Citação · Literatura · Viagem

A Suécia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Estocolmo

Estamos, desde ontem, na capital da Suécia, com tempo o suficiente para algumas das visitas de praxe nessa cidade-arquipélago, incluindo um passeio de barco.
Hoje, saímos a caminhar em direção a Gamla Stan, a cidade velha ou centro histórico, com construções medievais que agora abrigam, em sua maioria, lojinhas, cafés e restaurantes. Partindo do hotel, o percurso até o bairro antigo é tranquilo e sossegado, e as cenas são típicas de uma urbe qualquer: pessoas se deslocando de um lado a outro, trabalhando, se exercitando, negociando, gerindo suas vidas e carreiras enquanto nós, em família, turistamos. “Quando caminho pelas ruas duma grande cidade todo o meu desejo é deixar-me levar, sem plano nem bússola, como que erguido na crista da onda humana que coleia nas calçadas.” Ser turista é um pouco isso mesmo, meu querido Verissimo: deixar-se levar, sem nunca ter um compromisso urgente nos aguardando. Mas deixar-se levar é um luxo que só nos cabe quando o cotidiano pelo qual perambulamos não é o nosso.
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Um dos inúmeros becos em Gamla Stan

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No alto do edifício, ao final dessa quadra no centro comercial de Estocolmo, tremula uma bandeira. Não sei se ali é uma moradia, um restaurante, uma instituição ou o quê. Sei apenas que aqui, na chamada capital da Escandinávia, temos essa bandeira e eu a mesma nacionalidade: somos brasileiras. Eu, a passeio. A bandeira, bem, não sei o que faz uma bandeira do Brasil hasteada no topo de um edifício no centro da capital da Suécia além de evocar nessa turista aqui embaixo um sentimento piegas de amor à pátria. Mas a verdade é que, nesse momento, à vista desse símbolo pátrio no meio de uma rua em Estocolmo, me sinto um pouco menos estrangeira.
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Ambiente dentro de uma loja de departamentos

Não sei dizer o porquê, mas Estocolmo me parece a mais escandinava das cidades escandinavas que conheço. Suspeito que tenha algo a ver com esse design tão limpo, tão simples, tão difundido pelo mundo globalizado e que aqui se faz notar por tudo quanto é lado. Do mobiliário e decoração ao vestuário, tudo é de uma simplicidade poética. Tudo parece pensado para ter uma função prática e usual, tudo concebido dentro de uma estética visual com pouca informação, o que é um doce descanso para os olhos. Há pouco uso da cor, estampas são uma exceção, e o uso de fibras naturais e muita madeira são a exata medida do conforto e aconchego nesse país onde as temperaturas invernais são sempre negativas. Observo todas essas coisas e sinto, durante o passeio, o peso da contradição humana. Vivo num país tropical e colorido, por que então me sinto atraída por essa quase ausência de cor e por esse vento gelado que sopra em pleno verão aqui na Suécia?
Precisamente porque vivo num país tropical e colorido é que desejo o seu oposto. Um país tropical e colorido é o que haveria de desejar se eu vivesse aqui. Sempre alguma coisa nos falta, nos faz ressentidos, nos faz nostálgicos. E também disso somos contraditoriamente feitos.
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No interior do Museu Vasa

Estamos do lado de fora do Museu Vasa, o mais visitado dos museus nórdicos. Faz sol, e ninguém quer ficar à sombra. Nem mesmo essa mulher alta e magra, que agora vem se achegando de minha filha mais velha para conversar. À distância em que estou, e por causa do vento, ouço-lhes apenas uns fragmentos de diálogo, mas presumo um ar preocupado e levemente agitado no rosto dessa falante senhora. Venho saber depois: ela aguardava saírem do museu a filha e o namorado, a quem [a mãe] acabara de conhecer. Contava ela__ numa ânsia por desabafar__sobre a má impressão que o eleito da jovem lhe causara. Recém chegada de um intercâmbio na Alemanha, a menina trouxera para casa, em total intimidade, um desconhecido rapaz alemão, deixando a pobre mãe atordoada. Causou-me uma certa comoção que a angústia da mulher fosse tal que a tivesse levado a confessar-se com uma estranha à porta do museu. Quanta turbulência há de ter sacudido o edifício interno dessa pessoa para fazê-la falar, em língua estrangeira, sobre algo tão pessoal e íntimo? Afinal, fora ela mesma que o dissera: necessitava urgentemente desafogar-se através das palavras, dirigi-las a quem quer que fosse, libertá-las da prisão de seu peito. Quanto à minha filha, soube ser ouvinte e aconselhar de uma forma que eu mesma não teria sido capaz de fazer, porque os dramas maternais, incluindo os alheios, embaçam-me a visão e embargam-me a voz. Olho em redor à procura de ver outra vez essa mãe e seu desatino, de verificar se está menos desamparada após o desabafo, mas só o que vejo é uma multidão em busca de sol e luz. Ninguém quer ficar à sombra.
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Helsinque

