Citação · Literatura · Livros

Carta aberta a Valter Hugo Mãe

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Caro Valter,

Precisei vir aqui te dizer: chorei.

Chorei o quanto se pode chorar à leitura de um livro. Talvez mais.

Faz alguns dias que virei a última página de “Homens imprudentemente poéticos”, mas o livro permanece aberto em mim. E descobri: tu és o próprio Itaro. És o verdadeiro artesão das palavras; tu és aquele que nos dá olhos de ouvir. Somos todos os leques teus, canas toscas a receber o pincel das tuas bem traçadas palavras. Tu és o próprio Saburo. Somos nós o bosque que envereda por abismos de fealdade, desatino e incompreensão, a receber a beleza das palavras que tu plantas em nós para cultivar um jardim de embelezar o mundo.

Tu segues sendo o Benjamin e o “homem mais triste do mundo”, tu és o próprio Baltazar Serapião, o Senhor Silva e todo o seu “resto de companhia”, tu és o Crisóstomo e a Isaura, a Maria da Graça e a Quitéria, a Halla e o Einar. Tu levas a humanidade inteira em ti, como a levam todos os homens, à diferença de que tu o sabes. Tu te tornaste maior do que tu mesmo porque tu és já a totalidade das tuas obras.

Eu sempre pensava que a beleza fosse algo assim, da ordem do irrepetível, incapaz de se revelar em repetida vez. Pensava que “A desumanização” fosse o último grau dessa beleza, o cume de uma montanha que só muito poucos estão destinados a alcançar. Pensava que a beleza se comportasse como um milagre de salvação a causar-nos espanto, assombro e fé. Mas nunca julguei a beleza capaz de repetição.

“Homens imprudentemente poéticos” me fez ver que, de fato, a beleza não se repete. A beleza se alarga, se expande, cresce às raias do impossível, beira a margem do intangível, e nunca, nunca se consome. A beleza se amplia, se agiganta, se robustece, se plenifica. Sim, “Homens imprudentemente poéticos” é a beleza em sua plenitude.

Tu lograste vencer o desafio poético e autoimposto de escrever todo um romance à esquiva da palavra negativa, da palavra que nega sem qualquer solenidade, que é o “não”. E o fizeste de forma tão magistral que, não fosse ter ouvido a confissão de tua própria boca, teria sido difícil que eu o notasse. É este o talento do artista quando grande: convocar a mais absoluta naturalidade. A ausência do “não” “é difícil” de ser sentida, pois que a linguagem parece fluir e abundar como água jorrada da fonte: naturalmente. É mérito teu que assim nos pareça.

Valter, todos os teus livros são testemunhos vivos de que “o paraíso são os outros.” Todos os teus livros são arautos de esperança. Por isso, tenho dito e repetido que tu és um dos justos do poema de Borges. Tu, com as tuas palavras, com a tua obra, estás a salvar o mundo. E eu continuarei a ser sempre, para sempre, aquele que agradece.

Com muito carinho, vai um abraço meu.
Cris

 

 

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6 comentários em “Carta aberta a Valter Hugo Mãe

  1. Cris, já me emocionei com tuas palavras aqui sobre este livro que lerei em breve.
    Eu preciso também escrever uma carta a Valter Hugo Mãe e pedir que me desculpe.
    Feito criança, fiz birra, dessas de bater o pé e me jogar no chão dizendo que nunca leria um autor que escreveu livros em minúsculas.
    Mas o sobrenome tão imponente, Mãe, não parava de fazer meus olhos porem reparo, até que li que um psiquiatra estava na fila de autógrafos com dois exemplares do mesmo livro e disse ao próprio autor que ele, pai de duas filhas queria deixar-lhes uma herança – O Filho de Mil Homens.
    Isso mexeu comigo. Como assim? Um livro que serve de herança, uma espécie de tudo o que um ser humano precisa saber?
    Esqueci a birra e comprei meu exemplar.
    Chorei ali com Crisóstomo e Isaura. Vi a grandeza de um homem que, em minúsculas ou maiúsculas, só nos acrescenta e enriquece. Aqui em seu texto só confirmo o que senti em apenas um livro dele. Certamente irei aos outros também!
    Um abraço Cris
    (lá no instagram sou @retrateria)

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  2. Belíssimo texto. Tive essa mesma sensação quando li ao livro “O Homem que Era Quinta-Feira” de G. K. Chesterton. Pura beleza poética. No momento estou lendo a um livro de Balzac. O encanto é o mesmo.

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