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Seleta de Letras: Virginia Woolf

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Conheço quase nada de Virginia Woolf. Iniciei, abandonei, reiniciei a leitura de “As ondas” e, ao contrário do que acontece com as marés, não fluiu. Talvez ainda não esteja preparada para a estação das águas da romancista. Talvez tenha que regressar à obra como um marinheiro ao porto: com histórias para contar. Com mais vida vivida. Sim, porque obras há que só se degustam com o paladar maduro, seja o literário ou o existencial. Quase sempre andam juntos, porque um é o sal e o outro a medida.

Pois bem. Mas se da Virginia dos contos e romances (ainda) não sei dizer, da ensaísta me ficaram algumas anotações e outros tantos grifos. Nos 28 ensaios que compõem “O valor do riso”, a célebre escritora inglesa desfia o emaranhado de seus pensamentos acerca de temas diversos entre si, mas sobretudo acerca daquilo que é de seu mais absoluto domínio: a literatura.

Virginia não só escreveu, mas leu em abundância. Por isso, os ensaios revelam muito mais do que um ponto de vista sobre uma obra ou um autor; revelam seu profundo conhecimento sobre o que é e como se faz ficção, biografia, romance, ou poesia. Pungente é sua voz quando fala de mulheres e literatura, de mulheres na literatura, de mulheres a produzir literatura. Em “Mulheres e ficção”, Virginia tece um panorama histórico sobre a escassez de mulheres escritoras, sobre as dificuldades por elas enfrentadas, e sobre como esse cenário começa a dar sinais de mudança. Ao final, chega mesmo a vaticinar: “[…] as mulheres do futuro escreverão menos, mas melhores romances; e não apenas romances, mas também poesia e crítica e história. Ao dizer isso, por certo olhamos à frente, para aquela era de ouro e talvez fabulosa em que as mulheres terão o que por tanto tempo lhes foi negado _ tempo livre e dinheiro e um quarto só para si.”

Impossível ler os textos de Virginia com uma televisão ligada ou uma música tocando. A complexidade de seus enunciados_ o que vale dizer: de seu pensamento_ requer uma leitura concentrada e uma disposição a não simplesmente se deixar levar pela fluidez do texto, mas a se assegurar de parar à margem para, devidamente, observar-lhe as pausas. É que as pausas, conforme nos adverte Leonardo Fróes ao prefácio do livro, funcionam como convites ao diálogo entre o leitor e a escrita diante de si. Aliás, a interrogação é mola propulsora que, questionando-se a si mesma a escritora, acaba por questionar também ao leitor, conforme se lê textualmente no ensaio intitulado “Por quê?”: “Devo explicar que, como tanta gente hoje em dia, sou atormentada por perguntas.”

E a derivar de perguntas, “Como se deve ler um livro?” calha ser o ensaio escolhido para a Seleta de Letras de hoje.

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Como se deve ler um livro?

“[…] o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões.” (pág. 164)

“[…] a característica mais importante que um leitor pode ter, sua independência.” (pág.164)

“É bem simples dizer que, já que os livros têm classe _ ficção, biografia, poesia_, deveríamos separá-los e tirar de cada um o que é certo que cada um nos dê. Poucas porém são as pessoas que aos livros pedem o que os livros são capazes de dar.” (pág.165)

“Todas as literaturas, à medida que envelhecem, têm seus montes de entulho, seu repertório de momentos desfeitos e vidas esquecidas narrados numa linguagem vacilante e fraca que já pereceu. Mas, caso se dê ao prazer de ler do entulho, você será surpreendido e acabará por submeter-se mesmo às relíquias de vida humana vazadas fora do molde.” (pág.172)

“[…] os fatos são uma forma de ficção muito inferior. Cresce pois em nós o desejo de dizer basta aos meios-termos e aproximações; de cessar de ir à cata das sombras diminutas do caráter humano para desfrutar da abstração maior, da verdade mais pura da ficção. E assim criamos esse estado de espírito, intenso e generalizado, que ignora os detalhes, mas é marcado por uma batida regular recorrente cuja natural expressão é a poesia; e é quando já somos nós mesmos quase capazes de escrevê-la que está na hora de ler poesia.” (pág.174)

“Deixe que a poeira da leitura se assente; que o conflito e o questionamento se aquietem; caminhe, converse, tire as pétalas secas de uma rosa, ou então durma. De repente, sem que o queiramos, pois é assim que a Natureza empreende essas transições, o livro irá retornar, mas de outro modo, flutuando até o topo da mente como um todo. E o livro como um todo difere do livro recebido comumente em frases soltas.” (pág. 178)

“Sejamos pois, em nossos julgamentos, severos; comparemos cada livro com o maior de sua espécie.” (pág. 179)

“[…] há sempre um demônio em nós que murmura: “Eu odeio, eu amo”, e não temos como silenciá-lo. […] é o nosso gosto, o nervo sensorial que através de nós transmite choques, o que ainda assim mais nos ilumina; é pelo sentir que aprendemos; não podemos suprimir nossa própria idiossincrasia sem empobrecê-lo. Porém, com a passagem do tempo, talvez possamos educar nosso gosto; talvez possamos levá-lo a submeter-se a certo controle. Desde que ele tenha se nutrido ávida e profundamente de livros de todo tipo _ poesia, ficção, história, biografia_ e que, parando de ler, tenha buscado por longos intervalos a diversidade, a incongruência do mundo vivo, constataremos que está mudando um pouco; já não é tão ávido e é mais reflexivo. […] Ganharemos, feita essa distinção, um prazer adicional e mais raro.” (págs. 180-181)

“Se por trás da errática fuzilaria da imprensa o autor sentisse que havia um outro tipo de crítica, a opinião de pessoas lendo por amor à leitura, lenta e não profissionalmente, e julgando com grande compreensão, porém com grande severidade, a qualidade de seu trabalho não poderia melhorar com isso?” (pág.183)

“Mas quem lê tendo em vista um fim, por mais desejável que ele seja? Não há certas atividades que exercemos por serem boas em si, certos prazeres que são definitivos? E o nosso não está entre eles? Eu pelo menos já sonhei às vezes que, quando raiar o dia do Juízo Final e os grandes conquistadores e juristas e estadistas vierem receber suas recompensas _ suas coroas, seus lauréis, seus nomes indelevelmente gravados em mármore imperecível_, o Todo-Poderoso há de se virar para São Pedro e dizer, não sem certa inveja, quando vir que chegamos sobraçando livros: “Esses aí, olhe só, não precisam de recompensa. Não temos nada para dar-lhes aqui. Eles adoravam ler.” (pág.183)

Fonte: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios. 1.ed. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

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