A arquitetura da felicidade · Citação · Consueloblog · Livros · Moda · Mundo fashion

Pra não dizer que não falei de moda

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Pra não dizer que não falei de moda

Cris M. Zanferrari

Era inevitável. Mais dia, menos dia, o assunto teria de vir à pauta. Como assim nunca ter falado de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Por outro lado, como me atrever a falar de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Logo eu, que já cheguei a pensar que moda é ocupação de quem não tem com o que se ocupar? Falar de moda, eu?

Preconceitos abandonados ao final da adolescência, ouso sim falar de moda. É que falar de moda hoje é quase tão natural como falar da previsão do tempo. Claro, há quem o faça com conhecimento e autoridade, mas falo do mesmo lugar de onde fala a vizinha de apartamento, a estudante de biologia, a profissional liberal: falo do lugar de quem a consome. E que ninguém se engane pensando que não se deixa levar por esse bem de consumo. A menos que você viva numa comunidade alternativa, não há quem resista a uma bela vitrine ou a folhear uma revista sem reparar nos anúncios de jeans e afins. A moda nos entra pela vida como um combustível a injetar sonhos e aspirações. Ou, simplesmente: a moda é a projeção de nossos desejos.

Quando, dez anos atrás, li “A arquitetura da felicidade”, do filósofo Alain de Botton, lembro de ter ficado supresa diante da revelação de que uma casa, mais do que expressar quem somos, expressa como, na verdade, gostaríamos de ser. Uma casa excessivamente organizada, por exemplo, não implica que seu morador seja um sujeito calmo e centrado. Ao contrário, a ordem e o alinhamento de móveis e decoração representariam o desejo de o morador aquietar e acalmar uma mente agitada e até turbulenta. O filósofo suíço parte, portanto, do princípio de que nos cercamos de formas materiais que nos proveem com aquilo de que necessitamos interiormente.

Tenho pensado que se isso vale para a arquitetura pode bem valer também para a moda. Sempre se disse que a moda é um meio de expressão, que a moda comunica, que o modo como nos vestimos diz muito sobre nós. Pois bem. Talvez diga ainda mais sobre quem ou como gostaríamos de ser. Talvez por isso é que quem deseja parecer autoconfiante sobe no salto. Quem deseja transmitir seriedade e competência, usa peças clássicas e elegantes. Ok, nada disso é regra, mas a verdade é que mesmo que se queira esquecer ou negligenciar o dress code, a maneira como nos vestimos projeta _ de uma maneira ou de outra_ o modo como estamos nos sentindo ou como desejamos nos sentir. Deve ser por isso que, chegando aos cinquenta, adoro usar um jeans rasgado e uma jaqueta despojada. Não tenho dúvidas de que o poder de um item fashion preenche o desejo de juventude tanto quanto um botox.

Mais o tempo passa, mais percebo que vestir-se é um exercício de autoconhecimento. Aprende-se a valorizar certas partes do corpo e a disfarçar o que se consideram as imperfeições. Aprende-se que determinadas cores favorecem, iluminam, acendem o look e o astral. Aprende-se que um belo acessório pode compor toda a diferença no visual. Aprende-se que ler livros e blogs sobre moda pode ser útil e nos poupar de alguns micos, mas que a palavra final sobre a roupa que se veste só pode ser mesmo a nossa. Aprende-se que descobrir o próprio estilo é tarefa que pode levar anos; às vezes, a vida toda.

Aliás, pensando bem, a vida toda é muito longa para se ter um único estilo. Nada mais démodé. E, por favor, não me levem a mal, mas ter usado a expressão francesa ao final de um texto, que era pra ser sobre moda, também me pareceu inevitável.


Publicado originalmente no blog de moda e lifestyle http://www.consueloblog.com

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Citação · Consueloblog · Literatura · Livros · Rubem Braga

Por mais lua, conhaque [ou música]

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Por mais lua, conhaque [ou música]

Cris M. Zanferrari

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.”

Carlos Drummond de Andrade

Parem tudo, desliguem os celulares, cessem o monólogo interior. Eu hoje vim falar de música.

