Anton Tcheckov · Citação · Editora 34 · Literatura · Livros · O beijo e outras histórias · Para refletir

A vida comum e “O beijo”

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Toda gente sabe que a matéria dos dias se faz de pequenices, aquelas coisas pequenas que alimentam corpo e alma de uma só vez: um café passado, uma música nova, uma velha música, encontrar amigos, abraçar quem se ama, tomar banho sem pressa, aprender coisas novas, se exercitar, comer bem, dormir em paz. Pequenas alegrias que duram o tempo que duram apenas. Às vezes, um pouco mais.

Toda gente_ mesmo sabendo das pequenices de que são feitos os dias_ sonha mesmo é com grandiosidades. Sonha encontrar um grande amor, sonha grandes feitos profissionais, grandes viagens, grandes bens materiais. Em matéria de sonhos, pequeno é não sonhar.

Mas o que muita gente não sabe é que a grandiosidade do sonho pode acabar por fazer sombra às minúcias, às pequenas delicadezas, incrustadas no dia-a-dia. Sombreadas, passam despercebidas, ignoradas, esquecidas. Até que alguém, ou alguma coisa, ou algum acontecimento as traga de volta à luz, fazendo brilhar uma pequena grande verdade: ser feliz pode ser, simplesmente, viver uma vida comum.

Essa é ao menos uma dentre as reflexões a que nos conduz a leitura de “O beijo”, de Anton Tchekhov. Nesse conto, o jovem oficial Riabóvitch vive uma pequena e inusitada aventura. Convidado, juntamente com os outros oficiais de sua brigada, a tomar chá em casa de um desconhecido tenente-general, o tímido e inexperiente Riabóvitch é surpreendido pela seguinte situação: ao sair de uma sala de jogos e tentar retornar ao salão principal, vê-se perdido pelos aposentos da imensa casa e acaba por adentrar um escritório meio escuro, onde uma voz feminina o alcança, enlaça e beija. Por engano, o “mais incolor dos oficiais de toda a brigada” foi beijado por uma desconhecida que, ao dar-se pelo lapso, fugiu sem que ele pudesse ver-lhe a face. Esse momento, doce e fugaz, foi o quanto bastou para que o rapaz se sentisse, de súbito, profunda e ligeiramente tocado por uma inesperada alegria de viver.

Até aquele momento, Riabóvitch vivia sua vida sem sobressaltos, sem grandes entusiasmos, vivia sua vida de modo comum. E, no entanto, o comum de sua vida havia se transformado por dentro. Ele agora conservava, no seu íntimo, um contentamento sereno, que lhe permitia extrair dos dias um novo frescor: “Todas as manhãs, quando o ordenança lhe trazia o necessário para lavar-se, ele despejava água fria sobre a cabeça e lembrava que em sua vida havia algo bom e tépido.”

Assim são certos momentos na vida: um súbito acontecimento transforma-se em uma faísca a acender a cor dos dias, acrescentando-lhes colorido e vivacidade. A partir de então, a simples lembrança de uma dessas faíscas nos move, nos ampara, nos alenta. A uns, pode mover por dias ou semanas. A outros, move por uma vida inteira. A Riabóvitch moveu pelo tempo necessário à compreensão de que nada havia de errado em ser um homem comum. “Tudo o que eu agora sonho e que me parece impossível e não terrestre é, na realidade, muito comum”, pensa o jovem, “E o pensamento de que era um homem comum e que a sua vida era uma vida comum, alegrou-o, deixando-o mais animado.”

Que grande liberdade é reconhecer-se comum! A grandiosidade das coisas, até mesmo dos sonhos, nos aprisiona a um modo de vida que não é, por natureza, o nosso. Trabalhamos demais, corremos demais, enlouquecemos demais porque queremos ser grandes. E porque queremos ser grandes, fechamos os olhos às coisas pequenas, que são as verdadeiramente grandes.

Viver uma vida comum é também deixar de esperar. Eis a libertação. Somos livres quando deixamos de esperar. Quando fazemos_ seja o que for_ pelo prazer de fazer, pela alegria e pelo contentamento que o fazer nos dá, pelo bem que sentimos ao fazê-lo, encontramo-nos a nós mesmos. Riabóvitch viveu longos dias acalentado pela lembrança do beijo e pelo desejo de (re)conhecer a desconhecida mulher. Ao abandonar essa esperança, viu regressar a paz da normalidade dos dias. “Agora, quando ele não esperava nada, a história do beijo, sua impaciência, as esperanças vagas e a decepção apresentavam-se sob uma luz clara. Não lhe parecia já estranho […] o fato de que jamais veria aquela que o beijara em lugar de um outro; pelo contrário, o estranho seria se ele a encontrasse…” Liberto dessa espera, sentiu-se dono do próprio destino e, apesar de chegada a oportunidade, esquivou-se de um outro chá à casa do general.

O jovem oficial do conto de Tcheckov nos faz, mais do que ver, valorizar o que há de bom e belo em se viver uma vida comum. Uma vida em que se aceita o que vem e o que vai com igual temperança. E cujo segredo está em se receber e se guardar _ para evocar nos momentos menos afortunados_ uma lembrança doce e terna de um momento inesquecível.

 

 

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