Citação · Literatura · Viagem

A Suécia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Estocolmo

Estamos, desde ontem, na capital da Suécia, com tempo o suficiente para algumas das visitas de praxe nessa cidade-arquipélago, incluindo um passeio de barco.
Hoje, saímos a caminhar em direção a Gamla Stan, a cidade velha ou centro histórico, com construções medievais que agora abrigam, em sua maioria, lojinhas, cafés e restaurantes. Partindo do hotel, o percurso até o bairro antigo é tranquilo e sossegado, e as cenas são típicas de uma urbe qualquer: pessoas se deslocando de um lado a outro, trabalhando, se exercitando, negociando, gerindo suas vidas e carreiras enquanto nós, em família, turistamos. “Quando caminho pelas ruas duma grande cidade todo o meu desejo é deixar-me levar, sem plano nem bússola, como que erguido na crista da onda humana que coleia nas calçadas.” Ser turista é um pouco isso mesmo, meu querido Verissimo: deixar-se levar, sem nunca ter um compromisso urgente nos aguardando. Mas deixar-se levar é um luxo que só nos cabe quando o cotidiano pelo qual perambulamos não é o nosso.
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Um dos inúmeros becos em Gamla Stan

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No alto do edifício, ao final dessa quadra no centro comercial de Estocolmo, tremula uma bandeira. Não sei se ali é uma moradia, um restaurante, uma instituição ou o quê. Sei apenas que aqui, na chamada capital da Escandinávia, temos essa bandeira e eu a mesma nacionalidade: somos brasileiras. Eu, a passeio. A bandeira, bem, não sei o que faz uma bandeira do Brasil hasteada no topo de um edifício no centro da capital da Suécia além de evocar nessa turista aqui embaixo um sentimento piegas de amor à pátria. Mas a verdade é que, nesse momento, à vista desse símbolo pátrio no meio de uma rua em Estocolmo, me sinto um pouco menos estrangeira.
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Ambiente dentro de uma loja de departamentos

Não sei dizer o porquê, mas Estocolmo me parece a mais escandinava das cidades escandinavas que conheço. Suspeito que tenha algo a ver com esse design tão limpo, tão simples, tão difundido pelo mundo globalizado e que aqui se faz notar por tudo quanto é lado. Do mobiliário e decoração ao vestuário, tudo é de uma simplicidade poética. Tudo parece pensado para ter uma função prática e usual, tudo concebido dentro de uma estética visual com pouca informação, o que é um doce descanso para os olhos. Há pouco uso da cor, estampas são uma exceção, e o uso de fibras naturais e muita madeira são a exata medida do conforto e aconchego nesse país onde as temperaturas invernais são sempre negativas. Observo todas essas coisas e sinto, durante o passeio, o peso da contradição humana. Vivo num país tropical e colorido, por que então me sinto atraída por essa quase ausência de cor e por esse vento gelado que sopra em pleno verão aqui na Suécia?
Precisamente porque vivo num país tropical e colorido é que desejo o seu oposto. Um país tropical e colorido é o que haveria de desejar se eu vivesse aqui. Sempre alguma coisa nos falta, nos faz ressentidos, nos faz nostálgicos. E também disso somos contraditoriamente feitos.
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No interior do Museu Vasa

