Literatura · Livros · Palavras ao vento

Better done…

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Olho ao meu redor e reparo: coisas esperam. Inúmeras coisas. Coisas-afazeres, coisas-telefonemas, coisas-decisões, coisas-prazos, coisas-compromissos, enfim, um sem fim de coisas aguarda a marcha do dia. E o soldado que mora em mim quer cumprir todas as forças-tarefas com igual vigor. Como se fosse uma coisa_ humana e militarmente_ possível. Coisa que não é.

E por pensar nessas coisas todas, acabo por lembrar de uma máxima da cultura norteamericana que diz: “Better done than perfect.” Ok, a frase pode até soar como uma desculpa para o descuido, o mal ajambrado, o popular “feito nas coxas”. Mas olhada com mais apuro e menos preconceito, pode-se ver aí um belo incentivo para a passagem da total inércia à ação. Nada é mais paralisante do que a ideia de que tudo precisa ser realizado à perfeição. Desejar que as coisas sejam ou fiquem absolutamente perfeitas nos impede de chegar a fazê-las porque esmorecemos antes mesmo de começá-las.

Isso serve também para o ofício de escrever. A busca pelo texto perfeito, a escolha da palavra certa, a exigência para com a forma, a preocupação com a relevância do que se vai dizer, a obsessão com a originalidade, a frenética procura pelo estilo próprio, tudo são pedras que, se tomadas por montanha intransponível, impedem o caminhar. Mas há que se caminhar, sobretudo porque as coisas todas clamam por realização. A vida  é movimento.

Por isso, hoje o texto saiu assim: um exercício de desprendimento, de abandono da cruel concepção de excelência, um exercício de aceitar a imperfeição. Uma coisa ao menos feita e não mais à espera. Uma coisa da qual não se pode dizer que falhou, porque falhar é sempre e só: deixar de acontecer.

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“Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distração de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.”

Fernando Pessoa, na voz de Bernardo Soares, em trecho colhido no “Livro do desassossego.”

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2 comentários em “Better done…

  1. A planta no vaso único é vista pela vizinha e vista pelo autor, então, passa a existir. Fernando Pessoa traduz tão bem, o que o escritor tem como necessidade.
    Bjs

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