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Amiga lição

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Numa época em que não existiam redes sociais, e-mail e que tais, eu usava escrever cartas. Mais que isso, eu adorava escrever cartas. É que sempre gostei mais de falar por escrito, de falar escrevendo mesmo. Escrevendo, falei com amigos, parentes e até desconhecidos. Sim, fiz amizades por pen-pal, uma espécie de chat por correspondência. Levava semanas e até meses, claro, para receber uma resposta, principalmente quando vinda do exterior. Mas era uma bonita espera.

Escrever uma carta é um pouco como desnudar-se. Numa carta, desvelam-se pensamentos os mais secretos, sentimentos os mais inconfessáveis, nacos de vida os mais intangíveis. Por isso, também é um pouco vouyer aquele que aprecia ler cartas alheias. A leitura das cartas dos outros é a observação curiosa e expectante sobre uma intimidade que, em verdade, não lhe diz respeito, mas que de alguma maneira o fascina. O leitor do gênero epistolar é antes de tudo um curioso, alguém que pensa ser capaz de apreender mais, de conhecer mais intimamente os interlocutores por meio desses diálogos escritos. E conhecer mais, para esse leitor, quer dizer assimilar aprendizagens, de vida e literatura, por meio da conversa escrita que é uma carta.

Sou assumidamente um desses leitores. Amo ler e reler as correspondências trocadas entre Clarice Lispector e suas irmãs, entre Clarice e Fernando Sabino, entre Pessoa e sua Ophélia, entre Rilke e seus contemporâneos, entre Caio Fernando e o seu rol de amigos, entre Tchékov e os seus, entre Mário de Andrade e Drummond. Dos dois últimos, leio “A lição do amigo” com um contentamento quase religioso.

Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade cultivaram uma amizade missivista por vinte anos. Isso mesmo. Durante vinte anos, o autor de Macunaíma e o poeta de Itabira foram amigos íntimos, trocaram conselhos literários, experiências de vida, conversaram fraternalmente, debateram assuntos linguísticos, fizeram confidências. Conviveram mesmo, literalmente, foi por escrito. É o próprio Drummond quem trata de esclarecer logo na apresentação do livro: “A bem dizer, e paradoxalmente, jamais convivi com Mário de Andrade a não ser por meio das cartas que nos escrevíamos […].” Paradoxal e intransponível, mas ainda assim: uma convivência. Poderia se dizer até mesmo: uma rica convivência. De uma riqueza que vem, nas palavras de Mário, do fato de “compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela.” Vivê-la, inclusive, por escrito.

Em uma nota de Antônio Cândido, lê-se que Mário de Andrade encarava a tarefa de escrever cartas como uma responsabilidade moral e literária tão grande quanto escrever poemas ou estudos. Diz Cândido que Mário via nas cartas “um instrumento de revelar beleza e servir ao próximo.” Mas talvez fosse ainda mais do que isso. Para o poeta de “Lira Paulistana” (seu último livro), redigir longas missivas era um gesto existencial. É ele mesmo quem o diz: “Escrevo mesmo só pra lembrar você de que existo.” Lembrando ao outro da sua existência, lembrava-se a si mesmo. E existia, largamente, pelas cartas. A verdade é que quem escreve quer estar perto, quer estar junto: “[…] escrevo por precisão de me sentir mais junto com os amigos.”

Mário de Andrade prezava por demais o valor da amizade. E se era certo que havia o desejo de transpor e de estender as relações amistosas do papel à vida real, era certo também que esse desejo se revestia de ofertas generosas, como esta feita através de um convite a Drummond para que fosse a São Paulo e fizesse um ‘retiro espiritual’. Assim dispôs Mário ao amigo: “Venha pois tentar dois meses sozinho. Talvez que uma intimidade mais objetiva com minha felicidade possa organizar você. Hei de achar jeito pra conversarmos bastante. Você aqui não está sozinho. Você entra e sai na minha casa a hora que quer. Se eu estiver trabalhando não deixo o trabalho por causa de você. Você fica mexendo no que quiser. Se quiser dormir durma. Se quiser ir à merda, eu não deixo. Se vier com confiança ou cerimônias, te dou um bruto dum soco e dois insultos de inhapa. E tenho um coração de ouro, com muita paciência e todos os perdões pra você.” Mário ofertava ao seu destinatário muito mais do que palavras. Ofertava sua casa, seu tempo, sua compreensão. E ofertava, sobretudo, uma amizade duradoura: “Que passem anos, se um dia um de nós sofrer e encontrar ou buscar o outro, sabe que nesse ombro terá descanso.”