Acho que foi Nietzsche a dizer que “a vida sem música seria um erro.” Mas a verdade é que também sem arte e sem literatura, a vida seria igualmente um equívoco irremediável. É isto mesmo: sem a música, sem a arte e sem a literatura, estaríamos todos condenados.

Basta observar como o mundo anda excessivamente comovente. O que nos chega pela tela da TV ou do tablet nos assusta, nos põe em choque, nos comove. São imagens desumanas como essa do pai com os filhos gêmeos__ e sem vida__ ao colo. São cenas do terror atacando pedestres na ponte em Londres, e alguns dias depois, no calçadão em Estocolmo. Por aqui, o horror da morte de um estudante na frente de casa à volta da aula. Por aqui, as tragédias todas: a vida ceifada no trânsito, dentro dos muros escolares, diante dos filhos, diante dos pais, diante das câmeras, todas vigilantes, mas impotentes. Onde, afinal, se escondeu a paz?

Tanto excesso só pode ser anestesiante. De tanta comoção, já não nos comovemos mais. O choque diante da brutalidade humana dura o tempo da notícia, vira passado ainda que mal tenha passado. Que grande condenação é estarmos assim: dessensibilizados. Ou ao menos, pensar que assim estamos. Porque já não choramos mais diante dos horrores noticiados, acreditamos mesmo que estamos imunes, imperturbáveis, insensíveis. E então, quando menos se espera, uma música nos pega. Uma determinada música__ ouvida não importa onde, na rádio, em casa, num show __ nos desarma. E nos faz lembrar como se molham os olhos.

Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelos gêmeos ao colo do pai, pela menina morta no banheiro da escola, pela mãe que perdeu o filho. Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelas dores que há no mundo, por mim e por você, e__ paradoxalmente__ me faz chorar por ninguém.

É isso mesmo. Há músicas que nos fazem chorar porque sim. Porque não é preciso haver dor, tristeza ou raiva para que haja lágrima. Porque se pode, sim, chorar de um puro contentamento, de um puro transbordamento da emoção, de uma pura alegria que a música nos dá. A música desperta os nossos sentidos, e é tão sensorialmente estimulante que chega a literalmente arrepiar a pele numa espécie de, digamos, orgasmo musical. É forte o que digo porque é forte o que sinto. Por uma música assim vale a pena estar vivo.

É que a música __ tanto ou mais que a arte e a literatura__ nos põe num estado de (re)conexão com o que há de mais profundo e primevo em nós mesmos. A música alcança a nossa alma. A música __ assim como a arte e a literatura__ é a comoção que nos chega por meio da beleza. Comove porque a beleza se converte, dentro de nós, em puro e absoluto sentimento.

Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, fazia música com as palavras, e sobre a música propriamente dita escreveu inúmeros textos. Em um deles, sobre o samba, diz assim: “A malandragem existe mais no samba que na realidade. […] Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…”

Então é isso. Fazer música, tocar música, ouvir música. Musicar a vida para sentir mais e melhor. Musicar a vida para se comover e se sensibilizar. Musicar a vida para descobrir que dentro de cada um é onde a paz, finalmente, pode ser encontrada. Musicar a vida porque também a música é emoção.

Então é isso, Drummond. “Eu não devia te dizer”, mas também a música “bota a gente comovido feito o diabo.”


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

Consueloblog · Minhas "croniquetas" · Para refletir

De presentes e sonhos

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De presentes e sonhos

Cris M. Zanferrari

Corre o ano e as tradicionais datas festivas já estão a se aproximar: alguns aniversários, Páscoa, Dia das Mães. Com elas, o imperativo de dar ou trocar presentes. Até aí nada de novo, a não ser a pergunta que se repete mal passado o Natal: ciranda, cirandinha, que presente vamos dar?

Cresci ouvindo e seguindo um conselho popular, o de que devemos presentear alguém com aquilo que nós mesmos gostaríamos de ganhar. Só há bem pouco tempo percebi o imbróglio desse conceito. Tudo bem que a premissa seja nobre porque, afinal, demonstra que a intenção é quase bíblica: agradar ao outro como a si próprio. Mas, convenhamos, nem todo mundo gosta de orquídeas, de livros, ou de acessórios para cozinha. Perfume então, pessoalíssimo. Objetos de decoração, só se o gosto de quem presenteia passar longe do kitsch.