Estamos do lado de fora do Museu Vasa, o mais visitado dos museus nórdicos. Faz sol, e ninguém quer ficar à sombra. Nem mesmo essa mulher alta e magra, que agora vem se achegando de minha filha mais velha para conversar. À distância em que estou, e por causa do vento, ouço-lhes apenas uns fragmentos de diálogo, mas presumo um ar preocupado e levemente agitado no rosto dessa falante senhora. Venho saber depois: ela aguardava saírem do museu a filha e o namorado, a quem [a mãe] acabara de conhecer. Contava ela__ numa ânsia por desabafar__sobre a má impressão que o eleito da jovem lhe causara. Recém chegada de um intercâmbio na Alemanha, a menina trouxera para casa, em total intimidade, um desconhecido rapaz alemão, deixando a pobre mãe atordoada. Causou-me uma certa comoção que a angústia da mulher fosse tal que a tivesse levado a confessar-se com uma estranha à porta do museu. Quanta turbulência há de ter sacudido o edifício interno dessa pessoa para fazê-la falar, em língua estrangeira, sobre algo tão pessoal e íntimo? Afinal, fora ela mesma que o dissera: necessitava urgentemente desafogar-se através das palavras, dirigi-las a quem quer que fosse, libertá-las da prisão de seu peito. Quanto à minha filha, soube ser ouvinte e aconselhar de uma forma que eu mesma não teria sido capaz de fazer, porque os dramas maternais, incluindo os alheios, embaçam-me a visão e embargam-me a voz. Olho em redor à procura de ver outra vez essa mãe e seu desatino, de verificar se está menos desamparada após o desabafo, mas só o que vejo é uma multidão em busca de sol e luz. Ninguém quer ficar à sombra.
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Helsinque

 

O último dia em Helsinque, na Finlândia, é também o último dia desse belíssimo passeio pelos países escandinavos. É um dia cinzento, chuvoso, melancólico como as despedidas. E estamos, sim, a nos despedir. Não apenas da cidade__ que é bela, pacífica e urbanamente civilizada__, mas também de tudo o que representaram esses dias de lazer, cultura e conhecimento, boa gastronomia, e, sobretudo, de uma intensa e amorosa convivência familiar. Estamos a nos despedir desses dias de sonho e festa a que comumente chamamos férias.
Mas a bem da verdade, o último dia só não acaba se tornando ainda mais lamurioso porque, marinheiros de outras viagens, descobrimos o antídoto infalível contra a melancolia das despedidas: consiste, pois, em mal tendo acabado o passeio estarmos já a planejar o próximo. Não sei dizer se isso é bom ou se é mau, se é precipitado ou se nos impede de vivenciar de forma plena o sentimento natural que é essa tristeza de partir. Sei apenas que funciona, porque a névoa de nostalgia que ameaça se instalar, em verdade se dissipa tão logo se comece a cogitar o novo destino. E, afinal, talvez seja da natureza humana o desejo de sempre nos pormos em movimento. Ou culpa de alguma gravura que se viu na infância, como Erico bem assinalou:
“Creio que a gente viaja muitas vezes por culpa duma gravura que viu na infância, num velho livro. A ilha de Bali… Cena de rua em Hanói… Cerejeiras floridas em Washington… Voltamos a página, devaneamos um pouco, depois aparentemente esquecemos a figura. Mas acontece que a lembrança do clichê se transforma num desejo, e esse desejo fica como que adormecido durante anos e um dia, em a sorte ajudando, ele nos leva a viajar. Vamos ver a ilha mágica, as cerejeiras à beira do Potomac, a capital da Indochina __ para chegar à conclusão de que todos esses lugares e coisas não possuem na realidade metade da graça e da sugestiva poesia, já não digo das velhas gravuras, mas do mundo que elas criaram em nosso espírito. Verificamos também, quando em viagem pelo estrangeiro, que nossa casa, nossa querência __ que nos pareciam antes foscos, prosaicos e repetitivos __ ganham com a distância um lustro, um encanto tão grande como o da gravura da infância. Voltamos liricamente para a casa, julgando saciada nossa fome de horizontes. Mas um dia o velho livro nos cai de novo sob os olhos. Lá está a rua de Hanói, a ilha verde e as cerejeiras em flor. Ficamos outra vez a devanear, nostálgicos, e nosso desejo de viajar é tão grande que acaba nos jogando dentro dum trem ou dum avião, nem que seja para uma viagem intermunicipal.”