 

O último dia em Helsinque, na Finlândia, é também o último dia desse belíssimo passeio pelos países escandinavos. É um dia cinzento, chuvoso, melancólico como as despedidas. E estamos, sim, a nos despedir. Não apenas da cidade__ que é bela, pacífica e urbanamente civilizada__, mas também de tudo o que representaram esses dias de lazer, cultura e conhecimento, boa gastronomia, e, sobretudo, de uma intensa e amorosa convivência familiar. Estamos a nos despedir desses dias de sonho e festa a que comumente chamamos férias.
Mas a bem da verdade, o último dia só não acaba se tornando ainda mais lamurioso porque, marinheiros de outras viagens, descobrimos o antídoto infalível contra a melancolia das despedidas: consiste, pois, em mal tendo acabado o passeio estarmos já a planejar o próximo. Não sei dizer se isso é bom ou se é mau, se é precipitado ou se nos impede de vivenciar de forma plena o sentimento natural que é essa tristeza de partir. Sei apenas que funciona, porque a névoa de nostalgia que ameaça se instalar, em verdade se dissipa tão logo se comece a cogitar o novo destino. E, afinal, talvez seja da natureza humana o desejo de sempre nos pormos em movimento. Ou culpa de alguma gravura que se viu na infância, como Erico bem assinalou:
“Creio que a gente viaja muitas vezes por culpa duma gravura que viu na infância, num velho livro. A ilha de Bali… Cena de rua em Hanói… Cerejeiras floridas em Washington… Voltamos a página, devaneamos um pouco, depois aparentemente esquecemos a figura. Mas acontece que a lembrança do clichê se transforma num desejo, e esse desejo fica como que adormecido durante anos e um dia, em a sorte ajudando, ele nos leva a viajar. Vamos ver a ilha mágica, as cerejeiras à beira do Potomac, a capital da Indochina __ para chegar à conclusão de que todos esses lugares e coisas não possuem na realidade metade da graça e da sugestiva poesia, já não digo das velhas gravuras, mas do mundo que elas criaram em nosso espírito. Verificamos também, quando em viagem pelo estrangeiro, que nossa casa, nossa querência __ que nos pareciam antes foscos, prosaicos e repetitivos __ ganham com a distância um lustro, um encanto tão grande como o da gravura da infância. Voltamos liricamente para a casa, julgando saciada nossa fome de horizontes. Mas um dia o velho livro nos cai de novo sob os olhos. Lá está a rua de Hanói, a ilha verde e as cerejeiras em flor. Ficamos outra vez a devanear, nostálgicos, e nosso desejo de viajar é tão grande que acaba nos jogando dentro dum trem ou dum avião, nem que seja para uma viagem intermunicipal.”

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A Estônia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

 

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Tallinn vista do alto

 

Nunca estive na Rússia, mas a visão à distância da Catedral Alexander Nevski, em Tallinn, Estônia, faz lembrar as cúpulas da Catedral de São Basílio em Moscou, que aprendi a reconhecer através dos livros de história. De perto, sua arquitetura em estilo russo se impõe de forma ainda mais majestosa. É impossível olhar para o alto de suas torres sem sentir uma pequena vertigem. Não faço questão de adentrar esse templo ortodoxo por uma razão muito simples: é agradável olhar para o edifício daqui onde estou. Vejo-o de frente, a uma quantidade de passos suficiente para vê-lo por completo, inteiriço, e fico maravilhada diante dessa imensa construção que mãos humanas foram capazes de erguer. Mas o interior da catedral me chama, ou antes, chamam-me os que entram, chama-me o imponderável que diz: “eis que tu estás aqui e agora. Toma o momento por único, porque assim o é.” Entro, afinal. Saio dois minutos depois. O cheiro forte das centenas de velas queimando me nauseia, cheira a velório de avô numa casa de interior. O imponderável é também a infância adormecida em nós.
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Portão da Fortaleza que dá acesso à cidade antiga