Presentear com coisas do nosso gosto pessoal é querer impor ao outro o nosso próprio modo de ser. É fazê-lo refém das nossas vontades. Ao submetermos o outro a apreciar o que nos agrada e interessa estamos exibindo o nosso lado mais egocêntrico. Vaidosos que somos, cremos estarem as nossas preferências alinhadas aos mais altos níveis da estética, requinte e bom gosto. Tudo isso, claro, segundo os nossos próprios critérios. Em suma, todo presente é, bem no fundo, autoelogioso.

Felizmente, nem tudo é oito ou oitenta nessa vida. E assim é que também uma outra verdade se esconde por trás do gesto. Uma verdade um pouco mais nobre, bela e humana: o simples desejo de que o outro goste do que gostamos nós. É que gostar das mesmas coisas nos torna mais próximos, nos deixa mais íntimos, e nos faz menos solitários. Ter apreço e afeição pelas mesmas coisas nos faz mais parecidos,mais aparentados, nos torna mais irmãos. É nobre, belo e humano o desejo de, ao longo da vida,nos fazermos acompanhados.

Agora, bonito mesmo, de verdade, é quando alguém nos conhece tão bem que sabe exatamente o que nos  agrada, o que desejamos, a que aspiramos. Essas pessoas, que sabem ler as outras, dificilmente erram ao presentear. É que elas estão sempre atentas aos detalhes, às entrelinhas, e interpretam gestos e intenções. Dedicam-se a verdadeiramente conhecer o outro. Sabem de antemão os seus desejos, antecipam os seus sonhos, reconhecem as suas vontades. E por conhecê-lo assim, tão profundamente, dão ao outro o melhor presente que o outro poderia receber: ver-se respeitado em sua mais completa e absoluta individualidade. Essas pessoas, que sabem ler as outras, presenteiam apesar das diferenças, das dessemelhanças, porque sabem que não há que sermos iguais para estarmos juntos.

Mas é verdade também que há leituras equivocadas, afinal, se não é fácil conhecer a si próprio, o que dirá bem conhecer ao outro. Digo isso e me vem à lembrança uma historinha acontecida já há alguns anos.

O marido costumava dizer à mulher que tinha um sonho guardado. Queria aprender a tocar saxofone. Imaginava-se tocando não em recitais, mas no aconchego do lar, plateia restrita e familiar. A mulher sonhava junto, antevia ter o seu próprio Kenny G. na sala de estar. O homem reservava o sonho para a aposentadoria, a ocupar as horas vazias com música clássica soprada pelo próprio pulmão. Mas eis que a mulher decide que um sonho guardado é apenas um sonho e que esperar por realizá-lo _tão curta é a vida_ pode significar condená-lo a ficar para sempre e tão somente no universo onírico. Assim, ela trata de comprar um belo saxofone dourado para presentear o marido. E para garantir que o presente não permanecesse no estojo, anexou ao instrumento de sopro o cartão do professor que ministraria as aulas de iniciação musical.

Mas eis que o presente menos surpreendeu do que o compromissou. Foi instado a aprender as notas e escalas musicais, a praticar exercícios de embocadura, a ter mais um apontamento na agenda a cumprir. A realidade exigia um esforço incompatível com a sublimidade do sonho. Achou que o aprendizado era dificultoso, que não levava jeito, que isso e aquilo. Aos poucos_ sem que a mulher o soubesse, temia desapontá-la_ foi cabulando aulas e se esquivando das práticas. Quando a mulher se deu conta, já estavam o sax e o sonho extraviados no estojo de veludo.

Passadas as frustrações de ambos, presenteado e presenteador, ficou o saxofone a exibir-se, emoldurado, como parte da decoração da casa, a lembrar que talvez o mais bonito do sonho seja isso mesmo, apenas o prazer de sonhar. E que, afinal de contas, de presentes e sonhos, nunca se sabe o que esperar.