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Citação · Literatura · Livros

Pretexto para falar de amor

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PRETEXTO PARA FALAR DE AMOR
Cris M. Zanferrari

O dia dos namorados já passou, mas continua sendo junho, o mês do amor. Ao menos assim se convencionou. E convenções, ao contrário do amor, são pré-estabelecidas, anunciadas, sacramentadas. Amor que é amor foge a todas as regras, bule com a previsibilidade, não se submete a códigos sociais. Amor que é amor não carece de definição, não se explica e a verdade é que nem pode muito o amor. Aliás, pode muito pouco o amor.
Amor não passa de sentimento, e sentimentos não curam doenças incuráveis, não impedem atropelamentos, não protegem contra a violência social, não saciam a fome, não cessam as guerras, não são o bastante para mudar o curso de um rio. Amor_ esse sentimento_ é inapto a tomar para si a dor alheia. Por mais que se ame, o amor é impotente para a cura.
Que pouco ou nada pode o amor foi coisa que li em livro. Coisa dura, áspera, de difícil digestão. Mas compreensível e aceitável. Diz o personagem, velho pai acamado, diante da impossibilidade de amparar e cuidar de suas filhas: “Que pode o meu amor fazer por elas? O amor não tem instrumentos. Tem os instrumentos do prazer. Nada mais. É um evento em si mesmo. Às vezes pode-se fazer correrem, para os seres a quem se ama, os rios da alegria e da fartura. Mas é por acaso. Seu amor, no fundo, não é responsável por isso.” O amor, sendo só sentimento, não dispõe de instrumental para nada além de amar.
Mas ouso dizer que se o amor pode pouco, amar pode mais. Porque amar faz bem _ sobretudo_ a quem ama. Amar é o que dá sentido à vida, muito mais do que ser amado. Pessoas são amadas e nem por isso abandonam as drogas. Pessoas são amadas e ainda assim cometem suicídio. Pessoas são amadas e nem sempre amam a quem as ama. Ser amado é bom, é importantíssimo, mas não é o suficiente. Amar é que é vital. É que as pessoas só mudam a si e ao mundo quando elas mesmas descobrem, decidem ou aprendem o que é amar. Amar o que quer que seja: uma pessoa, um bicho, uma causa, um estilo de vida, uma doutrina religiosa, a natureza. É que amar, e só amar, plenifica, dignifica, justifica a nossa existência. É quando amamos _ não quando somos amados_ que encontramos a nossa razão de ser. É, pois, só na passagem de objeto a sujeito do amor que nos salvamos.
E não, não estou dizendo que amar e ser amado, amar e ser correspondido, não seja a graça das graças, o final feliz que tanto perseguimos e ambicionamos. Mas falar disso seria quase que falar exclusivamente do amor romântico, o que seria, por fim, limitar o amor. E quando se fala em amor, nada há que se limitar.
Enfim, voltamos ao calendário, e ainda é junho, é ainda o mês do amor. E convenções à parte, a verdade é que sempre é tempo para se falar das coisas do coração, porque este sim [o coração] é que é “o relógio da vida”, e afinal, “quem o não consulta, anda naturalmente fora do tempo.”

 

 

Citação · Companhia das Letras · Literatura · Livros · Resenha

“Avalovara”: itinerário de espinho e flor

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Quem já leu “O som e a fúria”, de William Faulkner, sabe o que é ter a sua capacidade leitora posta à prova. Não é diferente com “Avalovara”, de Osman Lins. Aliás, talvez seja. A diferença, nesse caso, é para um grau de dificuldade que foge a qualquer comparação. É muito provável que a sua competência de leitor se desfaça às primeiras páginas tanto quanto é possível que jamais se restabeleça até chegar às últimas. Isso no caso de chegar.

Exageros à parte, não me surpreenderia com leitores que abandonassem o livro por total falta de aptidão ou disposição para compreendê-lo. É preciso, sim, esforçar-se. É que “Avalovara” rompe com todos os padrões literários tais como os conhecemos. É um romance (?) que mais se parece com uma obra arquitetônica, cuja construção se dá bem diante dos olhos do leitor, como se fosse “em se fazendo”, se esquadrinhando em ‘tempo real’, conforme nos prepara (adverte?) o próprio narrador: “Pouco sabe do invento o inventor, antes de o desvendar com o seu trabalho.”