Caminhar por Tallinn__ passando pelos portões que conduzem à parte antiga e lentamente ir subindo ao centro histórico__ é render-se ao turismo contemplativo, que se congraça com os artistas de rua pintando telas, tocando um instrumento musical (há muitos violinistas pelos becos e ruelas), cantando, com os pequenos e charmosos restaurantes, com simpáticas cafeterias, com lojinhas de artesanato local, com gente de boa e de bem, com tudo, enfim, que faz bem aos olhos e à alma.
Sim, Tallinn é uma cidade turística, mas de um turismo feito sem pressa, andarilho, sossegado.
Sei que daqui a alguns dias ou meses, já de volta à minha terra, num dia qualquer da semana __ algo que, neste momento ainda desconheço, irá desencadear essa memória __ lembrarei dessa praça, do jovem violinista ao cordão da calçada, das pinturas expostas nos muros da fortaleza de pedra, do tranquilo vaivém de toda a gente, e sei que, ao lembrar, hei de sentir uma doce e terna saudade. E há também de me condoer __ ou talvez, consolar__ saber que lá, nessa mesma Tallinn que meus olhos registraram encantadora e medieval, a vida segue com outras gentes a passar pelo mesmo violinista, pelas mesmas pinturas, pelas mesmas praças. A vida segue em Tallinn como em qualquer outro lugar do mundo: irrefreável.

 

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Artista de rua
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Praça Central da Old Town

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Mercado das Flores

De regresso ao hotel, há que passar pelo grande portão da antiga fortaleza e pelo curioso mercado das flores, aberto 24 horas por dia, 365 dias ao ano. Pode parecer um exagero que essas bancas floridas estejam à disposição do consumidor o tempo todo, ainda mais quando se trata de um artigo que está longe de ser considerado item de primeira necessidade e que mesmo flor comestível ainda é coisa para poucos paladares. Mas é que em Tallinn é costume quando as pessoas se visitam (e devem se visitar muito) levar flores aos donos da casa. Gentilezas que, se não justificam o incessante comércio, certamente enfeitam com cor e perfume o cotidiano.
Mas é precisamente perto desse mercado que agora se acumula uma multidão. Formam um grande cordão humano a bloquear a rua que dá acesso ao antigo portão pelo qual desejamos passar. Não há tumulto, nem agitação, há apenas esse grande grupo de pessoas que, celulares à mão, fotografam ainda não sei bem o quê. Aproximo-me e vejo que a área toda está isolada e que há duas viaturas policiais e um caminhão de bombeiros. Estranhamente, não vejo sinais de acidente ou atropelamento, tampouco de fogo. Resolvo perguntar a uma jovem que ali está o que se passa. Ela me diz que não faz ideia do que está acontecendo, mas não me parece assustada ou preocupada. É quando percebo que há um grupo de adolescentes uniformizados, atendentes de um McDonald’s, do lado de fora do estabelecimento. Deixo-me levar pela curiosidade e, vencendo qualquer espécie de timidez, abordo uma das funcionárias para saber o que há. “A polícia está procurando por uma bomba ali dentro”, ela me diz com a simplicidade de quem anota um pedido. Tento disfarçar o pavor que sua frase me provoca e procuro, sobretudo, não bater em retirada imediatamente. Prolongo a breve conversação desejando-lhe que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto, mas tão logo lhe dou as costas, apresso o passo em direção aos meus e toco-lhes o terror. Saímos dali à procura de um outro caminho para o hotel, a considerar que, perto do mercado das flores, nem tudo são flores!
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Ao fundo, a Catedral Alexander Nevski, à noite

 

