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Seleta de Letras: Marie Kondo

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Não só de literatura se vive (o que é uma pena), mas também de coisas práticas e imprescindíveis para o bom uso do tempo. E é fato que usamos melhor o tempo quando nossa casa, e nossa vida, se encontram minimamente organizadas.

Sendo o início de ano um momento propício e inspirador para (re) encontrar a ordem acaso perdida, a Seleta de Letras que abre 2016 faz uma concessão e salta das páginas da literatura para as páginas da _ ok, digamos_ “autoajuda”. Sim, porque um livro sobre organização pode, de fato, ajudar. Ajuda a estabelecer uma certa disciplina, uma certa metodologia de arrumação, uma certa forma de (re)pensar o próprio cotidiano. E se ajuda, ajuda. E, afinal de contas, “nenhum livro merece ser diminuído por ter sido útil”.

Eis, portanto, alguns trechos selecionados de “A mágica da arrumação: a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida”, de Marie Kondo.

“[…] quando um cômodo fica desarrumado, a causa é mais do que física. A desorganização visível serve para nos distrair do verdadeira motivo da desordem. Tente descobrir o que o está incomodando. Analise o que você está sentindo.”

“Tirar as coisas do campo de visão cria a ilusão de que a bagunça foi eliminada, mas logo logo os compartimentos voltam a ficar cheios e o quarto fica desorganizado novamente. É por isso que a organização deve ser inciada pelo descarte.”

“[…] o segredo para a organização eficiente e imutável: descartar itens desnecessários e decidir onde guardar o que sobra.”

“Arrumar discretamente o que é seu gera outra mudança interessante: a capacidade de tolerar certo nível de desorganização por parte dos outros.”

“[…] às vezes, quando estou organizando minhas coisas, entro numa comunhão silenciosa comigo mesma.”

“Os cartões que recebemos de Natal, ano-novo e aniversário cumprem sua função no momento em que terminamos de lê-los. Não há necessidade de guardá-los. Demonstre gratidão pela função que desempenharam e deixe-os partir.”

“A verdadeira função de um presente é ser recebido. Presentes não são ‘coisas’ e sim um meio de transmitir o sentimento de alguém. […] Agradeça pela alegria que sentiu quando o ganhou. É evidente que o ideal seria poder usá-lo com satisfação; contudo, a pessoa que deu o presente certamente não ia querer que você o usasse por mera obrigação ou que o deixasse sem uso, sentindo-se mal toda vez que olha para ele.”

“Não devemos celebrar as lembranças, mas sim a pessoa que nos tornamos por causa das experiências que tivemos. Esta é a lição que os objetos de valor emocional nos ensinam quando os organizamos. O espaço em que vivemos deve se adequar à pessoa que somos agora, e não àquela que fomos um dia.”

“Só você pode saber que tipo de ambiente lhe traz bem-estar; o ato de selecionar objetos é extremamente pessoal.”
“[…] a melhor ferramenta de autoconhecimento é a organização de nossas coisas. […] Organizar é um modo de fazer um inventário que nos faz ver aquilo de que realmente gostamos.”

“O ato de descartar aprimora a capacidade de decidir.”

“[…] quando reduzimos o volume de objetos que possuímos e fazemos uma ‘desintoxicação’ na casa, ocorre um efeito ‘detox’ no corpo também. […] Observando meus clientes, verifiquei que, ao se desfazerem do excesso de roupas, perdem volume no abdômen; quando descartam livros e documentos, raciocinam com mais clareza; quando reduzem o número de cosméticos e organizam a bancada da pia, a pele fica mais iluminada e macia. Embora não haja uma base científica para esta teoria, é interessante ver que a parte do corpo que reage corresponde exatamente à área que foi colocada em ordem.”

“Estar rodeado de coisas que dão alegria traz felicidade.”

“[…] colocar a casa em ordem ajudará você a encontrar a missão que realmente toca seu coração.”

FONTE: KONDO, Marie. A mágica da arrumação. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

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E para não dizer que não falei de literatura, e também a justificar a Seleta de Letras no estilo autoajuda, segue a crônica abaixo:

AUTOAJUDA

Martha Medeiros

Estava lendo o divertido Tudo é Tão Simples, de Danuza Leão, quando uma senhora chegou perto, com ar de desprezo, e disse: “Não te imaginava lendo autoajuda”. Pensei em responder que Kafka e Tchekhov também são autoajuda: dos eruditos aos passatempos, todo livro escrito com honestidade ajuda. Se bobear, até mesmo embustes tipo “Como arranjar marido” ou “Como juntar o primeiro milhão antes dos 30 anos” ajudam – quer ilusão, toma ilusão.

O psicanalista Contardo Calligaris certa vez disse numa entrevista que escreve para estimular o leitor a melhorar a qualidade de sua experiência de vida, intensificando-a. E Calligaris realmente consegue esse feito, por isso o leio. Assim como leio e sublinho inúmeras citações do filósofo romeno Cioran, que me ajuda a identificar a miséria humana sob uma ótica extremamente lúcida.

Muito antes de eu descobrir Calligaris e Cioran, tive que descobrir a mim mesma, e Marina Colasanti foi, nesse sentido, minha guia espiritual. Com suas crônicas, abriu minha cabeça para a sociedade que estava se firmando no início dos anos 80, quando as mulheres assumiram um novo papel. Eu não seria a mesma se não tivesse lido seus livros (muitas garotas talvez citem hoje a autora de Comer, Rezar, Amar como divisora de águas em suas vidas – eu também adorei).

Ainda adolescente, Fausto Wolff me deu consciência política, Millôr Fernandes me ensinou a enxergar o reverso do espelho, Verissimo me incentivou a rir de mim mesma, Paulo Leminsky me fez ver que poesia não precisava ser um troço chato e Caio Fernando Abreu me apresentou um mundo sem preconceitos. Seria uma ingrata se dissesse que eles não fizeram nada além de me entreter.

Além desses autores geniais, passei também por livros maçantes que me serviram como ansiolíticos – me ajudaram a pegar no sono. Hermetismo nem sempre é sinônimo de inteligência, profundidade não é privilégio dos deprimidos e mesmo histórias bem escritas podem naufragar se forem pretensiosas.

Michael Cunnigham ajuda a manter minha humildade (nem que eu vivesse 200 anos conseguiria escrever algo minimamente parecido com Ao Anoitecer, que acaba de ser lançado), Cristovam Tezza ajuda a controlar minha inveja (que técnica!) e Dostoievski me ensina que a fúria é mais produtiva quando transformada em arte.

Qualquer tipo de arte, aliás. Música de Autoajuda? Existe. Cazuza, por exemplo, já estimulou minha indignação com o país, Ney Matogrosso me faz sentir sensual, Jorge Ben sempre me alegra e Chico Buarque diversas vezes me comoveu, e ficar comovido é de primeira necessidade.

Existe autoajuda para todos os gostos. Tendo ou não esse propósito, nenhum livro deve ser diminuído por ter sido útil.

Fonte: MEDEIROS, Martha. A graça da coisa. 19.ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013.

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2 comentários em “Seleta de Letras: Marie Kondo

  1. Essa prática de manter o ambiente limpo, começando pelo descarte, é excelente. Na verdade, esse é um trabalho que não para, e até me arrisco a acrescentar que é preciso primeiro arrumar os pensamentos, as ideias…

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    1. Ahhh, é exatamente isso, Ana Régia!! E o inverso também: começa-se por arrumar e organizar a casa e os pensamentos e sentimentos acabam também se organizando. É o princípio do Feng Shui, que aprecio por demais!
      Beijos e obrigada pela visita!!

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