E o que se vê acontecer é uma obra de linguagem mais do que de narrativa, na qual se entretecem sentidos a uma profusão exponencial. Tudo é símbolo, simbologia, tudo se insere num universo delimitado por uma espiral e o quadrado que a contém (?), tudo se move e se orienta por um palíndromo cujas letras correspondem cada uma a um quadrado menor constituindo o quadrado. Enfim, em “Avalovara”, tudo é enigma, tudo é jogo. É preciso estar disposto a jogar.

Uma vez aceito o mirabolante esquema de leitura projetado pelo autor, é impossível abandoná-lo. Há qualquer coisa que nos seduz; uma coisa qualquer que se, por um lado, nos desencoraja a prosseguir, por outro lado nos incita, nos impele a seguir adiante. E não é em si o desejo de conhecer o que vai suceder entre Abel e suas três mulheres que nos faz prolongar a leitura. É antes o desejo de se manter no jogo, de se manter jogando, de se sentir enredado nessa aventura alucinante que é desvendar um texto e seu mundo. Que é, na verdade, desvendar a si mesmo.

Mas é preciso dizer: atravessei “Avalovara” com grande dificuldade e uma intermitente frustração. Sim, intermitente, porque momentos há em que se tem (ou se pensar ter) o texto sob controle: a narrativa é compreensível, inteligível, assimilável. E então, a contrapartida: momentos em que o texto se faz caótico, incompreensível, indecifrável. Talvez fosse esse mesmo o propósito de Osman com sua obra: deixar-nos perplexos. Tal qual o personagem Julius almeja com os sistemas de som de seu relógio: “colocar as pessoas […] na mesma atitude de perplexidade que se sofre perante o Universo.”

Por isso, de “Avalovara” pode-se dizer muitas coisas, só o que não se pode dizer é que o livro nos seja indiferente. É impossível não se deixar tocar pelas deliberações ao longo do texto (“Fio conduzido pela agulha são as vidas? Tua vida é agulha a costurar sem fio?”; “Colhe-se realmente entre canções quando em pranto jogamos as sementes?”; “Ama-se o que em quem se ama? O que, em quem amamos, faz com que o amor se manifeste?”). E são tantas, belas e surpreendentes as deliberações! De “Avalovara” pode-se dizer inclusive que é um metalivro a falar, através de uma metalinguagem, sobre o que é o livro, o que é o amor, o que é a vida.

Sim, pode-se dizer muitas coisas mais de “Avalovara”. Dizer, por exemplo, que das agruras do texto brotam espinhos e flor, sendo a flor um puro instante de poesia que se faz sentir na lavratura da palavra (como no trecho, de uma delicada beleza, em que o narrador nomeia “as horas” de “o hálito do tempo”). Por essa poesia que às vezes irrompe__ e ainda que somente por ela__ já o livro se justificaria.

E se falo em justificativa é porque precisei justificar-me por essa leitura. Em certa passagem do livro, diz Abel, o escritor-protagonista, que “ver é encargo tortuoso.” Pois bem. Digo eu, ao final dessa experiência, num exercício de absoluta honestidade para comigo __ e por que não dizer, para com você que me lê__ que, considerada a complexidade da obra, ler “Avalovara” também foi, em certo grau e medida, um tortuoso encargo.

Companhia das Letras · Literatura · Livros

Bernardo e Teresa, uma história de amor

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Não, não é pra ser uma história de amor, mas ainda assim é das mais belas histórias de amor que até hoje meus olhos já leram. É pra ser a história de um homem de espírito indomável, resiliente e fiel aos seus princípios e valores. Mas não, não seria a mesma história sem o amor que o sustenta, fortalece e apazigua. Estou falando do romance “O fiel e a pedra”, do pernambucano Osman Lins.