Já agora é noite nesse país báltico onde estou à janela do quarto. O que vejo à luz crepuscular, às vinte e duas horas dessa noite de verão, é nada menos do que um espetáculo epifânico. Sim, é uma verdadeira epifania a visão desses três templos iluminados por um céu tingido de ouro, paz e silêncio. Não sei descrever o que sinto, mas é bom, é manso, é sereno. Só sei olhar e sentir. Seja essa a minha prece.
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A Noruega dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Passar da Dinamarca à Noruega é uma surpresa que se vai descortinando pelo caminho.De uma geografia plana e quase monótona a cercar a autoestrada, passamos a uma rodovia igualmente bem cuidada, mas sinuosa e estreita. Estamos adentrando terras norueguesas e não tardará a agigantar-se sobre o horizonte toda a exuberância dos fiordes.
Pela janela do ônibus panorâmico vejo esse cenário de montanha e de verde que vem dar ao pé de pitorescos vilarejos, com suas casas avermelhadas, de aberturas brancas e telhados pontiagudos. Riachos e cachoeiras bordam a paisagem de forma intermitente, brincando de se esconder e se revelar na próxima curva do caminho. Quisera ter os olhos aumentados, dilatados a poder alcançar todos os recantos desses vales incrustados à volta de cada fiorde. Diante de mim, da minha janela, o que há o tempo todo é uma tela gigante de beleza estonteante, um longa-metragem a passar, a passar e a passar. Tudo o que faço é deixar que a paisagem se mostre, se exiba, porque bem sei que “olhar, olhar, olhar é um cinema.”
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A natureza aqui parece ser sagrada, intocada e intocável, talvez porque protegida pelos lendários “trolls”, uma espécie de duendes de aparência muito feia, quase assustadora. Mas a verdade é que, com ou sem esses personagens do folclore escandinavo, o que se vê por aqui é uma natureza imaculada, sem o lixo e o descarte comumente produzidos pelo homem. É uma natureza sem interferências.
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Há, sim, campistas, pescadores, praticantes de esportes aquáticos, toda a gente aproveitando o que o curto verão nórdico tem para dar junto a esses bosques, rios e cascatas. Mas é como se não houvesse a mão humana sobre essa terra. É que os noruegueses desfrutam da natureza sem agredi-la, sem desrespeitá-la. Desfrutam-na de uma forma quase primitiva, o que quer dizer, em perfeita comunhão. O mais que deixam para trás de si, passada a época de veraneio, é o mesmo que encontraram: toda a exuberância do mundo natural.
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De todos os passeios pela Noruega, o mais impressionante é navegar pelos majestosos fiordes, esses dedos de mar que avançam pelas gigantescas montanhas rochosas. Nada sei sobre as leis que regem o universo, mas há uma aura de mistério e sacralidade por entre esses penhascos invadidos por um mar silencioso. Talvez seja isso também: se há um som no silêncio, é aqui que se pode ouvir. Quanta mansidão, quanta placidez, quanta serenidade emana desse espetáculo natural que o tempo esculpiu. Admirando esse colosso da natureza, só consigo pensar à moda de Adélia: o fiorde na minha mirada / ou é Deus/ ou é nada.
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Criança feliz e fantasiosa, eu vivia mesmo era para o Natal. Na verdade, ainda hoje, os dias de dezembro são sinônimos de uma alegria quase infantil que me invade o coração e a casa. Deve ser por isso que tão facilmente posso me imaginar vivendo no interior da Noruega: por esse espetáculo de vermelho e verde que são as casas rubras junto à natureza, a parecer um Natal de ano inteiro.

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Encontro Oslo, a capital, ligeiramente mudada (também eu?!). Não lembrava que fosse assim tão cosmopolita, o calçadão principal repleto de rostos mestiços, indianos, muçulmanos, ciganos. Há pedintes _ poucos, mas há_ sentados rente às paredes dos prédios. Não importunam os passantes, não se acercam, não os seguem. Marcam sua presença humildemente sentados, com olhar de súplica e com pequenos cartazes numa língua que me é enigmática, e que se faz acompanhar por fotos de crianças ou de algum outro familiar que logo imagino ter ficado distante, num país talvez em guerra. Alguns entoam uma espécie de cântico ou reza, e dessa língua estranha só consigo sentir que vem um apelo, um pedido qualquer a um deus ou aos homens, e me parece _ céus!_ que nem um, nem o outro está a ouvir.

 

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Escultura no Vigeland Park

Oslo, com suas praças floridas, sua alvíssima Ópera, sua moderníssima Estação Central, seu badalado cais do porto, seu visitadíssimo parque de esculturas inigualáveis, retratando o ciclo da vida humana, essa Oslo, que conheci há exatos quatro anos, continua linda. Mas a mínima lembrança daquela fração de sofrimento e miséria humana rente às paredes de seu calçadão principal, ainda ferem meus olhos e maculam _ inexoravelmente_ a cor desse fim de tarde.
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Um passeio por uma cidade nunca é completo sem uma visita a seus museus ou às galerias de arte. É pela história e pela arte de um povo que se chega o mais perto possível de conhecê-lo, isso no caso de não se dispor de um ano sabático para se deixar ficar e viver como vive um local. Por isso hoje amanheci contente: a agenda do dia me reserva dois museus _ e alegria suprema: são diversos dos visitados quando da primeira vez por essas terras_ e a Galeria Nacional. É nesta galeria, aliás, que deponho toda a minha alvissareira expectativa: estou prestes a ver_ de perto, de muito perto_ a mais famosa e difundida obra de Edward Munch: “O grito”. Sim, esse mesmo, o que inspirou o popular emoji usado nas redes sociais.
Nunca entro em uma galeria de arte sem desejar ter feito um melhor aproveitamento das aulas escolares sobre todos os períodos e mestres da pintura. Hoje, minha professora daquele tempo é também uma de minhas melhores amigas, artista plástica renomada, e tudo o que quero agora, enquanto subo o primeiro lance de escadas dessa imensa galeria, é que ela me perdoe pela desatenção adolescente e me ajude, me ensine a olhar. Sem o conhecimento, somos apenas espectadores; vemos mas não compreendemos, vemos mas não sabemos apreciar.

