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De presentes e sonhos

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De presentes e sonhos

Cris M. Zanferrari

Corre o ano e as tradicionais datas festivas já estão a se aproximar: alguns aniversários, Páscoa, Dia das Mães. Com elas, o imperativo de dar ou trocar presentes. Até aí nada de novo, a não ser a pergunta que se repete mal passado o Natal: ciranda, cirandinha, que presente vamos dar?

Cresci ouvindo e seguindo um conselho popular, o de que devemos presentear alguém com aquilo que nós mesmos gostaríamos de ganhar. Só há bem pouco tempo percebi o imbróglio desse conceito. Tudo bem que a premissa seja nobre porque, afinal, demonstra que a intenção é quase bíblica: agradar ao outro como a si próprio. Mas, convenhamos, nem todo mundo gosta de orquídeas, de livros, ou de acessórios para cozinha. Perfume então, pessoalíssimo. Objetos de decoração, só se o gosto de quem presenteia passar longe do kitsch.

Presentear com coisas do nosso gosto pessoal é querer impor ao outro o nosso próprio modo de ser. É fazê-lo refém das nossas vontades. Ao submetermos o outro a apreciar o que nos agrada e interessa estamos exibindo o nosso lado mais egocêntrico. Vaidosos que somos, cremos estarem as nossas preferências alinhadas aos mais altos níveis da estética, requinte e bom gosto. Tudo isso, claro, segundo os nossos próprios critérios. Em suma, todo presente é, bem no fundo, autoelogioso.

Felizmente, nem tudo é oito ou oitenta nessa vida. E assim é que também uma outra verdade se esconde por trás do gesto. Uma verdade um pouco mais nobre, bela e humana: o simples desejo de que o outro goste do que gostamos nós. É que gostar das mesmas coisas nos torna mais próximos, nos deixa mais íntimos, e nos faz menos solitários. Ter apreço e afeição pelas mesmas coisas nos faz mais parecidos,mais aparentados, nos torna mais irmãos. É nobre, belo e humano o desejo de, ao longo da vida,nos fazermos acompanhados.

Agora, bonito mesmo, de verdade, é quando alguém nos conhece tão bem que sabe exatamente o que nos  agrada, o que desejamos, a que aspiramos. Essas pessoas, que sabem ler as outras, dificilmente erram ao presentear. É que elas estão sempre atentas aos detalhes, às entrelinhas, e interpretam gestos e intenções. Dedicam-se a verdadeiramente conhecer o outro. Sabem de antemão os seus desejos, antecipam os seus sonhos, reconhecem as suas vontades. E por conhecê-lo assim, tão profundamente, dão ao outro o melhor presente que o outro poderia receber: ver-se respeitado em sua mais completa e absoluta individualidade. Essas pessoas, que sabem ler as outras, presenteiam apesar das diferenças, das dessemelhanças, porque sabem que não há que sermos iguais para estarmos juntos.

Mas é verdade também que há leituras equivocadas, afinal, se não é fácil conhecer a si próprio, o que dirá bem conhecer ao outro. Digo isso e me vem à lembrança uma historinha acontecida já há alguns anos.

O marido costumava dizer à mulher que tinha um sonho guardado. Queria aprender a tocar saxofone. Imaginava-se tocando não em recitais, mas no aconchego do lar, plateia restrita e familiar. A mulher sonhava junto, antevia ter o seu próprio Kenny G. na sala de estar. O homem reservava o sonho para a aposentadoria, a ocupar as horas vazias com música clássica soprada pelo próprio pulmão. Mas eis que a mulher decide que um sonho guardado é apenas um sonho e que esperar por realizá-lo _tão curta é a vida_ pode significar condená-lo a ficar para sempre e tão somente no universo onírico. Assim, ela trata de comprar um belo saxofone dourado para presentear o marido. E para garantir que o presente não permanecesse no estojo, anexou ao instrumento de sopro o cartão do professor que ministraria as aulas de iniciação musical.

Mas eis que o presente menos surpreendeu do que o compromissou. Foi instado a aprender as notas e escalas musicais, a praticar exercícios de embocadura, a ter mais um apontamento na agenda a cumprir. A realidade exigia um esforço incompatível com a sublimidade do sonho. Achou que o aprendizado era dificultoso, que não levava jeito, que isso e aquilo. Aos poucos_ sem que a mulher o soubesse, temia desapontá-la_ foi cabulando aulas e se esquivando das práticas. Quando a mulher se deu conta, já estavam o sax e o sonho extraviados no estojo de veludo.

Passadas as frustrações de ambos, presenteado e presenteador, ficou o saxofone a exibir-se, emoldurado, como parte da decoração da casa, a lembrar que talvez o mais bonito do sonho seja isso mesmo, apenas o prazer de sonhar. E que, afinal de contas, de presentes e sonhos, nunca se sabe o que esperar.


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com

 

 

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