Cheguei ao livro desavisada desse amor. Amigos recomendaram-me a leitura, a sinopse me apresentou uma “saga quase mítica”, um “arquetípico confronto do Bem contra o Mal”, mas nada nem ninguém me preparou para a fúria poética de tão grande e obstinado amor.

Sim, a literatura universal nos presenteou com amores trágicos e inesquecíveis: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. A literatura brasileira nos concedeu o também trágico amor de Riobaldo e Diadorim, mas foi a literatura regional nordestina que me arrebatou com um amor a toda prova, encravado a ferro e fogo nas vidas de Bernardo e Teresa. Bernardo e Teresa são a encarnação de um amor que__ mais do que resistir aos trágicos eventos __ extrai de toda fatalidade a sua força e o seu alimento.

A perda do único filho, bem ao início do romance, dá o tom e a medida das vidas desse casal de nordestinos. Marcados por essa dor, que jamais os abandonará, buscam recomeçar a vida longe de tudo e de todos, num engenho onde Teresa será a única mulher e onde a hostilidade de “uns tipos duvidosos” crescerá à medida mesma das tensões e conflitos que os funestos acontecimentos trarão. A amparar marido e mulher, um amor crescente, a verdejar sobre a aridez dos dias e da terra.

Esse amor, esse “forte amor”, costurado à linha do tempo e da narrativa, tece seu mais nítido bordado em uma fala de Teresa, a consolar Bernardo de sua angústia por tê-la deposado sem poder lhe oferecer o conforto que ela merece. Diz Teresa: “Eu tenho muito, Bernardo: aí está você. Imagine quantos se querem neste mundo e gostariam de ter o que nós temos: o direito de estar aqui, sem conforto algum, ameaçados, mas juntos, o homem ouvindo a confissão da mulher, a mulher com um filho do homem no seu sangue. E os dois com a lembrança de um filho que morreu. Eu tenho certeza, há casais que dariam metade de sua vida por isto, pelas dores comuns que sofremos, pelo privilégio de recordar um filho morto, mas deles. Como iria eu desejar mais do que tenho? Como posso lamentar o que tem sido a minha glória?” Isso tudo diz a mulher, e diz ainda mais, porque o fio do amor que os une não se desgasta, antes se encorpa, se engrossa, se prende ao tecido da vida e não se deixa por nada no mundo romper.

Sim, bem sei que “O fiel e a pedra” é mais, muito mais que uma história de amor. É uma história sobre a existência humana, sobre seus caminhos e descaminhos, sobre a interna e eterna luta entre ficar ou partir, ceder ou resistir, matar ou morrer. É uma história quase-poema, tamanho o lirismo com que se congraça a linguagem. Mas é também, ao cabo e ao fundo, uma história de amor.

É uma história de amor para quem assim a quiser. Para quem esteja desejoso de notícias de um amor assim. De um amor bonito, sem ser idealizado, sem ser impossível. De um amor bonito, porque verossímil. De um amor bonito, porque realizado.

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Citação · Consueloblog · Literatura · Livros · Rubem Braga

Por mais lua, conhaque [ou música]

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Por mais lua, conhaque [ou música]

Cris M. Zanferrari

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.”

Carlos Drummond de Andrade

Parem tudo, desliguem os celulares, cessem o monólogo interior. Eu hoje vim falar de música.

Acho que foi Nietzsche a dizer que “a vida sem música seria um erro.” Mas a verdade é que também sem arte e sem literatura, a vida seria igualmente um equívoco irremediável. É isto mesmo: sem a música, sem a arte e sem a literatura, estaríamos todos condenados.

Basta observar como o mundo anda excessivamente comovente. O que nos chega pela tela da TV ou do tablet nos assusta, nos põe em choque, nos comove. São imagens desumanas como essa do pai com os filhos gêmeos__ e sem vida__ ao colo. São cenas do terror atacando pedestres na ponte em Londres, e alguns dias depois, no calçadão em Estocolmo. Por aqui, o horror da morte de um estudante na frente de casa à volta da aula. Por aqui, as tragédias todas: a vida ceifada no trânsito, dentro dos muros escolares, diante dos filhos, diante dos pais, diante das câmeras, todas vigilantes, mas impotentes. Onde, afinal, se escondeu a paz?