Repletas de sabedoria, de experiência de vida, de literatura e de conselhos, as cartas de Mário seduzem e apaixonam o leitor por seu alto teor lírico e por sua finíssima carga poética. “A lição do amigo” é mesmo repleta de lições, e é também uma prova irrefutável de que ler a correspondência alheia pode ser útil, proveitoso, e nem um pouco indecoroso, principalmente quando o próprio remetente consente em que sejam publicadas: “Está claro que isso é o que mais me absolve de minhas cartas. Foram escritas com tamanho amor, tamanha integração, tão decisórias como esses momentos raros de que a gente ‘nunca se esquece na vida.’”

Esteja em paz, Mário. Mais do que absolvição, as tuas cartas te elevam àquela categoria de texto do qual se diz, num perfeito estado de sublimação: é literatura que ajuda a viver. Muito obrigada pela amiga lição.

 

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6 comentários em “Amiga lição

  1. Mais uma vez abandono o livro sobre a mesa e venho aqui para ler os seus textos Cris. E o livro que ficou sobre a mesa nem tão difícil era.
    Escrever cartas é bem diferente mesmo, é um ato quase religioso. Tem o cheiro do papel quando vem da tinta, bastante azul e viva. Essa sensação de desnudar-se ao escrever uma carta, creio nunca senti. Sinto é uma vontade de ir preenchendo toda a brancura, e sempre numa folha sem pauta, pra sentir ainda mais a sensação de preencher um lugar que antes era vazio. Semana passada escrevi uma. E as vezes escrevo tantas, que ficam esquecidas e jamais chegam nas mãos do destinatário. Anos depois as encontro dentro de livros ou em pastas, lacradas com o nome da pessoa a quem seria enviada.
    O email voÇe lê uma vez e nunca mais volta a ele. A carta, porém, está sempre esperando um outro olhar, de uma nova leitura. Nós envelhecemos, e elas estão sempre jovens, fazendo-nos lembrar de quem se era aos vinte e aos vinte e cinco.
    Uma vez, tenho que te contar essa, eu recebi uma carta do correio sem remetente. Estava escrita à lápis e numa caligrafia exótica como o sabor de tamarindo. Mas logo no incio, pela sensibilidade, pelo modo poetico das frases, adivinhei de quem era,. Era de alguém que morava na mesma cidade, que nunca tinha ido na minha casa, que me conhecia da faculdade, e que, descobriu meu endereço apenas para enviar uma carta. Eu cheguei de noite, e encontrei a carta sobre a cama, foi um calafrio no barriga, Já fazia muitos anos que nunca mais recebia uma, e aquela me deu tanta felicidade ao ler, era como se fosse uma injeção de heroína que entra calmamente pelo fluxo sanguineo. A efusão, a eferverscência era tão grandes que peguei uma caneta e um papel e escrevi febrilmente quatro laudas inteiras, para envià-las sabe-se lá para onde, mas sem esquecer a pessoa a quem se destinava.
    E essa importância de compromisso que o Mario dava ao “oficio” de escrever cartas chegou a ser tão importante na vida de Rilke, que ele separava uma caneta de escrever cartas e outra de escrever poemas. Teve uma vez, como conta seu biografo Maurico Wisenthal, que ele chegou a escrever 18 cartas num único dia, do amanhecer até de noite. Foi um dia fabuloso para Rilke. ia escrevendo, escrevendo. Embora cada uma fosse para um destino distinto, sempre orbitavam o mesmo tema, apenas dissimulados por algumas palavras mais ou menos alegres. Percebia-se que naquele dia, ele ia escrevendo e superando,,, inconscientemente,,, uma certa depressão que fazia fuzuê no seu âmago, e ele sentia, que,,, quando chegou lá na decima primeira carta,,, sua mão estava pesada, dolorida, emperrava, mas aquilo era pra ela um obstáculo que invoca suas forças, era o memento de transformar a dor da mão em vontade criativa, E ele seguiu, seguiu escrevendo, e sua tristeza foi se transformando numa alegria radiante e inexplicável, E todos os s foram se transformando em incontáveis singulares, e tudo se tornou plural, plural mas sem s, plural de singularidades, Era a natureza viva, ali, saindo da tinta. E no fim, era mesmo como se um anjo estivesse segurando sua mão, ajudando-o em cada contorno, como se ajuda uma criança do jardim da infância, Depois daquele dia ele descobriu a formula para se tornar, talvez, o maior poeta em língua alemã: escrever cartas,
    Sem elas talvez ele não tivesse superado sua melancolia eslava, e não iria se tornar O Rainer Maria Rilke.
    Mas que diabos! porque foi que escrevi tanto?!