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

 

Citação · Consueloblog · Literatura · Livros

Felicidade acessível

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FELICIDADE ACESSÍVEL

Cris M. Zanferrari

Poucas, pouquíssimas coisas nesta vida são de graça: abraços, festa nos cabelos, sorrisos, olhos nos olhos, pequenas ternuras e gentilezas. E porque são totalmente gratuitas, temos uma inclinação a não lhes dar o devido valor. Acontece com muitas coisas, e é o que acontece também com a leitura. Livros, por exemplo, são incrivelmente acessíveis. Estão aí: nas escolas, nas bibliotecas públicas, na casa de amigos, na nossa própria estante. Chegam até nós, no mais das vezes, por um empréstimo, por doação ou em forma de presente. Aliás, quem presenteia com livros faz mais do que dar um presente, faz-se a própria presença. Ofertar um livro é ofertar uma companhia, é iniciar um diálogo, é promover um encontro__ não raras vezes, do leitor com ele mesmo.

Quem costuma ler não apenas sabe, sente. Sente nitidamente os benefícios todos que a leitura traz e, sobretudo, passa a se sentir melhor, a se conhecer mais e a ter mais esperança. É que os livros, os bons livros, têm esse fantástico poder de nos sequestrar de nossa própria realidade, de nos transportar para um outro universo, e de nos devolver ao mundo real mais fortes, mais otimistas e menos acomodados. Um bom livro nos comove, nos demove, nos situa. Um bom livro, assim como a primavera, põe mais cor e poesia em nossa vida.

Tantos são os benefícios e benesses da leitura que enumerá-los é tarefa já muito bem-feita por inúmeros educadores e estudiosos. A mim, mera leitora,me convence e me basta aquele que considero o mais definidor e definitivo dos argumentos: o de que a leitura é uma forma acessível de felicidade*. Parece tão simples quanto de fato é. Há sempre, em algum lugar, um livro à espera de ser colhido, à espera de promover a felicidade. Basta que façamos o movimento de apanhá-lo, de reservar-lhe _ o que quer dizer reservar-nos_ um momento do dia, e de lê-lo com o cuidado e a entrega de quem está a se dedicar ao ser amado. Para que isso aconteça, muito pouco é necessário. De novo, gratuidades: bem acomodar-se, aquietar o ambiente e a mente, silenciar o celular, abster-se de conversas e redes sociais, direcionar o abajur e os pensamentos. Uma vez imerso no livro, enredado pelas teias de sentidos das palavras, descobrirá ao final da leitura que um pequeno milagre sucedeu: por um indizível espaço de tempo, “suspenderam-se as lamentações” e “deteve-se o mundo.”

É o que acontece quando se lê com prazer e por prazer: sentimo-nos arrebatados pelo texto_ seja um romance, um poema, um conto ou umacrônica_ e esse arrebatamento nos lança para além de nós mesmos. O mundo que gira é apenas aquele que dá voltas às palavras; o outro, o mundo dito real, inexiste no exato instante da leitura atenta. É que o momento da leitura é de profunda introspecção, porque tudo o que acontece no livro é dentro de nós que verdadeiramente acontece. E é por isso que o que acontece através da leitura, sobretudo da leitura de literatura, é pura terapia. Acessível como o próprio livro na estante.

E se assim é, então abrir um livro nada mais é do que habilitar-se a ser feliz. Custa muito pouco, custa quase nada. Pensando bem, custa só querer.

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*Foi o escritor argentino Jorge Luis Borges quem o disse. Borges, um ávido e apaixonado leitor, recusou-se a abandonar essa felicidade quando uma doença hereditária o fez perder a visão. O que fez o célebre escritor para não se ver privado da leitura? Contratou um jovem acadêmico para que lesse para ele!


Gente querida do Mania,

Esse texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com e lá, intercalado com o texto, há fotos belíssimas do fotógrafo Steve McCurry, que estão no livro “On Reading”. Vale a pena conferir!

E mais: abaixo da foto que ilustra este post, vocês podem ter acesso ao primeiro capítulo do livro.  É sobre como a literatura auxilia no processo do envelhecimento humano. Espero que vocês gostem!!