Tanto excesso só pode ser anestesiante. De tanta comoção, já não nos comovemos mais. O choque diante da brutalidade humana dura o tempo da notícia, vira passado ainda que mal tenha passado. Que grande condenação é estarmos assim: dessensibilizados. Ou ao menos, pensar que assim estamos. Porque já não choramos mais diante dos horrores noticiados, acreditamos mesmo que estamos imunes, imperturbáveis, insensíveis. E então, quando menos se espera, uma música nos pega. Uma determinada música__ ouvida não importa onde, na rádio, em casa, num show __ nos desarma. E nos faz lembrar como se molham os olhos.

Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelos gêmeos ao colo do pai, pela menina morta no banheiro da escola, pela mãe que perdeu o filho. Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelas dores que há no mundo, por mim e por você, e__ paradoxalmente__ me faz chorar por ninguém.

É isso mesmo. Há músicas que nos fazem chorar porque sim. Porque não é preciso haver dor, tristeza ou raiva para que haja lágrima. Porque se pode, sim, chorar de um puro contentamento, de um puro transbordamento da emoção, de uma pura alegria que a música nos dá. A música desperta os nossos sentidos, e é tão sensorialmente estimulante que chega a literalmente arrepiar a pele numa espécie de, digamos, orgasmo musical. É forte o que digo porque é forte o que sinto. Por uma música assim vale a pena estar vivo.

É que a música __ tanto ou mais que a arte e a literatura__ nos põe num estado de (re)conexão com o que há de mais profundo e primevo em nós mesmos. A música alcança a nossa alma. A música __ assim como a arte e a literatura__ é a comoção que nos chega por meio da beleza. Comove porque a beleza se converte, dentro de nós, em puro e absoluto sentimento.

Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, fazia música com as palavras, e sobre a música propriamente dita escreveu inúmeros textos. Em um deles, sobre o samba, diz assim: “A malandragem existe mais no samba que na realidade. […] Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…”

Então é isso. Fazer música, tocar música, ouvir música. Musicar a vida para sentir mais e melhor. Musicar a vida para se comover e se sensibilizar. Musicar a vida para descobrir que dentro de cada um é onde a paz, finalmente, pode ser encontrada. Musicar a vida porque também a música é emoção.

Então é isso, Drummond. “Eu não devia te dizer”, mas também a música “bota a gente comovido feito o diabo.”


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

Anton Tcheckov · Citação · Editora 34 · Literatura · Livros · O beijo e outras histórias · Para refletir

A vida comum e “O beijo”

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Toda gente sabe que a matéria dos dias se faz de pequenices, aquelas coisas pequenas que alimentam corpo e alma de uma só vez: um café passado, uma música nova, uma velha música, encontrar amigos, abraçar quem se ama, tomar banho sem pressa, aprender coisas novas, se exercitar, comer bem, dormir em paz. Pequenas alegrias que duram o tempo que duram apenas. Às vezes, um pouco mais.

Toda gente_ mesmo sabendo das pequenices de que são feitos os dias_ sonha mesmo é com grandiosidades. Sonha encontrar um grande amor, sonha grandes feitos profissionais, grandes viagens, grandes bens materiais. Em matéria de sonhos, pequeno é não sonhar.

Mas o que muita gente não sabe é que a grandiosidade do sonho pode acabar por fazer sombra às minúcias, às pequenas delicadezas, incrustadas no dia-a-dia. Sombreadas, passam despercebidas, ignoradas, esquecidas. Até que alguém, ou alguma coisa, ou algum acontecimento as traga de volta à luz, fazendo brilhar uma pequena grande verdade: ser feliz pode ser, simplesmente, viver uma vida comum.

