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Ver e Ouvir João Anzanello Carrascoza

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A cada dia me convenço mais de que a verdadeira literatura tem de conter, na mais trivial das narrativas, pequenas pinceladas de poesia. Toques sutis no arranjo das palavras. Uma coisa qualquer que faça a frase brilhar, reluzir, produzir o encantamento estético e sensorial que é: a explosão poética.

A cada dia me convenço mais de que a verdadeira literatura tem de tratar de temas universais, comuns a todas as gentes. Tem de conversar sobre sonhos, angústias, anseios, medos, alegrias, verdades, mentiras, amores, dores, sofrimento, prazer. Tem de conversar sobre tudo o que diz respeito ao único ser, sobre toda a Terra, capaz de ler: o ser humano.

A cada dia me convenço mais de que a verdadeira literatura é mais do que contar uma história ou fazer rimas. O que faz a literatura ser literatura _ e, por isso, ser bela_ é o como. Como se conta o que se conta. Como se expressa o que se expressa. A maneira como se dá o que se dá_ esse modo de dizer que é único, inigualável, e inatingível de outra forma _ é a verdadeira literatura.

Manoel explicou em versos, no poema “Tributo a J.G.Rosa”: “Passarinho parou de cantar / Essa é apenas uma informação/ Passarinho desapareceu de cantar / Esse é um verso de J.G.Rosa / Desapareceu de cantar é uma graça verbal / Poesia é uma graça verbal.” A verdadeira literatura_ seja um poema, uma crônica, um conto ou um romance_ é, pois, pura graça verbal.

João Anzanello Carrascoza é desses autores que escrevem a verdadeira literatura. Seus textos são repletos de miudezas poéticas, de graça verbal, de epifanias de linguagem. Por trás de cada história, há um congraçamento das palavras como a convidar para um espetáculo da beleza. Há delicadeza e doçura, mesmo quando vai se falar de dor, como, por exemplo, ao início do conto “Fala”:

“ A menina estava na escola, aprendendo a ser o que um dia seria plenamente: ela mesma, maior _ e mais sabida. Era tão alegre que até incomodava. Mas a alegria é assim, ruidosa, mesmo se só a cultivamos nos abafados do coração.
Então, o susto. Estava sozinha em casa. A mãe, nas compras. O pai chegou. Ela correu, feliz, e se pendurou no pescoço dele. Mas, estranhamente, ele não a soltou. Ele se prendeu nela. Por longo tempo. E, depois que se desprendeu, ela se viu como uma boneca quebrada. E aí descobriu que a dor na memória arde mais do que no corpo.
[…]”

A carga emotiva das histórias de Carrascoza é densa, é forte, mas ele a traz à tona com mestria e sensibilidade. Porque Carrascoza é, sobretudo, um leitor da alma humana. E como tal, nos interpreta, nos traduz, nos reflete e nos refrata através do que nos é comum: o universo da palavra.

Com a palavra, para se ver e ouvir: João Anzanello Carrascoza.

 

 

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2 comentários em “Ver e Ouvir João Anzanello Carrascoza

  1. Caderno de um ausente, foi meu primeiro encontro com Carrascoza. Fui arrebatada! Mas a sensação que eu tinha é que aquele brilho nas frases eu já havia lido. Então me lembrei da prateleira de livros infantis, que eu frequento para mim mesma muitas vezes! Lá estava O homem que lia pessoas.
    Eu realmente já conhecia aquela poesia que impregnava uma história.
    Maravilhoso ler Carrascoza aqui. E agora vou então ouví-lo.
    Beijo!

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    1. Sim, Ana, Carrascoza além de tudo é muito “versátil”, transita por áreas as mais diversas. Bem antes de chegar à sua literatura, eu o conheci através dos livros que ele tem sobre redação publicitária. Usei-os muito por ocasião do mestrado. Por isso tudo, sou cada vez mais fã!!
      Obrigada pelas visitas e comentários. Você é uma querida!!
      Bjo grande

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