 

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Felizmente, há um jovem guia a explicar sobre algumas das obras expostas, o que já é alguma coisa. Meu olhar passeia pelos quadros e se detém nessa grande tela vertical em que uma menina, trajada de branco e sentada em uma cadeira hospitalar, com seu olhar penetrante, me intimida, me indaga. A pintura é assustadoramente real. Sinto toda a carga de uma misteriosa aflição estampada em seu rosto. Não sorri. Não há o mínimo vestígio de um sorriso em seus lábios. Tampouco há raiva ou contenção. Seu semblante é um enigma. É uma Monalisa ao fim da infância. Não chegará a adolescente, quanto mais à vida adulta. Deixará de viver antes mesmo de ter vivido. Se é mito ou verdade, tudo o que sei a respeito desse quadro é o que nos conta, num espanhol muito claro, esse guia que nos acompanha. E o que ele conta é que a infante, retratada pelo pintor norueguês Christian Krohg, de fato existiu, e ali se encontrava já em fase terminal de uma tuberculose que acabaria por levá-la pouco depois de concluída a obra de arte.
Seguimos parando o tempo todo a fim de observar, contemplar e ouvir as explanações sobre outras obras até chegarmos, finalmente, diante da angústia humana expressada por Munch em sua obra mais célebre. Ouvida a interpretação da obra, podemos já fotografá-la, porque, sim, não basta ver “O grito”, é preciso registrar que se esteve aqui, junto dele, na Galeria Nacional de Oslo. Nesse instante, penso em Gabriel García Márquez e seu “Viver para contar” e não resisto, diante da quantidade de selfies em frente ao quadro, a intitular a contemporaneidade da cena: “Viver para postar.”
Saio da galeria impressionada e não é com a obra que aqui vim ver. É antes com a obra que me viu, que me tocou: a desse pintor naturalista e sua menina enferma. De forma inevitável, acabo por comparar: o que acontece quando lemos um livro, acontece também quando vemos uma obra de arte: em essência, é a nós mesmos que vemos; é a nós mesmos que lemos.
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Ver o mundo · Viagem

Fragmentos de um quase diário

 

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Nyhavn, em Copanhagen

 

 

A Dinamarca dos meus olhos

 

Que se tenha encontrado uma forma de medir a felicidade de um povo ainda é coisa que não consigo bem assimilar. Mas há. E a tal medida tem levado a distante Dinamarca a patamares bem elevados: por três anos consecutivos esse tem sido o país mais feliz do mundo.

Eu nada sabia dos tais índices de felicidade quando fui a Copenhagen pela primeira vez, e não sabê-lo fez a mesma diferença que há entre dois e um par: nenhuma. Aqui, a felicidade faz-se ver é no modo como a gente se sente, e toda a gente sente-se bem.

Pelas ruas de Copenhagen __ København, em bom e sonoro dinamarquês__ transitam rostos de olhos claros, de uma tez ou muito alva ou artificialmente bronzeada, de um semblante tranquilo e ar despreocupado. O ritmo da cidade em nada lembra as metrópoles europeias; nada é frenético, a esquizofrenia das ruas de Paris ou Roma não satisfaria aqui seu afã de pressa e consumo. Tudo é sustentável (ou busca ser), tudo é organizado e voltado para o bem-estar social, e o turismo está longe de ser massivo ou maçante. Tudo nessa cidade acolhe.

Agora mesmo entro numa cafeteria e é como se entrasse na sala de estar de uma casa: há sofás com mesa de centro, objetos decorativos, abajures, pessoas à vontade, conversando e, claro, tomando café. Penso imediatamente que o conceito tão em alta do “hygge” __ sobre como viver bem e com aconchego__ transpôs os muros dos lares dinamarqueses para frequentar também os espaços públicos, como a atestar que o mundo é mesmo um grande e acolhedor casulo.

