Citação · Literatura · Livros

Viajar

1451243815438
“Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla.”

Viajar é tudo de bom. Mas cansa. Estradas, longas esperas em aeroportos, escalas, conexões, intermináveis horas de voo. Chega-se ao destino, afinal. Chega-se e as pálpebras pesam quando há tanto para se ver. Chega-se e o corpo clama por uma cama. Chega-se, afinal, como ao final de uma maratona: feliz, mas em estado de exaustão.

Acabo por intuir que viagens estão para os viajantes como filhos e netos estão para os pais. Quando temos os filhos ainda pequenos, em crescimento, estamos demasiadamente ocupados com sua criação e educação para poder simplesmente: apreciá-los. Para poder curti-los a seu tempo_ que é, como todo tempo, único. E se não o fazemos, é por uma razão muito simples: estamos, a esse tempo, sempre cansados. Da mesma forma, quando viajamos estamos sujeitos às circunstâncias que vão desde o planejamento da viagem _o que, não raras vezes, é já uma fonte de estresse_ até o último meio de transporte a ser utilizado, passando pelo abominável carregamento de malas. Apreciar as paisagens e o city tour, a essa altura, parece tão difícil quanto manter os olhos abertos durante uma tempestade de areia. Em outras palavras: também para as viagens, enquanto elas acontecem, estamos sempre cansados.

Mas, sendo a vida generosa e benevolente, os pais um dia haverão de se tornar avós. E as viagens haverão de ser _ docemente_ recordadas.

Avós têm permissão para desfrutar da companhia, das alegrias, da infância e adolescência de seus netos, sem as preocupações que desgastam os pais. Avós estão autorizados a mimar, a curtir, a se divertir. Por isso, nunca estão cansados para os filhos de seus filhos.

Viajantes, ao final das viagens, retornam ainda mais cansados. Levarão um certo tempo para se refazer do jet lag, das poucas horas de sono, dos excessos gastronômicos, e até mesmo do dolce far niente. Que também cansa. Voltar à rotina, a esse tempo, terá o doce sabor de um reencontro: a nossa casa, a nossa comida, a nossa cama, o nosso cão, a nossa vida. E então, já refeitos e refestelados no sofá da sala, passaremos a recordar a viagem, a selecionar fotografias, a contabilizar dias felizes e horas proveitosas. Por isso, viajados serão eternos viajantes. Porque se esquecem_ com a mesma facilidade com que se esquecem os avós_ das turbulências e dos cansaços todos.

Porque, sim: viajar cansa. Mas é tudo de bom.

————————————————————-

1451323933582

“Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.”

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa

Anúncios

3 comentários em “Viajar

  1. Cris, viajar sempre foi meu norte, não para viver outras vidas, mas a vida cotidiana mesmo, dos lugares em que estive e, com a graça do bom Deus, estarei. O poeta acertadamente diz “O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Há definição mais precisa e preciosa? Calou fundo em mim. Obrigada Cris, pelo seu lindo texto (tão verdadeiro) e pela poesia. Beijos

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s