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Como pode? (ou: Poesia todo dia)

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Dia desses alguém me agradeceu por eu haver observado os cuidados alheios. E eu me pergunto: como pode alguém NÃO reparar? Como pode alguém ver e não enxergar? Há tanta luz, beleza e poesia pelo mundo. Como pode ser que haja quem não as veja? Eu busco desesperadamente a beleza em tudo o que há. Porque a beleza nos salva, nos consola, nos sensibiliza. A beleza justifica a própria vida. “A beleza, só a beleza, resgata a miséria humana”, já disse o autor consagrado. Como então não ver os “cuidados alheios” na mesa posta, na foto bem tirada, no vaso com flores, na palavra delicadamente endereçada, na mão que se estende, na vida acontecendo?

Eu vejo sempre muita beleza é na linguagem. Nas palavras que nomeiam o mundo ou os sentimentos. Nas palavras que têm melodia: pirilampo, aduana, alfazema. Nas palavras que inspiram doçura: açucena, cintilante, Cozumel. Nas palavras que engendram curiosidade: parlapatice, miríade, Maputo. Assim mesmo, desassociadas de seu sentido e significado, gosto é da sonoridade das palavras. Mas se elas vêm revestidas da linguagem poética, engendrando sentidos e significados inalcançáveis pelos dicionários, aí sim: é a glória suprema da criação humana. Pois que só o ser humano é capaz de criar, de fabricar, de produzir beleza e estesia com matéria imaterial: a palavra. Só o ser humano é capaz desta tamanha compreensão: palavra é lugar sem limites.

E por falar em compreender, também compreendi, depois daquele agradecimento, que meu olho é treinado. Como um cão, ele fareja a beleza até encontrar. E, acostumado que está, sabe que o encontro é tão certo e preciso como uma soma matemática. Ao encontrar, abana o rabo em sinal de felicidade, o que faz o olho chorar de alegria ou lacrimejar de emoção. Ah, sim, é que_ como é que pode?_ a beleza também comove.
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À BELEZA
Miguel Torga
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

 

 

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3 comentários em “Como pode? (ou: Poesia todo dia)

  1. Cris, suas palavrinhas me tocaram. Me apalparam. E me reconheceram. Raras e belas: cintilante, miríade, pirilampo, Maputo, Cozumel, açucena, aduana, parlapatice, alfazema. Percebeu nas palavras? Percebeu as misturas de texturas, de luzes e de sabores? De distâncias, de olfatísmos, de saudades? Palavras imploram ser vistas, exibidas, tocadas, dadas… Dá gosto fazer malabarismo com elas!

    Anoitece

    E um pirilampo
    Namora minha açucena

    De Maputo a Cozumel
    Veio o inseto cintilante

    Trouxe parlapatice e alfazema
    Nem passou pela aduana

    Vê o que faz um coração que ama?

    Curtir

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