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Poesia todo dia

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A INVENÇÃO DE UM MODO

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: “Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.”
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e na Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

Fonte: PRADO, Adélia. Poesia Reunida. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.
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2 comentários em “Poesia todo dia

  1. Cris, que riqueza de sentidos que Adélia Prado nos faz sentir. A cada verso, um mundo de coisas nos vêm. Lida de uma vez, parece algo simples de se ler, mas, ao voltar no primeiro verso e vagar e respirar junto a cada um, uma vastidão nos inunda e quase falta o ar.
    Beijos

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