Essa é ao menos uma dentre as reflexões a que nos conduz a leitura de “O beijo”, de Anton Tchekhov. Nesse conto, o jovem oficial Riabóvitch vive uma pequena e inusitada aventura. Convidado, juntamente com os outros oficiais de sua brigada, a tomar chá em casa de um desconhecido tenente-general, o tímido e inexperiente Riabóvitch é surpreendido pela seguinte situação: ao sair de uma sala de jogos e tentar retornar ao salão principal, vê-se perdido pelos aposentos da imensa casa e acaba por adentrar um escritório meio escuro, onde uma voz feminina o alcança, enlaça e beija. Por engano, o “mais incolor dos oficiais de toda a brigada” foi beijado por uma desconhecida que, ao dar-se pelo lapso, fugiu sem que ele pudesse ver-lhe a face. Esse momento, doce e fugaz, foi o quanto bastou para que o rapaz se sentisse, de súbito, profunda e ligeiramente tocado por uma inesperada alegria de viver.

Até aquele momento, Riabóvitch vivia sua vida sem sobressaltos, sem grandes entusiasmos, vivia sua vida de modo comum. E, no entanto, o comum de sua vida havia se transformado por dentro. Ele agora conservava, no seu íntimo, um contentamento sereno, que lhe permitia extrair dos dias um novo frescor: “Todas as manhãs, quando o ordenança lhe trazia o necessário para lavar-se, ele despejava água fria sobre a cabeça e lembrava que em sua vida havia algo bom e tépido.”

Assim são certos momentos na vida: um súbito acontecimento transforma-se em uma faísca a acender a cor dos dias, acrescentando-lhes colorido e vivacidade. A partir de então, a simples lembrança de uma dessas faíscas nos move, nos ampara, nos alenta. A uns, pode mover por dias ou semanas. A outros, move por uma vida inteira. A Riabóvitch moveu pelo tempo necessário à compreensão de que nada havia de errado em ser um homem comum. “Tudo o que eu agora sonho e que me parece impossível e não terrestre é, na realidade, muito comum”, pensa o jovem, “E o pensamento de que era um homem comum e que a sua vida era uma vida comum, alegrou-o, deixando-o mais animado.”

Que grande liberdade é reconhecer-se comum! A grandiosidade das coisas, até mesmo dos sonhos, nos aprisiona a um modo de vida que não é, por natureza, o nosso. Trabalhamos demais, corremos demais, enlouquecemos demais porque queremos ser grandes. E porque queremos ser grandes, fechamos os olhos às coisas pequenas, que são as verdadeiramente grandes.

Viver uma vida comum é também deixar de esperar. Eis a libertação. Somos livres quando deixamos de esperar. Quando fazemos_ seja o que for_ pelo prazer de fazer, pela alegria e pelo contentamento que o fazer nos dá, pelo bem que sentimos ao fazê-lo, encontramo-nos a nós mesmos. Riabóvitch viveu longos dias acalentado pela lembrança do beijo e pelo desejo de (re)conhecer a desconhecida mulher. Ao abandonar essa esperança, viu regressar a paz da normalidade dos dias. “Agora, quando ele não esperava nada, a história do beijo, sua impaciência, as esperanças vagas e a decepção apresentavam-se sob uma luz clara. Não lhe parecia já estranho […] o fato de que jamais veria aquela que o beijara em lugar de um outro; pelo contrário, o estranho seria se ele a encontrasse…” Liberto dessa espera, sentiu-se dono do próprio destino e, apesar de chegada a oportunidade, esquivou-se de um outro chá à casa do general.

O jovem oficial do conto de Tcheckov nos faz, mais do que ver, valorizar o que há de bom e belo em se viver uma vida comum. Uma vida em que se aceita o que vem e o que vai com igual temperança. E cujo segredo está em se receber e se guardar _ para evocar nos momentos menos afortunados_ uma lembrança doce e terna de um momento inesquecível.

