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Orelhas que falam (ou: da apresentação de um livro)

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É fato que quase ninguém lê, ou costuma ler, a dita “orelha” de um livro. Trata-se daquela dobra da capa que, em geral, contém as impressões de um outro autor, que não o autor do livro, sobre a obra. Costumam ser elogiosas, obviamente. Mas não só. A tal orelha, muitas vezes, faz ouvir uma voz num tom acima de uma mera nota de apresentação. Faz ouvir um chamamento, um canto de sereia que enfeitiça e conduz para dentro do universo do livro.

Vezes há em que há tanta poesia e delicadeza a adornarem a orelha do livro, que se poderia dizer dela: é um brinco! Vezes há em que as palavras ditas na orelha do livro jogam luzes sobre o corpo do texto e o iluminam, ou funcionam como mapas para que não se percam as direções e os sentidos a que o leitor pode chegar.

Nessas orelhas que falam, tenho encontrado_ e nem tão raras vezes_ verdadeiras pérolas a seduzirem para a leitura da obra que guardam. Tal qual uma concha, suas palavras deixam entrever preciosidades, aguçam paladares, exalam mistérios e profundidades. Preparam os sentidos todos para o banquete literário a ser servido.

Numa dessas vezes, encontrei Carpinejar lapidando palavras para ofertar um tesouro: o livro “1”, de Gonçalo Tavares. Noutra vez, vislumbrei um quase “manoelês” na linguagem de Ana Miranda a falar da poesia de Manoel de Barros. Noutra ainda, Luiz Ruffato pôs-se ao pé do ouvido (ou melhor seria dizer: da orelha) para antecipar pequenos trechos de contos de “Duas Tardes” e prometer ao leitor o que Carrascoza de fato nos entrega ao longo dos textos: verdadeiros momentos de epifania.

Sim, eu sei que boas obras dispensam apresentação. Mas também sei que se um bom livro é uma ceia cuidadosamente preparada para o mais exigente dos leitores, uma boa apresentação é uma entrada, um appetizer preparado com igual requinte e habilidade. E, por sua vez, também pleno de sabor. Capaz de despertar uma fome ainda maior.

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O texto a seguir, escrito por Luiz Ruffato, reveste as orelhas do livro “Duas Tardes”, de João Anzanello Carrascoza, editado pela Boitempo, em 2002:

“Comecemos eruditos.

Epifania (do grego epipháneia, “aparição”) é um termo da teologia usado para descrever a aparição de Jesus Cristo aos gentios ou, por extensão, uma manifestação divina qualquer.

Menos usualmente, podemos (podemos?) entender esse conceito como aquele instante mágico em que algo nos ilumina, modificando a substância de nossas vidas, mesmo que só venhamos a ter consciência disso muito tarde.

Em “Visitas”, um dos contos desta coletânea, um casal de classe média, bem posto na vida e feliz, recebe outro casal, igualmente bem posto na vida e feliz _ uma filha, cada _ , para um almoço. Acomodados na sala de estar, a história se desenrola em conversas banais, observações banais, diálogos banais. Então, os homens vão à garagem ver o carro novo do anfitrião; as mulheres, ao quintal, conhecer o canteiro de hortelã, erva-cidreira, salsinha e manjericão; as meninas permanecem brincando do lado de fora da casa. Nesse momento, João Anzanello Carrascoza mostra porque é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Ele passa a descrever os vestígios de vida que há ali, bolsas e chaves dos visitantes, os brinquedos da menina espalhados pelos cantos, as migalhas de comida na toalha, o cheiro de cigarro…o silêncio…as sombras…a lembrar que, para além daquela pequena felicidade, há, pairando sobre tudo, o tempo, implacável, nos empurrando para a morte.

Disso é feita a escrita de Carrascoza, de poesia que se quer silêncio, de miudezas que constroem o cotidiano, de melancolia, de lirismo.

Gosto demais da sua sensibilidade aguçada, que nos faz, em “O menino e o pião”, que abre o volume, antecipar, numa frase, toda a tragédia da nossa finitude. O menino roda o pião e “nem nota que o pai para no corredor às escuras e de lá o contempla, girando outro pião dentro dele. O menino não cogita que um dia esse cordel se partirá.” Ou, como em “Preto-e-branco”, que fecha a coletânea, onde constata, após relembrar a alegria dos sábados passados junto ao avô, que agora está morto: “inesperadamente vejo brotar dessas linhas um imenso arco-íris. E ao fim dele sei que está meu avô, com a bengala no braço, fumando seu cachimbo, à minha espera.”

Eis o que o espera, caro leitor: epifanias.”

CARRASCOZA, João Anzanello. Duas Tardes e outros encontros silenciosos. 1.ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.

 

 

 

 

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10 comentários em “Orelhas que falam (ou: da apresentação de um livro)

    1. Mariza querida,
      Tenho uma relação visceral com os livros. Assim como você, leio de “cabo a rabo” e não me contento se não puder cheirá-los. Me envergonhava dessa mania (de literalmente enfiar o nariz para dentro das páginas) até assistir a uma entrevista com o adorável Mário Sérgio Cortella e ouvi-lo confessar a mesma coisa…hehehe…
      Obrigada pela presença, amada!!
      Bjo afetuoso

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  1. Ah como eu precisava ler esse seu texto!
    Certa vez, li uma orelha que “entregava” mais do que deveria da história e logo em seguida li o desabafo de uma amiga blogueira que foi veemente em abolir as orelhas de suas leituras!
    Acabei por fazer o mesmo durante muito tempo. Seu texto foi uma redenção!
    Beijo!

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