Citação · Literatura · Livros · Palavras ao vento

O escritor, o mentor, o aspirante

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Moro numa casa onde nunca param de chegar livros novos. Mas não, não é uma casa editorial. É apenas uma casa onde se lê muito. Muito mesmo. Por isso, as encomendas por aqui chegam dia sim, dia também. E bem, nem sempre são novos, algumas vezes são exemplares já esgotados e só encontráveis em sebos. Mas, velhos ou novos, só quem ama muito receber livros pelo correio sabe da alegria que é quando chega o carteiro: a verdadeira happy hour.

Dentre as próximas entregas, há uma especialmente aguardada: o box com três livros de textos inéditos do mestre da crônica no Brasil, o magistral Rubem Braga. Toda essa introdução sobre livros que chegam, portanto, nada mais é senão um pretexto para dizer que todo aquele que escreve, escreve inspirado por suas leituras favoritas. Todo aquele que escreve tem um mentor.

Mentor de aspirante a escritor é, obviamente, um caso à parte se considerarmos a definição dicionarizada para o termo: “pessoa que atua como conselheiro intelectual.” Trata-se de um caso à parte porque, como se vê, um escritor-mentor não precisa _ ou, por razões metafísicas,_ não pode estar fisicamente presente. O escritor, para ser considerado mentor, só precisa ser lido e relido com verdadeira obstinação. E com a mais absoluta devoção.

Rubem Braga é meu mentor. Elegi-o desde o primeiro texto lido. Enterneceu-me que alguém pudesse descrever com tanta graça e sensibilidade o nascimento de um pé de milho. Ou melhor, de descrever o sentimento de ver brotar, crescer e pendoar, no seu “exíguo canteiro”, um “pé de milho sozinho”. “Um pé de milho” foi, pois, o meu primeiro e inesquecível Braga. Depois dele, todos os cronistas me parecem apenas esforçados aspirantes.

É que nesse aspecto, sou categórica: para ser grande é preciso ser inigualável. Por isso, há tão poucos grandes. E eles jamais serão igualáveis entre si. Um grande é um grande e ponto. A sua grandeza reside em ser único, ímpar, absoluto. E só.

Mas se assim é, de que nos serve aspirar ou ter um mentor? Ora, há que se pensar que até mesmo os grandes tiveram lá as suas aspirações. Sem aspiração não há ação, sem ação não há resultados. Serve para qualquer coisa na vida. Até para escrever.

Sendo assim, aspiremos. E que nossas aspirações nos sirvam, se não para sermos também grandes, ao menos para perseverarmos em nossos esforços e contínuos aprendizados. Afinal, como bem nos alenta e nos incentiva outro dos grandes, “talvez seja melhor assim: não ter alcançado o pináculo então, é uma boa razão para continuar subindo. Como um dever que nasce de dentro e porque o sol ainda vai alto.”*

*José Saramago, em excerto colhido na crônica “A minha subida ao Evereste”, em “A bagagem do viajante.”

 

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