Citação · Literatura · Livros

Pretexto para falar de amor

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PRETEXTO PARA FALAR DE AMOR
Cris M. Zanferrari

O dia dos namorados já passou, mas continua sendo junho, o mês do amor. Ao menos assim se convencionou. E convenções, ao contrário do amor, são pré-estabelecidas, anunciadas, sacramentadas. Amor que é amor foge a todas as regras, bule com a previsibilidade, não se submete a códigos sociais. Amor que é amor não carece de definição, não se explica e a verdade é que nem pode muito o amor. Aliás, pode muito pouco o amor.
Amor não passa de sentimento, e sentimentos não curam doenças incuráveis, não impedem atropelamentos, não protegem contra a violência social, não saciam a fome, não cessam as guerras, não são o bastante para mudar o curso de um rio. Amor_ esse sentimento_ é inapto a tomar para si a dor alheia. Por mais que se ame, o amor é impotente para a cura.
Que pouco ou nada pode o amor foi coisa que li em livro. Coisa dura, áspera, de difícil digestão. Mas compreensível e aceitável. Diz o personagem, velho pai acamado, diante da impossibilidade de amparar e cuidar de suas filhas: “Que pode o meu amor fazer por elas? O amor não tem instrumentos. Tem os instrumentos do prazer. Nada mais. É um evento em si mesmo. Às vezes pode-se fazer correrem, para os seres a quem se ama, os rios da alegria e da fartura. Mas é por acaso. Seu amor, no fundo, não é responsável por isso.” O amor, sendo só sentimento, não dispõe de instrumental para nada além de amar.
Mas ouso dizer que se o amor pode pouco, amar pode mais. Porque amar faz bem _ sobretudo_ a quem ama. Amar é o que dá sentido à vida, muito mais do que ser amado. Pessoas são amadas e nem por isso abandonam as drogas. Pessoas são amadas e ainda assim cometem suicídio. Pessoas são amadas e nem sempre amam a quem as ama. Ser amado é bom, é importantíssimo, mas não é o suficiente. Amar é que é vital. É que as pessoas só mudam a si e ao mundo quando elas mesmas descobrem, decidem ou aprendem o que é amar. Amar o que quer que seja: uma pessoa, um bicho, uma causa, um estilo de vida, uma doutrina religiosa, a natureza. É que amar, e só amar, plenifica, dignifica, justifica a nossa existência. É quando amamos _ não quando somos amados_ que encontramos a nossa razão de ser. É, pois, só na passagem de objeto a sujeito do amor que nos salvamos.
E não, não estou dizendo que amar e ser amado, amar e ser correspondido, não seja a graça das graças, o final feliz que tanto perseguimos e ambicionamos. Mas falar disso seria quase que falar exclusivamente do amor romântico, o que seria, por fim, limitar o amor. E quando se fala em amor, nada há que se limitar.
Enfim, voltamos ao calendário, e ainda é junho, é ainda o mês do amor. E convenções à parte, a verdade é que sempre é tempo para se falar das coisas do coração, porque este sim [o coração] é que é “o relógio da vida”, e afinal, “quem o não consulta, anda naturalmente fora do tempo.”

 

 

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