 

Citação · Consueloblog · Minhas "croniquetas"

Mãe-Rivotril

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Mãe-Rivotril

Cris M. Zanferrari

Para a Helena

Faz pouco que descobri: toda mãe é um pouco o Rivotril de seus filhos. Rivotril, pra quem não conhece, é um ansiolítico que figura como __pasmem!__ o segundo medicamento mais vendido no país, só perdendo para uma conhecida marca de anticoncepcional. Tem efeito rápido, quase instantâneo, contra a ansiedade. Assim como ouvir a voz tranquilizadora da sua mãe.

Na verdade, enquanto os dias correm tranquilos, sem maiores sobressaltos, a gente nem lembra que tem mãe. Basta saber que ela está lá, de sobreaviso e prontidão como o salvavidas na guarita da praia. Como o remédio jogado no fundo da bolsa. Em caso de necessidade, uma chamada ou um comprimido resolvem. Ambos estão ao alcance da mão.

A diferença essencial é que mãe, além de acalmar, ainda dá colo e perspectivas. Mãe sabe onde dói, sabe por que dói, tem o dom de farejar algumas dores futuras e, por isso, sempre prescreve conselhos. Só o que mãe não sabe é que muitas vezes, pela ânsia de preservar o filho de tanta dor, ela o impede de crescer. Sim, porque crescer é dolorido, às vezes até fisicamente. Basta lembrar do incômodo que é para o bebê o nascer dos dentes. Ou ouvir falar da dor nas pernas das crianças de oito anos. Ou ainda recordar as dores mamárias das meninas na puberdade. Pois que sejam as dores de ordem física ou emocional, a única certeza na vida é a de que “viver dói até o fim.” E também por isso a única coisa que uma mãe pode fazer, às vezes, é deixar doer.

Dei-me conta dessa dolorosa verdade quando, certa feita, no meio de uma dessas ligações que filhos fazem quando a água está a lhes alcançar o pescoço, ou seja, quando estão por alguma razão qualquer se sentindo sufocados, minha filha me disse alguma coisa como “te liguei pra você se solidarizar comigo, não para me afligir ainda mais.” Naquele momento, me senti impotente, incapaz, mais ineficaz do que um Rivotril com data de validade vencida. Custou-me tempo, introspecção e alguma dor até compreender que também eu tive de ouvir palavras duras e ásperas para poder crescer. Também eu tive de aprender a ler silêncios, a recolher angústias e medos do chão da sala, e a reconhecer que cada um deve cavalgar a sua própria dor.

Além disso, há uma outra boa razão para se permitir que a dor cumpra seu papel também na vida dos filhos. É que as relações, assim como o Rivotril, também podem causar dependência. Quando nos fazemos excessivamente presentes acabamos por adentrar um território que não mais nos pertence, e tolhemos o bonito processo que é a individuação. Individuar-se é caminho que se percorre a sós, afrouxando laços, soltando gradualmente as amarras que nos prendem ao ninho. Quando aconselhamos demais, vigilamos demais, zelamos demais é como se não confiássemos a tarefa de viver à própria vida. Sim, é custoso e às vezes nos dói, mas é preciso deixá-los domar suas próprias feras, encarar seus temores, recolher sonhos espatifados contra o chão do quarto. Aliás, é preciso deixá-los sair do quarto, ganhar a casa, ganhar a rua, ganhar o mundo. Sim, é custoso e às vezes nos dói, mas encorajar a independência _a deles próprios e a deles para conosco_ é um gesto de confiança e coragem que a própria vida nos cobra e requer.

E por falar em cobrança, também eu, euzinha mesmo, reivindico às vezes uma dose ou outra do meu Rivotril que, por essa altura, está curtindo um merecido descanso numa praia distante. Mas ela sabe, eu sei, minhas filhas sabem que a uma simples ligação a distância se desfaz, o aconchego se refaz, o coração torna a ficar em paz. Da mesma forma sabemos, havemos de saber todos nós, que tudo é uma simples questão de se encontrar a justa e certa medida. Vale para o remédio. Vale para a vida.

