Citação · Literatura · Livros · Poesia · Prosa

Valter Hugo Mãe (ou: eu sou o que agradece)

1453832593628

Há um poema de Borges que me fascina desde há muito. Toda a carga de sentido que contém não expressa ainda um ínfimo do sentimento que me provoca. Sentimento é matéria do inefável. Do que não pode ser dito ou explicado. Sentimento é imaterial. Antecede a linguagem. Ao ser verbalizado, já não é mais sentimento. É antes uma tentativa_ quase sempre frustrada_ de expressar o que se sente.

Mesmo assim, dizemos. Falamos. Escrevemos. E eis que, então, o inverso também sucede. Materializada a linguagem, passamos a sentir através das palavras. Ou: por causa delas. Por causa do que dizem ou, tanto mais, pela forma como dizem. A essa estética da linguagem, capaz de suscitar sensações e sentimentos, chamo “poesia”.

Por isso é que há autores que tanto nos comovem e emocionam. São autores que nos fazem sentir. E sentir é sempre mais importante que compreender. Sentir ultrapassa as fronteiras de todo entendimento.

Valter Hugo Mãe é desses autores. Sua prosa poética é uma máquina de produzir emoção. Valter fabrica bem mais do que histórias. De sua linguagem inovadora, sensível e artisticamente elaborada, nascem romances e contos com o poder de encantação. Valter fabrica_ com o dom de um artesão_ sonhos, sentimentos, e, sobretudo, aquilo de que mais necessitamos: esperança.

Em seu livro mais recente, há um conto que me comove em especial. Por que comove não sei dizer. Também a comoção é um sentimento, e por isso, inexplicável. Talvez tenha a ver com a forma como lidamos com as impossibilidades. Com as frustrações. Com os mecanismos que aprendemos a criar para nos defender. Ou talvez seja, simplesmente, porque há na história qualquer coisa que tem a ver com ela, a esperança.

“Modo de amar” fala de um menino que sonhava ter um bichinho de estimação. A mãe era a depositária desse sonho. Dela, ele esperava o aceite, o “sim” que o autorizasse a cultivar esse afeto por um animalzinho qualquer: um cão, um gato, um peixe, um passarinho. Mas a mãe_ talvez a querer poupar-se a si mesma do trabalho de uma tal criaturinha, ou talvez a querer poupar o filho de futuras dores e perdas_ o demovia de seus reiterados desejos: “Os bichos todos trincam, meu filho. São um perigo.” Mas suas palavras, embora lhe negassem o direito de ser criança com um animal para amar, não lhe trincavam o sonho. E assim foi que o menino passou a ouvir, consigo, noite e dia, um pássaro sempre a cantar. À mãe, o menino explicou: “Quem se vê proibido de amar inventa outra realidade, uma realidade melhor, ainda que seja por fantasia. Vivo na fantasia, mãe.” Era isso: “Tinha um pássaro no coração.” E sabia que “Era, assim mesmo, o lugar mais decente para aprisionar um animal de estimação.”

Haver tanta beleza e poesia a povoar os livros de Mãe, é algo que me comove e me cala. Fico incapaz para as palavras: sou pura sensação, sentimento, e reverência. Diante da beleza, alguém pode mais do que isso?

Sejamos, pois, gratos aos escritores-poetas. Que com suas obras de estonteante beleza nos comovem, nos melhoram, e nos salvam. Sejamos gratos como os justos do poema de Borges. Do poema, aliás, tomo emprestado apenas um verso. E a parafraseá-lo, digo: eu sou o que agradece que na terra haja Valter Hugo Mãe. Pelo tanto que ele, com sua literatura, nos salva. Pois que fabricar a esperança é também uma forma de salvar o mundo.

———————————————————————-
Os Justos

Jorge Luis Borges

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez nem lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de um certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.

Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

———————————————————————-

1454028352361-1
Mãe, Valter Hugo. Contos de cães e maus lobos. Portugal: Porto Editora, 2015.

 

Anúncios

6 comentários em “Valter Hugo Mãe (ou: eu sou o que agradece)

  1. A sua escrita é transparente, sentimos através dela todo seu amor e fascínio pelas palavras e seus significados…partilhar, é uma linda palavra… que lhe cabe muito bem. Obrigada!
    Cássia Stein

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s