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Seleta de Letras: Alberto Manguel

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Quem lê Drummond sabe: “palavra puxa palavra.” Da mesma forma, livro puxa livro. Mas e o que dizer de um livro que puxa vários outros? É o que acontece com “Os livros e os dias” do argentino que se naturalizou canadense, Alberto Manguel. O subtítulo fornece as pistas do que vamos encontrar: “um ano de leituras prazerosas”. Isso porque o autor, ao organizar sua imensa e vasta biblioteca na casa nova, se detém a reler algumas de suas obras prediletas_ uma ao mês, de junho de 2002 a maio de 2003_, e a comentá-las em seu diário. É um belo guia de leitura para quem aprecia conhecer novos autores ou para quem deseja revisitar já velhos conhecidos.

Lendo esse pequeno grande livro, (re)descubro o que em Manguel de “Lendo imagens” e “A cidade das palavras” me pareceu logo uma evidência: há, por detrás do escritor, um leitor incrivelmente apaixonado. Manguel descobriu o prazer de ler (pasmem!) aos três anos de idade, e nunca mais parou. Sua biblioteca particular tem estimados mais de trinta e cinco mil livros! É entretenimento o bastante para toda uma eternidade, mas o leitor voraz que ele é parece não carecer de tanto tempo assim. É que, a bem da verdade, nem todos os livros que lá estão são dignos de sua leitura e qualquer um que tenha livros na estante sabe que “um livro não tem necessariamente que ser lido para cumprir a sua função, basta-lhe poder ser lido, ser leitura em potência”, isto é, a simples possibilidade de o ler consiste em uma “forma secreta de leitura”, como bem observou Manuel Antônio Pina.

Ainda durante a leitura de “Os livros e os dias”, dou-me conta dos livros que ainda desejo ler e daqueles que são imperativos de uma releitura. Dou-me conta também de que há uma pequena e bonita semelhança entre o livro de Manguel e essa seção do blog. É a bem-intencionada tentativa, através de citações, de fazer brotar no leitor desses excertos o desejo pela busca da fonte, do original, da íntegra da obra citada. É a vontade de que esses pequenos fragmentos sejam convite para que se leia mais e melhor, para que a palavra continue a puxar palavra e para que os livros puxem_ com constância e sem cessar_ muitos mais livros.
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Aqui, alguns trechos para “puxarem” as próximas leituras ou releituras de cada um de nós.

“A leitura é uma conversa. […] em muitos momentos ele [o leitor] sentirá a necessidade de pegar um lápis e escrever as respostas nas margens de um texto. Esse comentário, essa glosa, essa sombra que às vezes acompanha nossos livros favoritos, estende e transporta o texto para o interior de um outro tempo e de uma outra experiência; empresta realidade à ilusão de que um livro fala a nós (seus leitores) e nos faz viver.” (pág. 10)

“Talvez, para que um livro nos atraia, ele precise estabelecer, entre a nossa experiência e a da ficção _ entre as duas imaginações, a nossa e a que está impressa_, um vínculo de coincidências.” (pág. 25)

“Borges, quando indagado se acreditava em Deus: “Se a palavra Deus significa um ser que existe fora do tempo, não estou certo de acreditar nele. Mas se significa algo em nós que está do lado da justiça, então sim, acredito mesmo que, a despeito de todos os crimes, há um propósito moral no mundo.” (pág. 45)

“O tempo é circular, dizem esses eventos; depois da morte de alguém converso com outro alguém que se lembra dele, ou que quer saber algo a seu respeito; construímos o muro do jardim com as pedras que caíram do celeiro; o que não lembro mais está ali, em algum lugar, em uma das páginas cuidadosamente numeradas de um de meus livros. E eu, claro, vou desaparecer; o novo muro também vai desmoronar; os livros se dispersarão. Mas aquilo de que todos nós fazemos parte, uma parte pequena que seja, vai continuar, estável sob as estrelas. E, aos olhos de um escultor cinzelando a pedra, o todo ficará tanto mais belo com a nossa ausência.” (pág. 55)

“Sempre escrevo em meus livros. Quando os releio, não consigo imaginar por que julguei certa passagem digna de ser sublinhada, ou o que eu quis dizer com um determinado comentário.” (págs. 65-66)

“Os velhos truísmos ainda valem: que violência gera violência; que todo poder é abusivo; que o fanatismo de qualquer tipo é inimigo da razão; que propaganda é propaganda mesmo quando tem a pretensão de nos mobilizar contra a iniquidade; que a guerra nunca é gloriosa, exceto aos olhos dos vencedores, que acreditam que Deus está do lado dos grandes batalhões. Talvez seja por isso que lemos, e que em momentos de trevas voltamos aos livros: para encontrar palavras para o que já sabemos.” (pág. 69)

“Na porta da minha biblioteca escrevi uma variação da divisa da abadia de Thelême, de Rabelais: LYS CE QUE VOUDRA (‘Leia o que quiser.’)” (pág. 103)

“Em turco, a palavra muhabbet significa ao mesmo tempo “conversa” e “amor”. Para ambos se diz: “fazer muhabbet”. Gosto da ideia da conversa como uma janela para o coração ou a mente de uma pessoa.” (pág. 114)

“[…] a observação de Stevenson: ‘Nossa missão na vida não é ter sucesso, mas continuar a fracassar com a melhor das intenções.’” (pág. 143)

“A fé não deve estar sujeita às provas da razão. A fé não combate a razão; ela simplesmente se afirma criando um lugar vazio para si própria. É nesse vazio, acreditam os místicos, que Deus pode entrar.” (pág. 154)

“Presumimos que o que nos dá prazer deve dar prazer aos outros; na verdade, todos acabamos nos dando conta de que nosso círculo particular de companheiros de leitura, daqueles que compartilham nossos amores íntimos, é muito pequeno.” (pág. 203)

“[…] o grande poeta peruano César Vallejo escreveu em seu caderno de notas: ‘Se, na hora da morte de um homem, toda a compaixão dos outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, esse homem não morreria.” (pág. 207)

“Tenho a impressão de que, ao ler, estou tomando notas, sem saber, para aquilo que um dia vou vivenciar, ou para aquilo que um dia vivenciei mas não fui capaz de compreender.” (pág. 209)

MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

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2 comentários em “Seleta de Letras: Alberto Manguel

  1. Tenha certeza que essa bem intencionada tentativa aqui do “citações” de nos instigar a conhecer um livro, um autor, é frutífera!
    Sinto-me numa ampla sala com muitos livros e uma conversa deliciosa.
    Já anotei mais esta indicação. Beijo!

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