Citação · Literatura · Livros · Palavras ao vento

O memorável e o inesquecível

1458651132051-01

A cena de sexo aos primeiros minutos do filme “Um copo de cólera” é memorável. E o que a torna memorável não é propriamente a cena em si, mas a perfeita sincronia do casal protagonista, representado pelos atores_ à época casados na vida dita real_ Alexandre Borges e Júlia Lemmertz. Há uma fina sintonia nos olhares, nos gestos, no entrelaçamento dos corpos. Há, de fato, aquilo que popularmente costumamos chamar de “química”. Simplesmente rolou. Simplesmente memorável.

Tão memorável que, passados quase vinte anos do lançamento do filme e mais de 35 anos da apresentação do livro ao público, a obra volta à cena pela indicação de Raduan Nassar ao prêmio literário Man Booker International, cuja revelação acontecerá no dia 16 de maio. “Um copo de cólera” é o livro, portanto, que suscitou a produção cinematográfica de mesmo nome.

Apesar de homônimos, que fiquem bem guardadas as diferenças entre o filme e o livro, como há de ser toda vez que se transpõem para a grande tela as páginas de uma obra literária. Filme e livro são modalidades de expressão totalmente distintas entre si. E merecem ser apreciados cada qual segundo seus próprios processos e potenciais criativos. Cada qual no seu quadrado.

Dito isso, ponho-me à vontade para jogar confetes sobre a obra em sua versão literária. É que, como leitor aficionado, parece-me natural que o texto escrito se sobreponha em qualidade e inventividade sobre a imagem em movimento. É como se a palavra fosse mais potente, mais pulsante, mais infinita e potencialmente criadora do que toda e qualquer imagem. Há coisas ditas que são da ordem do que não pode ser representado, projetado, a não ser na tela da imaginação. Nem o mais premiado ator hollywoodiano é capaz de encenar a beleza, a estesia da palavra escrita, contida numa passagem como “[…eu disse] vertendo bílis no sangue das palavras”. “Verter bílis no sangue das palavras” é de uma tal poesia que não se pode (e não se deixa) traduzir. A poesia da palavra não se rende à tradução cinematográfica.

Há, por trás das palavras, uma voltagem inapreensível pelas lentes do cinema ou da televisão. A cólera do copo a transbordar, na narrativa de Raduan, constrói-se num crescendo verborrágico, numa virulência verbal, cujo fio se tece a cada nova palavra. O leitor sente_ ao mesmo tempo em que o sentem os personagens_ a ebulição da cólera, densa e caudalosa como as águas de uma represa a rebentar. Eis o maravilhamento da literatura: as palavras podem tudo.

Por isso, uma cena do cinema pode ser mesmo memorável. Mas uma cena descrita no vórtice da palavra é simplesmente inesquecível.

“[…] e eu confesso que de novo me tremeram as pernas, vi o Bingo [o cão], naquele preciso instante, cortar numa carreira elétrica o espaço entre mim e ela, esticando _ com seu pelo negro e brilhante_mais um fio na atmosfera, e foi na cola dele que estiquei inda mais a corda dos meus nervos […]” (pág. 54-55).

 

 

 

Anúncios

4 comentários em “O memorável e o inesquecível

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s