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É verão, mas faz inverno (ou: Seleta de Letras: Luiz Sérgio Metz)

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É bruto o calor. São 37 graus de prostração, sede e suor. Sem brisa do mar, e ainda o mormaço varrendo as calçadas depois da súbita pancada de chuva.

Quem diz que gosta do verão que venha vivê-lo ao Sul. As temperaturas que aqui fazem, não as fazem como lá. Lá onde, mesmo? Lá pras bandas do propagandeado nordeste, com suas praias exuberantes e seu calor deleitável. Aqui não. Aqui o calor é literalmente prova de fogo, com a camada de ozônio mais danificada do país. Com a sensação térmica mais abafada que panela de arroz. Gaúcho quando gosta do verão é só por modo de justificar uma saudade da estação mais fria do ano.

A verdade é que acabo de ler “Assim na terra” e não sei se é o livro ou o calor infernal que me faz desejar o retorno do inverno, mas anseio pela estação dos ponchos e das geadas com a mesma intensidade com que sobem os termômetros pelo pampa afora.

É que preciso urgentemente reler o livro de Luiz Sérgio Metz sob o aconchego de uma manta, ao pé de uma lareira e com uma cuia de mate numa das mãos. É que preciso recriar a poesia do instante, da frase que é verso quando diz: “Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul.”É que preciso do “Inverno, flor de paina fria” para reacender o lume do meu coração. Sim, à moda de Adélia, só melhoro quando faz frio.

Só o frio tem o condão de nos levar à introspecção. Tudo no inverno se recolhe, se entoca, se concentra. A vida acontece do lado de dentro. É dentro _ de si e da casa_ que se agasalham as memórias, se contam acalorados causos, se aquecem as mãos e as almas. As horas passadas junto do fogão a lenha tecerão reminiscências de calor e afeto, de infância e de saudade. O frio é um texto que se lê ao avesso, ou seja, por dentro.

Em outras palavras: ler a obra de Metz requer essa mesma interiorização que nos exige o mais rigoroso dos invernos. No livro, como na casa, há frestas, frinchas, pelas quais resvalam sutilezas e devaneios, e por isso convém sempre perguntar: “Seria ‘lá fora’ um lugar além de nossas paredes?” Da mesma forma, convém fazer silêncio: “Quem pode ficar a sós com sua alma?”

“Assim na terra” não é livro. É lugar. É o próprio inverno, instando ao recolhimento, chamando à vida interior. O narrador e seu interlocutor, Gomercindo, fazem lembrar um pouco o próprio Riobaldo e seu compadre Quelemém, cavalgando e filosofando não pelas Gerais, mas pelo pampa gaúcho. Dentro de um galpão, o Pensário, é onde se desfiam lembranças, divagações, tergiversações: legítimas veredas. Diadorim, se há, converteu-se “no estojo de um camafeu” de onde as pequenas mãos acenavam e de cujas “bordas da fotografia o clima ia trabalhando um debruado que alcançava o contorno do corpo, como molestado por vitiligo. O mofo não impedia a vida na imagem.” Sobre esse amor, Gomercindo arremata com um pedido e um conselho dirigidos ao narrador: “Aonde a palavra alcança eu a visitei. Um assédio de tropos, a perda do foco e do conjunto. Isso tudo também passou. Gostaria que um dia tu levasses flores a esse retrato. E se um dia tiveres um, esquece-o. Vive o objeto do retrato. Ela é o sujeito. Esquece, portanto, o sentido. O sentimento é maior. Esquece-te para que ela surja. Gostaria que levasses a flor do linho. Ela gostava dessa, mais que de outra. Se puderes, planta-o. Depois dele, não há o azul.”

Mas há ainda outra coisa a se dizer: não espere o leitor encontrar esclarecimentos na narrativa de “Assim na terra.” Há, antes, uma fina cerração a encobrir o texto, camadas nebulosas de sentido e, sobretudo, uma densa, transbordante e onipresente poesia. Cada frase mais parece um verso, porque Metz dispôs da linguagem como um artista dispõe do pincel diante da tela: de modo a criar algo inteiramente novo, inusitado, e surpreendentemente belo. “Assim na terra” é o quadro de uma paisagem interior à espera de ser desbravada pelo leitor.

Lá fora, 37 graus de absurdo calor. Aqui dentro, o livro de Luiz Sérgio Metz inaugura o inverno. E prepara a alma para a mais aconchegante das estações.

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Colhi “versos” no jardim de poesia que é “Assim na terra.” Entrego-os ao leitor na esperança de que ele busque, algum dia, visitar o jardim original.

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“Deus nos fez com pressa, as mãos para o alto e o olhar para dentro, poucos no começo e poucos no fim.” (pág. 34)

“Saber também é um exercício de paralisação corajosa.” (pág. 74)

“A juventude é um merecido mergulho que às vezes damos num rio rolando sobre pedras.” (pág. 80)

“Olhar para trás na despedida é incluir um tempo em outro. A saudade que desce na lágrima no espaço de uma vidraça no tempo de uma viagem é mesmo pensamento. Pensamento ligado ao tempo, mas não é tempo. Durar sequer é tempo, mas pode ser amor.” (pág. 110)

“Tudo palavras, elas nos sustentam. Só elas penetram o corte, são o atalho. Elas desordenam, elas aparentam, aparecem, e somem nas essências. Gotas de apojo pingando na caneca. Buscamos alcançar o que intuímos, um ideal de nome para essa coisa, que já não mais está, ficou a palavra da coisa, e a palavra que muda é a que mais acompanha a coisa e a transforma.” (pág. 133)

“Há muito o que se fazer em terra, e ler sobre o mar também é ser do mar.” (pág. 147)

“A terra terminava bem perto, e assim na terra logo começava o céu. Por isso, na minha infância as coisas ainda desciam do céu para a terra e Deus, de vez em quando, fresteava a reza no quarto. Demorávamos a crescer, e como! As botas nos aguardavam novas em suas idades jovens. Um dia as usaríamos. Esse dia chega como todos os outros. Tardio.”(pág. 153)

“Talvez o fazer mude o sonho. O que não existe diz do que existe. […] Tudo na noite ressoa. Tive um livro que extraviei. Tratava de um povo que não conseguia mais usar sua linguagem, pois o conteúdo das palavras-chave fora alterado ou esquecido. Mas no texto havia uma esperança e numa altura da narrativa testemunha: um lugar é habitado e habitável quando dele se pode ter saudade, sempre e somente saudade.” (pág. 204, parágrafo final do romance.)

 Fonte: METZ, Luiz Sérgio. Assim na terra. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “É verão, mas faz inverno (ou: Seleta de Letras: Luiz Sérgio Metz)

  1. “…Mas no texto havia uma esperança e numa altura da narrativa testemunha:…”, o depois de dois pontos podia ser tudo, a sua escrita é tão poética, que o antes do que vai dizer já é belíssimo, nos deixa sem fôlego, pois vamos para lugares ainda não idos.
    Cris, também gostaria de um frio com lareira para sua leitura, mas confesso que nos leva para algum outro lugar, quem sabe, para algum ponto do espaço que não foi explorado.
    Adorei!! Obrigada!
    Feliz 2017 querida Cris, para você e sua família, muita luz e amor!!
    Beijos, Marina

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