Saio outra vez à rua e acabo por conversar com Úrsula, uma senhora dinamarquesa que fala um português impecável, e ela me diz que há séculos não existem analfabetos no país e me assegura ser a educação formal __ que é gratuita em todos os níveis, incluído o universitário__ a mola propulsora do desenvolvimento. Desde muito cedo, as crianças e jovens são estimulados a encontrar soluções criativas para todo o tipo de problema. Na opinião dessa jornalista, que atualmente trabalha como guia de turismo, o que a Dinamarca mais exporta é simplesmente o seu know-how. Aproveito que falamos sobre conhecimento para perguntar como adquiriu fluência na minha língua, e fico sabendo de sua vida uma história de amor que a fez viver por quatro anos no Brasil. Ah, sempre o amor. O amor desconhece fronteiras e faz as malas de idas e vindas com a mesma habilidade de um viajante profissional. Ouço Úrsula com atenção, mas é o verso do poeta libanês que me sussurra o final de sua história: “Só o amor e a morte mudam todas as coisas.” Se foi difícil aprender português? Difícil mesmo é falar dinamarquês, me garante essa falante nativa de uma língua que nunca irei aprender.

Prossigo o passeio até chegar ao Nyhavn, o mais reproduzido cartão-postal de Copenhagen. É nesse canal, margeado por restaurantes e bares, que o verdadeiro estado de espírito da capital dinamarquesa se faz sentir. Há descontração, despojamento, despreocupação. Há convivência, celebração, tranquilidade. Há boa música, boa comida, sorrisos nos rostos. Há, enfim, um clima de serena felicidade. Cai a noite e estou no país mais feliz do mundo.

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Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca

 

Sim, é uma menina dos olhos a bonita Dinamarca. Viajo entre cidades por autoestradas seguras e bem-cuidadas e secretamente invejo as belas condições de tráfego (e de vida) dos cidadãos dinamarqueses. Chego a Aarhus depois de uma rápida passagem por Odense __ terra natal de Hans Cristian Andersen__ e o que encontro é uma cidade incrivelmente limpa e calma, apesar de ser a segunda maior cidade do país. É domingo, quase não há gente pelas ruas, e o maior “agito” parece estar mesmo concentrado nos restaurantes ao longo do canal. Penso, aliás, que grande parte do charme das urbes dinamarquesas se deve a infinidade de canais que se distribuem por onde quer que se vá. São charmosos porque dão ares de romantismo, de uma natural boemia, de um congraçamento do bem-viver. Tão bom deixar-se estar, apreciar o vinho e o momento, fruir a passagem das horas com lassidão e indulgência. No país mais feliz do mundo a única urgência é ser feliz.

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Se de fato “há algo de podre no reino da Dinamarca”, não estive lá tempo o bastante para o perceber. Ademais, viajo como um legítimo estrangeiro deve viajar: com olhos para ver e perceber o que é belo e bom. A ver miséria, corrupção e violência, não necessito deixar minha pátria.

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É Saramago que me vem à lembrança agora: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” Sim, meus olhos precisavam desse alento, de ver beleza, respeito e cidadania em algum lugar. Precisava dessa viagem para desenhar uma saudade do meu país. É preciso estar longe para saber o lugar onde pertencemos. É preciso tomar um tempo, uma distância, para então regressar e ver, com o olhar benevolente de um estrangeiro, que também aqui há o bem, o belo e o bom. É preciso regressar estrangeiro para ver a própria terra com uma renovada esperança. Sim, já tenho olhos para voltar.

 

 

 

 

 

 

Citação · Viagem

De (vi)ver e escrever

 

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Minha alma, contente, está em preparativos de viagem. E quando falo em ‘preparativos’ não me refiro a nenhuma check-list para a mala nem a qualquer outra coisa de ordem prática. Falo de uma preparação do estado de espírito, de uma disposição interior para antecipar o contentamento pelo que se vai ver e viver, de uma silenciosa expectativa pelas emoções e sentimentos que, inexoravelmente, os lugares hão de despertar. Sim, há muito que sei, assim é que é: toda viagem começa e termina sempre em nós mesmos.

E porque tudo depende unicamente de nós, e porque a cada ano desconfio mais e mais dos olhos da memória _ já reparou o leitor que as lembranças se sobrepõem umas às outras e os olhos com os quais lembramos em muito diferem dos olhos que viram e viveram? _, decidi escrever. Vou prender as imagens, as impressões, as vivências às palavras. Amarrá-las o mais breve possível ao instante vivido. Concentrá-las num Moleskine à moda de um escritor antigo. Corro riscos, bem sei. Do maior deles advertiu-me Guimarães, em “Ave, Palavra”: “Redigir honesto um diário seria como deixar de chupar no quente cigarro, a fim de poder recolher-lhe inteira a cinza.”

Ok, talvez os registros não sejam feitos no imediato do instante, talvez eu trague o cigarro antes mesmo de encontrar a caneta na bolsa, talvez o mundo dê tantas voltas que eu acabe descendo. Talvez. Quem pode predizer o minuto seguinte? A vida também é papel em branco a receber às vezes um borrão, às vezes um poema.

