A propósito · Citação

A parede e o verso

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Não se deve adiar nada. Nem mesmo as mínimas coisas. A vida, como se sabe, é inadiável.

Mas falo mesmo é das coisas menores. Aquelas que postergamos sem uma grave razão. Aquelas que deixamos para depois porque o depois pode tanto estar logo ali como alhures. Qualquer depois é melhor que agora. No fundo, todo mundo é um pouquinho o “deixador” de Mário Quintana, afinal “só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois.”

Cá onde moro há uma parede que, por muito tempo, esperou receber poesia. É um espaço em branco, pouco mais acima da pequena adega, que ficaria perfeitamente harmonizado e ornamentado com o verso de Pessoa: “Boa é a vida, mas melhor é o vinho.” Sempre pensei adesivar, pintar, tatuar à parede essa frase tão pertinente ao uso da casa que ali se faz. Lugar de celebrar, de confraternizar, de reunir amigos e fazer tilintar o jogo de taças até no mais banal dos brindes. Um lugar para fazer jus à frase do poeta português.

Mas aconteceu que, dentre mil e outras prioridades, a parede foi ficando para depois. Depois dos móveis todos, depois das viagens, depois do tratamento dentário, depois do carnaval, depois do depois. Agora, quase oito anos depois, há uma mudança em curso. A parede _ e o verso_ serão abandonados, deixados para trás. Terão sido sempre como um casal que, feitos um para o outro, não conheceu quem os apresentasse. O que fica para depois corre sempre o risco de ficar incompleto ou irrealizado.

Não, não se deve adiar nada. Tudo é urgente. A vida urge. A vida ruge. A vida, Quintana que me perdoe, a vida não é para depois.

 

 

 

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A propósito

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“Sempre desejei esta viagem, este feriado. Poder entrar por alguns dias na vida fútil e superficial dum navio… Não pensar na hora escura que a humanidade está vivendo… fugir de um mundo em que há miséria, sofrimento, ódio, carnes e almas dilaceradas… Não procurar a razão das coisas nem querer penetrar na alma das outras criaturas e muito menos na minha própria… Esquecer que existe um amanhã, e que cada partir pressupõe um chegar… Achar, por exemplo, que este oceano não é túmulo de cadáveres carcomidos nem esconderijo de submarinos traiçoeiros, mas sim o grande oceano da aventura, dos jogos de luz, das ilhas encantadas, dos iates de recreio… Poder ser por alguns dias quase como aquela bola vermelha que as mãos versáteis de duas raparigas jogam na piscina, dum lado para outro__ leve, matinal, rútila e sem consciência…
Que me seja permitido lançar ao mar o fardo da memória. Mesmo sabendo que, como o cadáver de um afogado, ele possa continuar seguindo implacavelmente o meu navio…”

Erico Verissimo, em excerto de “Gato preto em campo de neve”

 

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A propósito

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“Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros, e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto _ tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular_, começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou.”

A propósito · Citação

A propósito (pós-carnaval)

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“É um fenômeno curioso:

o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.”

Miguel Torga