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Seleta de Letras: G.K. Chesterton

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Viver é correr riscos. De menos a mais, tudo é um contínuo arriscar-se. Por isso, sem querer dramatizar (mas o que seria da vida sem um pouco de drama, afinal?), o risco que corro aqui, se não é dos mais graves, é no mínimo melindroso. É que a cada vez que faço uma “Seleta de Letras” é como se usurpasse ao autor o direito maior que lhe cabe: o de não ser descontextualizado. Ao pinçar, aqui e ali, os enunciados que considero mais significativos, ou poéticos, ou polêmicos, ou seja lá o que for, é como se privasse a uma parturiente de ver crescer suas crias. Sim, porque escrever um texto é dá-lo à luz. À luz do entendimento de que tudo nele está entrelaçado, interligado, entretecido, e que roubar-lhe uma ou duas frases é correr o risco de desfalcar-lhe o sentido, a essência. É correr o risco de atribuir-lhe ainda outro sentido, tão distante daquele pretendido pelo autor, que o próprio autor, ao encontrá-lo fora de seu contexto original, o desconhece. Descontextualizado, o enunciado passa a ser de uma orfandade irremediável.

Ainda assim, corro esse risco: coleciono e compartilho trechos de minhas leituras prediletas. Sempre na esperança de que o leitor se enamore, de uma palavra ou de uma frase, de uma forma tal que deseje conduzi-la de volta à fonte. Que deseje conhecer-lhe o pai ou a mãe, isto é, a autoria. Que deseje restituir, pois, a cria ao criador.

A “Seleta de Letras”, correndo o risco da superficialidade ou da deturpação de um pensamento, tem em seu bojo uma iniciativa mais nobre: seduzir o leitor para a leitura da obra. E se digo isso a título de esclarecer essa seção, digo de forma ainda mais assertiva ao falar de G.K. Chesterton. É que a genialidade desse autor só pode ser (re)conhecida quando se lê um texto seu na íntegra. É preciso acompanhar-lhe o raciocínio todo, o encadeamento narrativo, a complexidade de sua argumentação, para compreender a força de seu pensamento.

Consideradas todas as coisas, que a seleta dos excertos hoje compartilhados seja, sobretudo, um convite, um chamamento, um imperativo para a leitura da obra de Chesterton. Sob pena e risco de se abdicar do proveito que uma tal leitura nos pode trazer: o de tirarmos a poeira do cotidiano para melhor enxergá-lo.

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A falácia do sucesso

“[…] não há algo como o sucesso. Ou, se preferir, não há nada que não seja bem-sucedido. Dizer que uma coisa é bem-sucedida significa simplesmente dizer que essa coisa existe; um milionário é bem-sucedido em ser um milionário e um burro em ser um burro.” (pág. 37)

“Mesmo assim, nosso mundo moderno está cheio de livros sobre Sucesso e pessoas bem-sucedidas, sem literalmente nenhum tipo de ideia, e dificilmente qualquer tipo de concordância verbal.” (pág. 38)

“Em nossa sociedade, a temperança não ajudará um homem a enriquecer, mas pode ajudá-lo a se respeitar. Um bom trabalho não o tornará um homem rico, mas pode torná-lo um bom trabalhador.” (pág. 43)

Sobre correr atrás do próprio chapéu

“[…] a maioria das inconveniências que faz os homens praguejarem ou as mulheres chorarem são na realidade sentimentais ou imaginárias _ coisas da mente, em geral.” (pág. 46)

“Há uma ideia de que é humilhante correr atrás do chapéu; e quando as pessoas dizem que é humilhante, querem dizer que é cômico. Certamente é cômico; mas o homem é uma criatura muito cômica, e a maioria das coisas que faz são cômicas _ comer, por exemplo. E as coisas mais cômicas de todas são exatamente aquelas que mais valem à pena fazer _ como namorar. Um homem correndo atrás de um chapéu não é nem de longe tão ridículo como um homem correndo atrás de uma esposa.” (pág. 47)

“Uma aventura é apenas uma inconveniência considerada do jeito certo. Uma inconveniência é apenas uma aventura considerada do jeito errado.” (pág. 49)

Um ensaio sobre duas cidades

“[…] todos os homens falam por sinais. Falar por estátuas é falar por sinais; falar por cidades é falar por sinais. Pilares, palácios, catedrais, templos, pirâmides são um enorme alfabeto surdo-mudo: como se algum gigante gesticulasse com seus dedos de pedra. As coisas mais importantes de todas são sempre ditas por sinais, mesmo se, como a cruz na Catedral de St. Paul, são sinais no céu. Se os homens não entenderem sinais, nunca entenderão palavras.” (pág. 74)

“[…] o principal objetivo da educação não é aprender coisas; não: o objetivo principal da educação é desaprender coisas. O objetivo da educação é desaprender toda a fadiga e maldade do mundo e retornar àquele estado de liberdade que todos instintivamente celebramos quando preferimos escrever sobre crianças e meninos.” (pág. 74)

O mártir moderno

“[…] alegoria da maior parte do martírio moderno. Consiste geralmente em que um homem acorrenta a si mesmo e depois reclama que não é livre.” (pág. 105)

“Todas as nossas opiniões intelectuais ordinárias valem um pouco de briga:” (pág. 107)

Pensamentos ao redor de Köpenick

“Amar alguma coisa é vê-la imediatamente sob céus tormentosos de perigo.”

O matusalita

“Todo o sentido da literatura está simplesmente em tornar curta uma história longa; é por isso que nossos modernos livros de filosofia nunca são literatura.” (pág. 174)

“O paradoxo da coragem é que um homem deve ser um pouco descuidado de sua vida até mesmo para mantê-la.” (pág. 175-176)

Humanitarismo e força

“Civilização, em seu melhor sentido, significa a plena autoridade do espírito humano sobre tudo o que é externo.” (pág. 197)

Fonte: CHESTERTON, G.K. Considerando todas as coisas. Campinas, SP: Ecclesiae, 2013.

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