Companhia das Letras · Literatura · Livros

Bernardo e Teresa, uma história de amor

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Não, não é pra ser uma história de amor, mas ainda assim é das mais belas histórias de amor que até hoje meus olhos já leram. É pra ser a história de um homem de espírito indomável, resiliente e fiel aos seus princípios e valores. Mas não, não seria a mesma história sem o amor que o sustenta, fortalece e apazigua. Estou falando do romance “O fiel e a pedra”, do pernambucano Osman Lins.

Cheguei ao livro desavisada desse amor. Amigos recomendaram-me a leitura, a sinopse me apresentou uma “saga quase mítica”, um “arquetípico confronto do Bem contra o Mal”, mas nada nem ninguém me preparou para a fúria poética de tão grande e obstinado amor.

Sim, a literatura universal nos presenteou com amores trágicos e inesquecíveis: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. A literatura brasileira nos concedeu o também trágico amor de Riobaldo e Diadorim, mas foi a literatura regional nordestina que me arrebatou com um amor a toda prova, encravado a ferro e fogo nas vidas de Bernardo e Teresa. Bernardo e Teresa são a encarnação de um amor que__ mais do que resistir aos trágicos eventos __ extrai de toda fatalidade a sua força e o seu alimento.

A perda do único filho, bem ao início do romance, dá o tom e a medida das vidas desse casal de nordestinos. Marcados por essa dor, que jamais os abandonará, buscam recomeçar a vida longe de tudo e de todos, num engenho onde Teresa será a única mulher e onde a hostilidade de “uns tipos duvidosos” crescerá à medida mesma das tensões e conflitos que os funestos acontecimentos trarão. A amparar marido e mulher, um amor crescente, a verdejar sobre a aridez dos dias e da terra.

Esse amor, esse “forte amor”, costurado à linha do tempo e da narrativa, tece seu mais nítido bordado em uma fala de Teresa, a consolar Bernardo de sua angústia por tê-la deposado sem poder lhe oferecer o conforto que ela merece. Diz Teresa: “Eu tenho muito, Bernardo: aí está você. Imagine quantos se querem neste mundo e gostariam de ter o que nós temos: o direito de estar aqui, sem conforto algum, ameaçados, mas juntos, o homem ouvindo a confissão da mulher, a mulher com um filho do homem no seu sangue. E os dois com a lembrança de um filho que morreu. Eu tenho certeza, há casais que dariam metade de sua vida por isto, pelas dores comuns que sofremos, pelo privilégio de recordar um filho morto, mas deles. Como iria eu desejar mais do que tenho? Como posso lamentar o que tem sido a minha glória?” Isso tudo diz a mulher, e diz ainda mais, porque o fio do amor que os une não se desgasta, antes se encorpa, se engrossa, se prende ao tecido da vida e não se deixa por nada no mundo romper.

Sim, bem sei que “O fiel e a pedra” é mais, muito mais que uma história de amor. É uma história sobre a existência humana, sobre seus caminhos e descaminhos, sobre a interna e eterna luta entre ficar ou partir, ceder ou resistir, matar ou morrer. É uma história quase-poema, tamanho o lirismo com que se congraça a linguagem. Mas é também, ao cabo e ao fundo, uma história de amor.

É uma história de amor para quem assim a quiser. Para quem esteja desejoso de notícias de um amor assim. De um amor bonito, sem ser idealizado, sem ser impossível. De um amor bonito, porque verossímil. De um amor bonito, porque realizado.

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