Ainda assim, me proponho a fazer alguns registros. Andarei por lugares já vistos, pelas mesmas cidades e suas ruas, mas serão outras mesmo sendo as mesmas. Serão outras como outros já são os olhos que as veem. É fato: por onde quer que andemos, levaremos nossas retinas impregnadas de mundo, leitura e memória. Ver nunca é ver pela primeira vez. Erico Verissimo já bem o sabia quando se perguntou: “Quando nos será possível olhar o mundo com olhos sem memória, puros e naturais?”

Pois vou-me assim mesmo. Com olhos excessivamente lidos, cheios de literatura e poesia; com olhos satisfatoriamente viajados, cheios de paisagens urbanas e humanas; com olhos de ver não a cara, mas o coração. Vou-me, pois, com olhos que ainda se espantam diante da dor e do amor. Com olhos que reverenciam a graça de ver e que acham graça no movimento irrequieto dos aeroportos e estações. E porque “nunca desembarcamos de nós mesmos”, vou-me, pois, com os olhos meus.

Na bagagem de volta, hei de trazer os olhos mais gastos _ se Deus quiser, prazerosamente bem gastos. Tão gastos quanto as folhas de papel escritas, rasuradas, anotadas, compondo, quem sabe, um diário; quem sabe, uma fabulação.

Na de ida, levo pouco mais que a boa e sincera intenção da escrita; levo a certeza de que também escrever é um grande e profundo aprendizado, como bem constatou mestre Rosa: “Pôr tudo num diário é meio salutar de nos envergonharmos de nós mesmos para aperfeiçoamento.” Assim é que me vou. Au revoir.


 

 

 

Citação · Literatura · Livros

Pretexto para falar de amor

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PRETEXTO PARA FALAR DE AMOR
Cris M. Zanferrari

O dia dos namorados já passou, mas continua sendo junho, o mês do amor. Ao menos assim se convencionou. E convenções, ao contrário do amor, são pré-estabelecidas, anunciadas, sacramentadas. Amor que é amor foge a todas as regras, bule com a previsibilidade, não se submete a códigos sociais. Amor que é amor não carece de definição, não se explica e a verdade é que nem pode muito o amor. Aliás, pode muito pouco o amor.
Amor não passa de sentimento, e sentimentos não curam doenças incuráveis, não impedem atropelamentos, não protegem contra a violência social, não saciam a fome, não cessam as guerras, não são o bastante para mudar o curso de um rio. Amor_ esse sentimento_ é inapto a tomar para si a dor alheia. Por mais que se ame, o amor é impotente para a cura.
Que pouco ou nada pode o amor foi coisa que li em livro. Coisa dura, áspera, de difícil digestão. Mas compreensível e aceitável. Diz o personagem, velho pai acamado, diante da impossibilidade de amparar e cuidar de suas filhas: “Que pode o meu amor fazer por elas? O amor não tem instrumentos. Tem os instrumentos do prazer. Nada mais. É um evento em si mesmo. Às vezes pode-se fazer correrem, para os seres a quem se ama, os rios da alegria e da fartura. Mas é por acaso. Seu amor, no fundo, não é responsável por isso.” O amor, sendo só sentimento, não dispõe de instrumental para nada além de amar.
Mas ouso dizer que se o amor pode pouco, amar pode mais. Porque amar faz bem _ sobretudo_ a quem ama. Amar é o que dá sentido à vida, muito mais do que ser amado. Pessoas são amadas e nem por isso abandonam as drogas. Pessoas são amadas e ainda assim cometem suicídio. Pessoas são amadas e nem sempre amam a quem as ama. Ser amado é bom, é importantíssimo, mas não é o suficiente. Amar é que é vital. É que as pessoas só mudam a si e ao mundo quando elas mesmas descobrem, decidem ou aprendem o que é amar. Amar o que quer que seja: uma pessoa, um bicho, uma causa, um estilo de vida, uma doutrina religiosa, a natureza. É que amar, e só amar, plenifica, dignifica, justifica a nossa existência. É quando amamos _ não quando somos amados_ que encontramos a nossa razão de ser. É, pois, só na passagem de objeto a sujeito do amor que nos salvamos.
E não, não estou dizendo que amar e ser amado, amar e ser correspondido, não seja a graça das graças, o final feliz que tanto perseguimos e ambicionamos. Mas falar disso seria quase que falar exclusivamente do amor romântico, o que seria, por fim, limitar o amor. E quando se fala em amor, nada há que se limitar.
Enfim, voltamos ao calendário, e ainda é junho, é ainda o mês do amor. E convenções à parte, a verdade é que sempre é tempo para se falar das coisas do coração, porque este sim [o coração] é que é “o relógio da vida”, e afinal, “quem o não consulta, anda naturalmente fora do tempo.”

