou a férrea e orgulhosa, que nem veio se despedir?”

Fabrício Carpinejar, no poema de abertura de seu mais recente livro: “Todas as mulheres.”

Cris · Minhas "croniquetas" · Resenha

Lição de Amizade

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Lição de amizade

Cris M. Zanferrari

Adam Lerner é jovem. Tem 27 anos e um câncer. De um tipo raro, mas nem tão raro como se descobrir jovem e com câncer. Adam Lerner é o protagonista do sensível e contundente “50/50”.

Não sei o que diz a crítica especializada sobre o filme e, francamente, não me importa. Não que eu menospreze a bagagem cultural e o profundo conhecimento de artes cênicas dos críticos. Não é isso. O que ocorre é que cada vez mais percebo que as impressões acerca de uma obra _seja uma tela, um filme, um poema , uma peça teatral_ dizem respeito unicamente à subjetividade do nosso olhar. Ou seja, o território das emoções alheias é vasto demais para caber na mais bem intencionada das críticas. Ou nos toca, ou não nos toca. Simples assim.

Pois bem. “50/50”, ou “50 por cento” como foi traduzido, com seu enredo (aparentemente) piegas, me tocou. Não sei se conseguirei me explicar, porque o que é do campo das emoções nem sempre se colhe através de palavras. O fato é que a história mostra todos os estágios pelos quais uma pessoa passa ao se descobrir com uma doença fatal. São fases que vão do estado de choque à aceitação, passando pela negação e resistência. Nada disso me comoveu. Nem mesmo a veterana Angelica Houston no papel da mãe excessivamente protetora e devastada pela situação. O que me encheu de ternura foi algo talvez um tanto óbvio, como tantas obviedades que_ de tão óbvias_ passam batidas: o valor da amizade.

Kyle é o amigo-de-todas-as-horas de Adam que não hesita em usar o câncer alheio como pretexto para atrair mulheres. É bizarro, mas é apenas o melhor amigo sendo quem ele é. Porque amigos se solidarizam com a nossa dor, mas têm a sua própria vida. Podem sofrer junto, mas não em nosso lugar. Não abandonarão o seu jeito de ser por nossa causa _e se os queremos bem, talvez seja precisamente por serem como são. Amigos de verdade seguem com suas vidas sim, mas não se afastam, não recuam, apenas fazem o que melhor sabem fazer, nos momentos de alegria ou de dor: se fazem presentes. Como Kyle se fez. O tempo todo.

Existem, claro, amigos que mesmo à distância ligam ou escrevem, dão notícias, pedem por notícias, demonstram carinho e se importam. De alguma forma, estão por perto mesmo estando distantes. Mas vamos combinar, não há whatsapp ou skype que possa suprir o que só a presença física nos traz: a possibilidade do toque. Precisamos da densidade do outro, da mão no ombro, da mão na mão, do abraço que dispensa as palavras porque é pleno de sentidos. Precisamos enxergar a gargalhada sincera do outro, o olhar marejado, o tique nervoso, a covinha na maçã do rosto, o furinho no queixo. Precisamos que tudo seja tridimensional, concreto, palpável, que esteja a um toque das mãos e a poucos centímetros do olhar. Precisamos do outro na vida que é real, para nos adensar, para nos expandir, para nos sabermos também reais, e um pouco menos sós .

50/50 está longe, bem longe, de ser um “filmão”. Muito provavelmente não o assistirei uma segunda vez. Não será preciso. A lição que tirei dele se aprende de primeira, e na verdade me foi dada muito antes de assisti-lo, me é dada diariamente, no que a vida tem de mais cotidiano: haver gente que nos dá, e a quem também damos, a mais pura amizade. E “amizade dada é amor”, já dizia o mestre Rosa pela voz de Riobaldo. Pode haver lição mais bonita do que essa?

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O trailer oficial do filme você pode ver em https://www.youtube.com/watch?v=vyEmMbhbIT0  Você também poderá encontrá-lo no Netflix.