    Fique Bem Cris!

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    1. Thiago,
      Que bacana o conhecimento que você tem sobre Rilke! Achei muito curioso esse episódio da vida dele sobre as cartas.
      Há um texto, uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna que se intitula “Cartas: a paixão escrita”. Se você não conhece, procure. Vale muito a pena. Sobretudo pelo poema que encerra o texto.
      Quanto ao “desnudar-se” numa carta, quis me referir ao desnudamento da alma, dos sentimentos todos, de mostrar-se como se é. Numa das cartas, Mário (de Andrade) fala sobre sua “pequenez intelectual” e diz: “Mas pros amigos perfeitos ainda considero uma ignomínia eu me enfeitar. Estou nu.” É a essa nudez que me refiro.
      Preciso dizer que foi muito curioso que você se perguntasse ao final do comentário sobre ter escrito tanto. Curioso porque acabei de escrever um texto sobre isso, ainda no embalo, claro, da “Lição do amigo”. Vai ao ar em breve.
      Fique bem você também! 🙂

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  2. Tenho escrito cartas, Cris. Na minha adolescência o fazia, publicando meu endereço na revista em quadrinhos da turma da Mônica. Lá se vão três décadas. Recebi um convite por e-mail para participar de um grupo de troca de correspondência. Aceitei e descobri um mundo imenso de missivistas!
    Fui tão tocada pelo seu texto que ontem comprei o livro.
    “Poucadinho” de gratidão a você por tão bela indicação!
    Beijo.

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    1. Adorei saber dessa sua paixão por cartas, Ana!! Então quer dizer que há um mundo de missivistas aí fora? Muito bom saber!! Eu sigo um IG cujo propósito é escrever cartas para pessoas que estão passando por problemas de saúde, ou por qualquer outro tipo de dificuldade. A ideia é transmitir alguma forma de conforto e mensagem de otimismo, resgatando o cuidado e o afeto envolvidos em escrever de próprio punho.
      Quanto ao livro, fico contente que o tenha adquirido! É uma bela lição de vida!! Boa leitura,querida!!
      Bjo grande

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  3. Tarde
    “No céu nuvens da tarde: em blocos e em fumos, brancas que se aclaram, e cinzas que se estendem para o escuro, e anseiam a noite, e se espalham, resfriam, riscam, e ensombrecem um momento de triste paz sobre a terra. E lá fora as estrelas nos esperam, e como rios que não correm, mas esperam, e se ressecam, em luz e em raivas de alta voltagem. Só o céu espera, enquanto as estrelas dormem. A lua é uma asa de tristeza que o tempo partiu e espalhou na vida dos homens. Os rosas são como os raios, nascem rápido e se extinguem ainda mais rápido. Coisas que Cézanne juntou e Van Gogh espalhou, em telas de pano. Sujos de tinta eles respiraram o ar que gira e produz a febre, dos loucos e dos homens tristes como Chopin.”

    Flausplído

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