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Dos prefácios (ou: pretexto para falar de Miguel Torga)

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Prefácios são, em geral, demasiadamente acadêmicos. Estendem-se em explicações analíticas e tendem a ser, por isso mesmo, monótonos. Alguns chegam mesmo a ser chatos. Mesmo assim, eu os leio. Sim, porque sendo os livros alimento, tudo neles me apetece. Devoro orelhas, prólogos e posfácios, e saboreio o conteúdo com cerimônias de quem guarda o melhor para a sobremesa. E se alguma vantagem há em ser um glutão frente ao banquete que é o livro, a vantagem é haver surpreendentes sabores a anteceder o prato principal. Estou falando de pequenos doces, delicados macarons, ofertados já ao prefácio. Tal como os encontrados nas obras do escritor português Miguel Torga.

Diferentemente de tudo o que já li, Torga ao prefaciar seus próprios livros estabelece uma interlocução com o leitor. Aproxima-se dele. Dirige-se a ele. Trata-o com a intimidade de um amigo. Como a escrever uma carta, dispõe já ao início do texto: “Querido leitor”, e abre-se, assim, a uma conversa. E para dar mostras dessa cúmplice relação que se estabelece entre quem escreve e quem lê, ele assina, ao final, no mais puro espírito de entrega e doação: Teu [Miguel Torga]. Coisa fina, a ser degustada e sorvida com as cerimônias todas.

E para que não fique o leitor com água na boca, a imaginar as delícias desse cardápio literário, compartilho um pequeno trecho do prefácio de Bichos:

Querido leitor:

São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto.
Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de júbilo. Escrevo para ti desde que comecei, sem te lisonjear, evidentemente, mas também sem ser insensível às tuas reações. Fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiras, quer não, do mesmo futuro intemporal.
[…]
Ligados assim para a vida e para a morte, bom foi que o acaso te fizesse gostar destes Bichos. […] Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade. De resto, um conto que te agradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. […]
És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. Saúdo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construído uma barcaça onde a nossa condição se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes, que é, como sabes, um dos cinco rios do inferno, cujas águas bebem as sombras, fazendo-as esquecer o passado.
Teu
Miguel Torga

Prefácios nunca mais serão os mesmos depois dos prefácios de Miguel Torga. O paladar apurou-se, ficou mais exigente, mais refinado. Não se contenta com pouco tempero nem com excesso de sal. Depois de Torga, a ceia só estará completa se contiver, aqui e ali, cuidados e delicadezas de quem serve uma fina refeição ao ser amado. Torga nos conquista do início ao fim de cada livro seu porque tempera, as histórias e a vida, com a essência e a magia da palavra. É um “mago do verbo”, como a ele se referiu o também escritor e amigo pessoal, Cristóvão de Aguiar.

Aliás, se houver ainda quem necessite que lhe abram apetites para a literatura de Torga, saciado estará ao ler o prefácio de Aguiar sobre o poeta e “lavrador das letras”:

“[…] Só em Coimbra, após a guerra colonial, e já numa idade mais amadurecida, me encafuei de tal forma na obra torguiana, que ainda hoje, passados todos estes anos, continuo a frequentá-la com uma assiduidade de devoto que ainda não esfriou a sua fé. Esta paixão deve ter tido origem não só na prosa apurada com que o escritor lavra cada página de cada livro e me fascina pela simplicidade trabalhada até à placenta da palavra, mas também no facto de a ambiência espelhada nos Contos e sobretudo em A Criação do Mundo ser idêntica ou muito semelhante ao pequeno grande mundo da Ilha onde fui nado e criado. […] A (re)leitura dos livros de Miguel Torga invade-me de uma paz rústica, genuíno oásis neste mundo barulhento, e transmuda-se num conchego caldeado de uma ansiedade mansa _ Torga é uma personalidade rebelde e inquieta e reflecte-a como poucos em toda a sua vasta obra. […]”

Abertos os apetites, peço licença ao leitor e trato logo de ir sentando à mesa: quero fartar-me dos livros de Torga. Literatura da boa sempre me apetece, sacia, e revigora. Dias a fio, ficarei a digerir palavras, ideias e histórias exatamente como a obra de Torga requer: “Devagar. Com todas as glândulas da alma a salivar alvoroço.”*

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*Cristóvão de Aguiar, à página 47 do livro que ilustra esta publicação.

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