Citação · Literatura · Palavras ao vento

Aprendizagem

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Quem compra um audiolivro é leitor ou ouvinte?

A resposta não é tão óbvia quanto parece. Primeiro, porque é diferente ser um ouvinte de uma conversa, uma palestra, uma celebração religiosa, uma aula. Em todos esses casos, e em muitos outros mais, ouvimos um interlocutor a quem enxergamos, a quem vemos no momento mesmo em que o escutamos. E ter um interlocutor fisicamente presente “ancora” o texto falado, dá literalmente um corpo para as palavras, dá-nos para onde olhar.

Em segundo lugar, leitor que é leitor é meio maníaco: precisa sublinhar, fazer marcações, anotar, desenhar, deixar sua própria marca no objeto livro. Faz parte da experiência literária tocar, folhear, cheirar, manusear o livro-papel como quem adula um animalzinho de estimação: com carinho e paixão. Além disso, quando você é quem lê, você é quem manda: no ritmo da leitura, na entonação de voz das personagens, na cadência das frases, no grau de eloquência, na duração das pausas, na vida propriamente dita do texto. E não é que você o faça em voz alta, de forma alguma. É seu leitor interior, já há muito treinado e habituado, quem está no comando, conduzindo simultaneamente a narrativa e os pensamentos.

Logo que dei o play para ouvir os contos narrados em “Dias raros”, me senti desamparada. Não sabia o que fazer com os sentidos restantes. Não, eu não era “toda ouvidos”. O que fazer, então, para sê-lo? Fechar os olhos? Me parecia um tanto quanto artificial. Olhar pela janela? Correria o risco da distração. Olhar para um ponto fixo? Entraria em estado de meditação. Faltava-me a palavra impressa para que o olho acompanhasse, através do papel, a voz ouvida. E percorresse a narrativa como duas crianças que atravessam uma rua de mãos dadas.

Fiz inúmeras tentativas. Mudei de posição no sofá. Desliguei o CD player. Dei uma volta. Voltei a ligar. Fechei os olhos. Cochilei. Perdi a história e a paciência. Então, decidi: não estou preparada para o audiolivro. Carrascoza e o grupo Teatro da Travessia que me perdoem, mas o livro físico é fundamental.

Enfim, “urdida, a manta da vida é irredutível ao novelo original”*, o que também significa que toda experiência, de alguma forma, nos modifica. Por isso quando, depois de meses passados, voltei aos dois CDs da Livro Falante determinada a ouvi-los sem interrupção, não era a Carrascoza nem ao grupo Teatro da Travessia que eu dava uma nova chance. Era ao ouvinte que eu precisava aprender a ser.


*Citação colhida no conto  “O milionário”, de Miguel Torga.

 

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5 comentários em “Aprendizagem

  1. Um desfecho de texto totalmente diferente do que imaginei durante a leitura hahaha adorei. Ainda não tive essa experiência, mas depois desse texto, vou ouvir com mais ênfase ao ouvinte que eu posso ser. Abraços.

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