 

Consueloblog · Literatura

O décimo mês do ano

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O décimo mês do ano
Cris M. Zanferrari

Outubro é um mês especial no calendário. Tão especial que deveria aparecer nas folhinhas com um asterisco ou coisa assim. Outubro é o mês das crianças e dos professores, é o mês do combate ao câncer de mama, e é também quando a primavera já se instalou, desfilando e ostentando uma miríade de cores e perfumes. Outubro é uma promessa: as crianças representam o futuro, os professores acreditam num mundo melhor, as mulheres buscam prevenção e cura para a fatídica doença. Enquanto isso, a floração enfeita os jardins, a cidade e a vida. Outubro é, assim e enfim, o mês da esperança.

A primeira vez que vi essa palavra comprida _alguém aí consegue pensar numa esperança que não seja longa?_, poeticamente associada à educação foi num texto de Cecília Meireles. Dizia ela que “os educadores são donos de uma infinita esperança.” Devem ser mesmo, porque nunca desistem de acreditar na força de seu trabalho, na sua capacidade de transformar as pessoas para que as pessoas transformem o mundo. Ser dono de uma infinita esperança é nunca parar de acalentar sonhos, de perseguir objetivos, de desejar ser feliz. Mas se assim é, então com o perdão de Cecília, donos de uma infinita esperança somos todos nós porque onde há humanidade, há sempre esperança.

Aliás, há tanta esperança no ser humano que, apesar de todos os males do mundo, as pessoas continuam a gerar novas pessoinhas. Deve ser porque sempre que acontece a vinda de uma criança_ sobretudo se sonhada e desejada_ é como se se acendesse uma pequena vela na escuridão. Essa luz, ainda que tênue e bruxuleante, é capaz de iluminar tudo ao seu redor e um cantinho iluminado sempre predispõe nosso estado de espírito para coisas boas. Dar à luz um bebê também é fazer luzir o mundo, numa reciprocidade tal que só pode ser considerada uma bela e doce esperança.

Esperança também é o que norteia e ampara campanhas como a do Outubro Rosa. Isso porque toda doença traz consigo o desejo da cura, e quem tem desejos tem também o dom de esperançar. Campanhas como a do Outubro Rosa levam esclarecimento, prevenção, e expectativas de qualidade de vida para as mulheres. Mas fazem muito mais. Fazem-nas saber que não estão sozinhas, que a empatia é peça inquebrantável, que a solidariedade é poderoso elixir para a alma, e que a única coisa incurável na vida é ter um coração esperançoso.

Sempre considerei um disparate que houvesse um dia específico para relembrar as mães, os pais, os avós, as mulheres, os amigos, e uma infinidade mais de gente que tem importância diária em nossa vida. Homenagens à parte, creio mesmo é na reverência que se presta às pessoas no dia a dia, quando se liga para saber como vai, quando se aparece de repente só para dar um abraço, quando se convida para um café e um dedinho de prosa. Não há homenagem mais sincera e significativa do que a convivência. Estar perto, estar junto é abastecer-se e abastecer o outro de puro e gratuito afeto. Assim mesmo, sem precisar de data ou dia marcado para demonstrar afeição.

De qualquer forma, datas são feitas para relembrar, e se é preciso relembrar é porque temos certa inclinação para o esquecimento. As datas do décimo mês do ano também cumprem seu papel. Fazem-nos lembrar que, não importa a idade, precisamos cultivar a criança interior; que a prevenção continua a ser o melhor remédio; e que educar, a si e aos outros, é tarefa infindável porque, afinal, o que mais se aprende na vida “é só a fazer outras maiores perguntas.”

Agora, enquanto penso em tudo isso, outubro já quase se vai. Pousou aqui como uma borboleta, vindo com as flores e a primavera. Breve e efêmero, o décimo mês do ano também vai passar. E outubro ficará sendo só um bonito rastro perfumado de cor e infância, e um belo pretexto para se falar de esperança.
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Citação · Consueloblog · Literatura · Livros · Sem categoria

Da carta ao blog: lições da escrita

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Da carta ao blog: lições da escrita
Cris M. Zanferrari

“Se és feliz, escreve;
se és infeliz, escreve também.”
Machado de Assis

Faz poucos dias, concluí a leitura de um livro de cartas. Sim, sei que é no mínimo curioso que alguém se interesse por ler uma carta que não lhe foi endereçada. Por isso, explico: trata-se de cartas redigidas pelo ilustre escritor Mário de Andrade e destinadas a outro dos grandes: Carlos Drummond de Andrade. E o interesse vem do fato de que sempre há o que aprender com os grandes. Ou simplesmente, com os outros.

