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Seleta de Letras: Rainer Maria Rilke

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Sinos reverberam. O som de cada badalo ressoa e ecoa para dentro do infinito do tempo, como uma onda que se levanta e mansamente atinge a praia.

Sinos são nostálgicos, mágicos, místicos. O som de um sino é sempre sígnico: anuncia nascimento, casamento, morte. O som de um sino é sempre um chamado.

Certos livros são como um sino. Chamam-nos e conduzem-nos por veredas profundas, despertam-nos para outros signos, e fazem ecoar palavras como quem entoa um mantra.Livros também reverberam. Quando magnânimos, fazem com que suas palavras perdurem, produzindo uma ressonância para além de suas páginas já fechadas. Livros são sinos de papel.

Diz-se dos sinos que quando tocados festivamente estão a repicar. Do meu sino de papel mais recente, repica, sem cessar, “A melodia das coisas.” Do poeta de Praga, retumbam frases poéticas, considerações existenciais, conselhos de escrita e de vida.

“A melodia das coisas” é sino de papel que toca e reverbera no recôndito da alma. É onde o silêncio só se rompe para o som mais puro que há: o do nosso ritmo interior. Não poderia haver melhor lugar para um sino.
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“A melodia das coisas”, de Rainer Maria Rilke, traz contos, ensaios e cartas do poeta maior da língua alemã. Aqui, pequenos excertos que visam, como de praxe, provocar e conduzir à leitura da obra na íntegra.

“[…] mas mesmo assim Hermann Holzer para, recolhe-se diante da estreita janela e cobre o céu com as costas negras, as chaminés e toda a tarde de domingo.” (pág. 83, em fragmento do conto “Os amantes”, Grifo meu)

“II. Não posso imaginar mais feliz sabedoria
do que esta:
que é preciso ser um iniciante.
Alguém que escreve a primeira palavra atrás de um
secular
travessão.”
(pág. 123, Ensaios)

“[…] a essência da beleza não reside no influir, mas no ser. Caso contrário, exposições de flores e jardins públicos deveriam ser mais bonitos do que um jardim silvestre, que floresce em qualquer parte e do qual ninguém ouve falar.” (pág. 135, Sobre arte)

“A infância é o reino da grande justiça e do amor profundo. Nenhum objeto é mais importante do que outro nas mãos da criança. Ela brinca com um broche de ouro ou com uma flor do campo branca. No cansaço, deixará ambos de lado e esquecerá como os dois lhe pareceram igualmente brilhantes na luz de sua alegria. A criança não padece da angústia da perda. O mundo para ela é ainda uma bela taça, dentro da qual nada se perde. E ela sente como sendo sua propriedade tudo o que um dia viu, sentiu ou ouviu. Tudo o que um dia encontrou. […] E o que reluziu um dia no amor permanece como imagem e não se perde jamais. E a imagem é posse. Por isso as crianças são tão ricas.” (pág. 135)

“[…] talvez a fama nunca tenha sido outra coisa senão a essência de todos os mal-entendidos que se reúnem em torno de um novo nome.” (pág. 139, Obras de arte)

“[…] a rigor, e justamente nas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós, e para que um possa aconselhar ou mesmo ajudar o outro é preciso muitos acontecimentos, muito precisa dar certo, toda uma constelação de coisas deve se reunir para que o resultado seja feliz.” (pág.146, Cartas)

“[…] num poema que consigo escrever há muito mais realidade do que em cada relação ou simpatia que eu sinta; quando crio, sou verdadeiro, e gostaria de encontrar a força para fundamentar minha vida totalmente nessa verdade, nessa infinita simplicidade e alegria que às vezes me é dada. […] Tenho séculos de paciência em mim e quero viver como se meu tempo fosse muito grande.” (pág. 159)

“[…] o que seria uma solidão que não tivesse grandeza? Só existe uma solidão, e ela é grande e não é fácil de carregar, e para quase todos chegam os momentos em que gostariam de trocá-la por uma reunião, mesmo a mais banal e ordinária, pela aparência de um pequeno entendimento com quem quer que esteja próximo, com o mais indigno… Talvez sejam essas precisamente as horas em que a solidão cresce; pois seu crescimento é doloroso como o crescimento dos meninos e triste como o início das primaveras.” (pág. 162)

“[…] Já foi preciso repensar tantos conceitos de movimento, que aos poucos também se aprenderá a reconhecer que aquilo que chamamos destino procede das pessoas, e não as penetra de fora para dentro. […] Assim como por muito tempo estivemos enganados sobre o movimento do sol, continuamos a nos enganar sobre o movimento do futuro.” (pág. 174)

 

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