Citação · Consueloblog

Além do Bojador

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ALÉM DO BOJADOR*

Cris M. Zanferrari

A mulher ia à minha frente pela calçada quando encontra um conhecido. Cumprimentam-se como se há muito não se vissem e param para conversar. Da cena urbana, rápida, comum e alheia, fica-me uma frase saída da boca feminina: “pois é… acordei pra vida!” Súbita vontade de parar também e ouvir o restante da história. Sigo pelo passeio a imaginar qual a doença, a pessoa, a tragédia ou o dissabor capaz de ter tirado essa senhora que não conheço do automatismo de seu cotidiano.

Acordar para a vida. Eis que navegamos no embalo dos dias, tantas vezes a remar contra a maré, outras tantas a deixar-nos levar pela correnteza, mas quase sempre num estado mareado, entontecido pelos afazeres diários, até o dia em que um tsunami varre nossa praia. Estremece nossos corações, abala nossos alicerces, faz naufragar nossos sonhos. E então, subitamente, acordamos. Porque só um pesadelo carrega consigo o desejo de despertar.

Cheguei a essa dura compreensão depois de ler “Caçadores de bons exemplos.” O título do livro nos antecipa a história de um casal brasileiro, a Iara e o Eduardo, que decidiu abandonar uma vida convencional para pegar a estrada e, literalmente, caçar bons exemplos. Eles percorreram o Brasil de norte a sul, conhecendo gente e registrando as boas ações e projetos que testemunharam pelo país afora. Impressionam os números da solidariedade, do voluntariado, de gente semeando o bem. Mas impressiona também saber que muitos e muitos dos projetos que hoje amparam crianças e jovens, que protegem a natureza e os animais, ou que promovem a inclusão social de deficientes, são frutos colhidos a partir de uma história de dor. A perda trágica de um familiar ou uma doença grave, por exemplo, encontram-se enraizados em grande parte das iniciativas de ajuda ao próximo. A dor, mais do que o amor, é o que move as pessoas em direção umas das outras. A dor nos humaniza. Acorda-nos. Desperta-nos. E redireciona o nosso olhar.

E que não se subestimem as dores da vida. Não apenas catástrofes e tragédias promovem mudanças, ainda que estas as promovam em mais larga escala. Na verdade, toda e qualquer dor nos desacomoda, nos desorienta. Uma dor de cabeça pode irritar e sabotar o dia. A dor de se separar do filho pequeno à porta da escola pode fazer chorar. A dor de não passar no sonhado concurso pode levar à depressão. Não, não há vida sem dor. A dor de ter de fazer escolhas. A dor da solidão. A dor de não ser compreendido, de ser diferente. A dor de ver sofrer quem se ama. Há dor, há dores. A dor existencial. As dores da alma, as do corpo, as da psique, as do amor. Há dores de todos os tipos. E que fique bem claro: toda dor é legítima. E quando dói, dói sem tamanho.

Fosse a dor uma pessoa, seria uma matrona, agigantada pelos anos, confortavelmente sentada em uma cadeira de balanço na varanda da casa a esperar unicamente: que o tempo passe. Sim, porque cada dor tem seu tempo. Há que suportá-la, vivenciá-la, no período que lhe cabe. Há que reverenciá-la, porque sabemos: a dor remove o véu que nos encobre os olhos. Sem o véu, passamos a enxergar. Enxergamos tudo aquilo que _sem a dor_ continuaríamos ignorando. Desconhecendo. Despercebendo.

Quanto à mulher na calçada, pode até ser que tenha acordado pra vida sem um pingo de dor. Mas tenho lá minhas dúvidas. Aprendi, com a vida e a literatura, que “Quem quer passar além do Bojador, tem de passar além da dor”. De preferência, com os olhos bem abertos.

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*O Cabo Bojador [mencionado nos versos de Fernando Pessoa] foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa, porque abriu caminhos para novos descobrimentos. Ao passar o Cabo Bojador, os navegadores portugueses entraram em mares até então desconhecidos.

Para conhecer mais sobre o projeto dos Caçadores de Bons Exemplos, visite o site: http://www.cacadoresdebonsexemplos.com.br .

 

 

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