Ver o mundo · Viagem

Fragmentos de um quase diário

 

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Nyhavn, em Copanhagen

 

 

A Dinamarca dos meus olhos

 

Que se tenha encontrado uma forma de medir a felicidade de um povo ainda é coisa que não consigo bem assimilar. Mas há. E a tal medida tem levado a distante Dinamarca a patamares bem elevados: por três anos consecutivos esse tem sido o país mais feliz do mundo.

Eu nada sabia dos tais índices de felicidade quando fui a Copenhagen pela primeira vez, e não sabê-lo fez a mesma diferença que há entre dois e um par: nenhuma. Aqui, a felicidade faz-se ver é no modo como a gente se sente, e toda a gente sente-se bem.

Pelas ruas de Copenhagen __ København, em bom e sonoro dinamarquês__ transitam rostos de olhos claros, de uma tez ou muito alva ou artificialmente bronzeada, de um semblante tranquilo e ar despreocupado. O ritmo da cidade em nada lembra as metrópoles europeias; nada é frenético, a esquizofrenia das ruas de Paris ou Roma não satisfaria aqui seu afã de pressa e consumo. Tudo é sustentável (ou busca ser), tudo é organizado e voltado para o bem-estar social, e o turismo está longe de ser massivo ou maçante. Tudo nessa cidade acolhe.

Agora mesmo entro numa cafeteria e é como se entrasse na sala de estar de uma casa: há sofás com mesa de centro, objetos decorativos, abajures, pessoas à vontade, conversando e, claro, tomando café. Penso imediatamente que o conceito tão em alta do “hygge” __ sobre como viver bem e com aconchego__ transpôs os muros dos lares dinamarqueses para frequentar também os espaços públicos, como a atestar que o mundo é mesmo um grande e acolhedor casulo.

Saio outra vez à rua e acabo por conversar com Úrsula, uma senhora dinamarquesa que fala um português impecável, e ela me diz que há séculos não existem analfabetos no país e me assegura ser a educação formal __ que é gratuita em todos os níveis, incluído o universitário__ a mola propulsora do desenvolvimento. Desde muito cedo, as crianças e jovens são estimulados a encontrar soluções criativas para todo o tipo de problema. Na opinião dessa jornalista, que atualmente trabalha como guia de turismo, o que a Dinamarca mais exporta é simplesmente o seu know-how. Aproveito que falamos sobre conhecimento para perguntar como adquiriu fluência na minha língua, e fico sabendo de sua vida uma história de amor que a fez viver por quatro anos no Brasil. Ah, sempre o amor. O amor desconhece fronteiras e faz as malas de idas e vindas com a mesma habilidade de um viajante profissional. Ouço Úrsula com atenção, mas é o verso do poeta libanês que me sussurra o final de sua história: “Só o amor e a morte mudam todas as coisas.” Se foi difícil aprender português? Difícil mesmo é falar dinamarquês, me garante essa falante nativa de uma língua que nunca irei aprender.

Prossigo o passeio até chegar ao Nyhavn, o mais reproduzido cartão-postal de Copenhagen. É nesse canal, margeado por restaurantes e bares, que o verdadeiro estado de espírito da capital dinamarquesa se faz sentir. Há descontração, despojamento, despreocupação. Há convivência, celebração, tranquilidade. Há boa música, boa comida, sorrisos nos rostos. Há, enfim, um clima de serena felicidade. Cai a noite e estou no país mais feliz do mundo.

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Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca

 

Sim, é uma menina dos olhos a bonita Dinamarca. Viajo entre cidades por autoestradas seguras e bem-cuidadas e secretamente invejo as belas condições de tráfego (e de vida) dos cidadãos dinamarqueses. Chego a Aarhus depois de uma rápida passagem por Odense __ terra natal de Hans Cristian Andersen__ e o que encontro é uma cidade incrivelmente limpa e calma, apesar de ser a segunda maior cidade do país. É domingo, quase não há gente pelas ruas, e o maior “agito” parece estar mesmo concentrado nos restaurantes ao longo do canal. Penso, aliás, que grande parte do charme das urbes dinamarquesas se deve a infinidade de canais que se distribuem por onde quer que se vá. São charmosos porque dão ares de romantismo, de uma natural boemia, de um congraçamento do bem-viver. Tão bom deixar-se estar, apreciar o vinho e o momento, fruir a passagem das horas com lassidão e indulgência. No país mais feliz do mundo a única urgência é ser feliz.

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Se de fato “há algo de podre no reino da Dinamarca”, não estive lá tempo o bastante para o perceber. Ademais, viajo como um legítimo estrangeiro deve viajar: com olhos para ver e perceber o que é belo e bom. A ver miséria, corrupção e violência, não necessito deixar minha pátria.

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É Saramago que me vem à lembrança agora: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” Sim, meus olhos precisavam desse alento, de ver beleza, respeito e cidadania em algum lugar. Precisava dessa viagem para desenhar uma saudade do meu país. É preciso estar longe para saber o lugar onde pertencemos. É preciso tomar um tempo, uma distância, para então regressar e ver, com o olhar benevolente de um estrangeiro, que também aqui há o bem, o belo e o bom. É preciso regressar estrangeiro para ver a própria terra com uma renovada esperança. Sim, já tenho olhos para voltar.

 

 

 

 

 

 

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