 

 

Citação · Consueloblog · Literatura · Livros

Felicidade acessível

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FELICIDADE ACESSÍVEL

Cris M. Zanferrari

Poucas, pouquíssimas coisas nesta vida são de graça: abraços, festa nos cabelos, sorrisos, olhos nos olhos, pequenas ternuras e gentilezas. E porque são totalmente gratuitas, temos uma inclinação a não lhes dar o devido valor. Acontece com muitas coisas, e é o que acontece também com a leitura. Livros, por exemplo, são incrivelmente acessíveis. Estão aí: nas escolas, nas bibliotecas públicas, na casa de amigos, na nossa própria estante. Chegam até nós, no mais das vezes, por um empréstimo, por doação ou em forma de presente. Aliás, quem presenteia com livros faz mais do que dar um presente, faz-se a própria presença. Ofertar um livro é ofertar uma companhia, é iniciar um diálogo, é promover um encontro__ não raras vezes, do leitor com ele mesmo.

Quem costuma ler não apenas sabe, sente. Sente nitidamente os benefícios todos que a leitura traz e, sobretudo, passa a se sentir melhor, a se conhecer mais e a ter mais esperança. É que os livros, os bons livros, têm esse fantástico poder de nos sequestrar de nossa própria realidade, de nos transportar para um outro universo, e de nos devolver ao mundo real mais fortes, mais otimistas e menos acomodados. Um bom livro nos comove, nos demove, nos situa. Um bom livro, assim como a primavera, põe mais cor e poesia em nossa vida.

Tantos são os benefícios e benesses da leitura que enumerá-los é tarefa já muito bem-feita por inúmeros educadores e estudiosos. A mim, mera leitora,me convence e me basta aquele que considero o mais definidor e definitivo dos argumentos: o de que a leitura é uma forma acessível de felicidade*. Parece tão simples quanto de fato é. Há sempre, em algum lugar, um livro à espera de ser colhido, à espera de promover a felicidade. Basta que façamos o movimento de apanhá-lo, de reservar-lhe _ o que quer dizer reservar-nos_ um momento do dia, e de lê-lo com o cuidado e a entrega de quem está a se dedicar ao ser amado. Para que isso aconteça, muito pouco é necessário. De novo, gratuidades: bem acomodar-se, aquietar o ambiente e a mente, silenciar o celular, abster-se de conversas e redes sociais, direcionar o abajur e os pensamentos. Uma vez imerso no livro, enredado pelas teias de sentidos das palavras, descobrirá ao final da leitura que um pequeno milagre sucedeu: por um indizível espaço de tempo, “suspenderam-se as lamentações” e “deteve-se o mundo.”

É o que acontece quando se lê com prazer e por prazer: sentimo-nos arrebatados pelo texto_ seja um romance, um poema, um conto ou umacrônica_ e esse arrebatamento nos lança para além de nós mesmos. O mundo que gira é apenas aquele que dá voltas às palavras; o outro, o mundo dito real, inexiste no exato instante da leitura atenta. É que o momento da leitura é de profunda introspecção, porque tudo o que acontece no livro é dentro de nós que verdadeiramente acontece. E é por isso que o que acontece através da leitura, sobretudo da leitura de literatura, é pura terapia. Acessível como o próprio livro na estante.

E se assim é, então abrir um livro nada mais é do que habilitar-se a ser feliz. Custa muito pouco, custa quase nada. Pensando bem, custa só querer.

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*Foi o escritor argentino Jorge Luis Borges quem o disse. Borges, um ávido e apaixonado leitor, recusou-se a abandonar essa felicidade quando uma doença hereditária o fez perder a visão. O que fez o célebre escritor para não se ver privado da leitura? Contratou um jovem acadêmico para que lesse para ele!


Gente querida do Mania,

Esse texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com e lá, intercalado com o texto, há fotos belíssimas do fotógrafo Steve McCurry, que estão no livro “On Reading”. Vale a pena conferir!

E mais: abaixo da foto que ilustra este post, vocês podem ter acesso ao primeiro capítulo do livro.  É sobre como a literatura auxilia no processo do envelhecimento humano. Espero que vocês gostem!!