 

 

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“Avalovara”: itinerário de espinho e flor

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Quem já leu “O som e a fúria”, de William Faulkner, sabe o que é ter a sua capacidade leitora posta à prova. Não é diferente com “Avalovara”, de Osman Lins. Aliás, talvez seja. A diferença, nesse caso, é para um grau de dificuldade que foge a qualquer comparação. É muito provável que a sua competência de leitor se desfaça às primeiras páginas tanto quanto é possível que jamais se restabeleça até chegar às últimas. Isso no caso de chegar.

Exageros à parte, não me surpreenderia com leitores que abandonassem o livro por total falta de aptidão ou disposição para compreendê-lo. É preciso, sim, esforçar-se. É que “Avalovara” rompe com todos os padrões literários tais como os conhecemos. É um romance (?) que mais se parece com uma obra arquitetônica, cuja construção se dá bem diante dos olhos do leitor, como se fosse “em se fazendo”, se esquadrinhando em ‘tempo real’, conforme nos prepara (adverte?) o próprio narrador: “Pouco sabe do invento o inventor, antes de o desvendar com o seu trabalho.”

E o que se vê acontecer é uma obra de linguagem mais do que de narrativa, na qual se entretecem sentidos a uma profusão exponencial. Tudo é símbolo, simbologia, tudo se insere num universo delimitado por uma espiral e o quadrado que a contém (?), tudo se move e se orienta por um palíndromo cujas letras correspondem cada uma a um quadrado menor constituindo o quadrado. Enfim, em “Avalovara”, tudo é enigma, tudo é jogo. É preciso estar disposto a jogar.

Uma vez aceito o mirabolante esquema de leitura projetado pelo autor, é impossível abandoná-lo. Há qualquer coisa que nos seduz; uma coisa qualquer que se, por um lado, nos desencoraja a prosseguir, por outro lado nos incita, nos impele a seguir adiante. E não é em si o desejo de conhecer o que vai suceder entre Abel e suas três mulheres que nos faz prolongar a leitura. É antes o desejo de se manter no jogo, de se manter jogando, de se sentir enredado nessa aventura alucinante que é desvendar um texto e seu mundo. Que é, na verdade, desvendar a si mesmo.

Mas é preciso dizer: atravessei “Avalovara” com grande dificuldade e uma intermitente frustração. Sim, intermitente, porque momentos há em que se tem (ou se pensar ter) o texto sob controle: a narrativa é compreensível, inteligível, assimilável. E então, a contrapartida: momentos em que o texto se faz caótico, incompreensível, indecifrável. Talvez fosse esse mesmo o propósito de Osman com sua obra: deixar-nos perplexos. Tal qual o personagem Julius almeja com os sistemas de som de seu relógio: “colocar as pessoas […] na mesma atitude de perplexidade que se sofre perante o Universo.”

Por isso, de “Avalovara” pode-se dizer muitas coisas, só o que não se pode dizer é que o livro nos seja indiferente. É impossível não se deixar tocar pelas deliberações ao longo do texto (“Fio conduzido pela agulha são as vidas? Tua vida é agulha a costurar sem fio?”; “Colhe-se realmente entre canções quando em pranto jogamos as sementes?”; “Ama-se o que em quem se ama? O que, em quem amamos, faz com que o amor se manifeste?”). E são tantas, belas e surpreendentes as deliberações! De “Avalovara” pode-se dizer inclusive que é um metalivro a falar, através de uma metalinguagem, sobre o que é o livro, o que é o amor, o que é a vida.

Sim, pode-se dizer muitas coisas mais de “Avalovara”. Dizer, por exemplo, que das agruras do texto brotam espinhos e flor, sendo a flor um puro instante de poesia que se faz sentir na lavratura da palavra (como no trecho, de uma delicada beleza, em que o narrador nomeia “as horas” de “o hálito do tempo”). Por essa poesia que às vezes irrompe__ e ainda que somente por ela__ já o livro se justificaria.

E se falo em justificativa é porque precisei justificar-me por essa leitura. Em certa passagem do livro, diz Abel, o escritor-protagonista, que “ver é encargo tortuoso.” Pois bem. Digo eu, ao final dessa experiência, num exercício de absoluta honestidade para comigo __ e por que não dizer, para com você que me lê__ que, considerada a complexidade da obra, ler “Avalovara” também foi, em certo grau e medida, um tortuoso encargo.