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade” me fez pensar, uma vez mais, na razão pela qual alguém escreve. Já li muitos artigos, já assisti a inúmeras entrevistas, já vi muitos escritores justificarem, cada qual à sua maneira, o que os leva a escrever. São motivos os mais diversos, os mais criativos, os mais existenciais possíveis. Longe está de se encontrar uma unanimidade nos depoimentos. Mas a franqueza de Mário ao amigo Drummond acende uma luz. Diz ele: “Estou criança e só o carinho me dá prazer e sossego. As minhas cartas são todas nesse sentido, pedidos de carinho.” Daí que quem escreve, escreve para satisfazer uma carência.

Mas não vá logo o leitor se apiedando do ser carente que escreve, porque por trás dessa carência há também uma presunçosa vaidade, que consiste em pensar que o que se escreve pode ter alguma serventia para quem lê. Ou seja, o texto escrito pode bem preencher as carências alheias. É o próprio Mário quem o diz: “[…] ter coragem das suas próprias besteiras me parece neste caso muito útil pros outros.” E, sim, escrever exige sempre uma certa coragem, porque sempre há o risco de o texto fugir ao sentido original, àquele que se pretendeu no momento mesmo da escrita, e aí então é como parir um filho que não saiu aos seus.

Ok, talvez eu esteja exagerando, mas o que quero dizer é que sempre que alguém escreve _ e estão aí incluídos os mais diversos tipos de texto: cartas, livros, teses, jornais, revistas, anúncios, blogs e um universo mais_ é para chamar a sua atenção. É para estabelecer alguma forma, qualquer que seja, de contato, de comunicação. De ponte. Só alcançamos o outro quando nos dirigimos a ele e ele nos devolve __ o seu olhar, a sua escuta atenta, o seu precioso tempo. Quem escreve é como quem fala: lança palavras para que elas ecoem. Sem eco e sem resposta, somos crianças buscando um carinho. Somos todos carentes.
Mário escrevia cartas pela mesma razão que escreve um qualquer escritor, jornalista ou blogueiro. Mário escrevia cartas para se sentir vivo, mas sobretudo para se sentir gente. É que o ser humano só se reconhece como verdadeiramente humano quando se relaciona com os outros. Até mesmo, e muito, por escrito. Quem escreve, escreve para se aproximar, para aplacar a sua, a nossa tão humana solidão. Escrevemos para estarmos mais próximos uns dos outros. E de nós mesmos.

Sim, porque o autor de Macunaíma também faz ver que escrever é, fundamentalmente, um exercício de autoconhecimento. Pensamos estar escrevendo para o outro quando, na verdade, escrevemos para nós mesmos. Deve ser por isso que é tão terapêutico (e recomendável) manter um diário. Quem assistiu a Escritores da Liberdade, filme baseado em uma história real, deve lembrar o quanto foi transformador e catártico, para aquela turma de alunos marginalizados, o uso da escrita como reescrita da própria história. Escrever nos reorganiza, nos confronta, nos liberta. É Mário, ainda outra vez, quem diz: “[…] estes raciocínios são mais pra mim que pra você mesmo. […] a maioria das cartas que escrevo são pra mim mesmo. É que desde muito ando completamente desguaritado de mim mesmo e carecendo me reachar.”

Nem todos seremos escritores, missivistas, jornalistas ou blogueiros. E só muito poucos serão grandes. Ainda assim é fato que sempre há o que aprender uns com os outros. Sempre há o que revelar-se a si. Por isso se escreve. Por isso se lê. E por isso se aprende: tudo na vida é lição.


Texto publicado em primeira mão em: http://www.consueloblog.com