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A pretexto

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Vale a visita: http://www.releituras.com

A internet é um mar de apócrifos. Boia nesse mar uma miríade de textos cuja autoria é equivocadamente atribuída a quem não os escreveu. Os leitores mais desavisados _ para não dizer, mas digo, os pseudoleitores_ continuarão a propagar esses textos ad infinitum pelas redes sociais. Ostentam, assim, um conhecimento que obviamente não têm.

É preciso ter lido muito_ muito mesmo_ um determinado autor para que se lhe conheça o estilo. Quem já leu muito Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Caio Fernando, Pablo Neruda, não precisa de muitas linhas para saber se está diante de um texto original ou não. Reconhecer a autenticidade de um texto pressupõe um longo caminho. Um itinerário de leituras de um mesmo autor. É preciso percorrer o mesmo caminho_ o que quer dizer, as mesmas leituras, a releitura_ inúmeras vezes. Até que se memorizem as peculiaridades, os atalhos, os floreios, os meandros, os sertões e as veredas que forjam a singularidade de um escritor. É preciso chegar a um tal grau de intimidade com a escrita de um autor, que nos seja inaceitável calar diante de um apócrifo.

Por isso rasgo_ ah rasgo!_ o véu da inautenticidade tão logo eu me depare com ela. Aviso aos desavisados. Devolvo a autoria ao texto como quem devolve um cão ao seu dono. Não tolero a orfandade textual. Não farei chorar Clarice* ou qualquer dos meus amados escritores. Defendo-lhes a autoria, devolvo-lhes o texto, asseguro-lhes meus cuidados de leitor que só bebe da fonte.

Livros são fontes confiáveis. Por isso, é possível sobreviver ao mar de apócrifos quando, na mesma rede mundial que os abriga, se escolhe navegar em bibliotecas virtuais, em sites oficiais dos escritores, em páginas de Academias de Letras, onde quer que haja, enfim, uma legítima referenciação bibliográfica. Sites assim são mares afeitos às mais seguras navegações, e garantem aos navegadores a tranquilidade de encontrarem o norte com a precisão de uma bússola.

E porque é quase Natal, trago hoje um texto de Martha Medeiros sobre o verdadeiro Papai Noel. Vem de um endereço virtual que frequento já há alguns anos, e se digo “frequento” é porque me sinto, de fato, como se adentrasse um recinto que abriga livros, tal como uma livraria ou biblioteca. Lá estão centenas de textos, devidamente catalogados e referenciados, para uma mais que perfeita incursão ao universo das Letras. Para uma mais que perfeita: releitura.

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* Clarice Lispector teve um sonho que se pode considerar premonitório, se considerarmos a quantidade de textos circulantes na internet, falsamente a ela atribuídos. Disse Clarice: “Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo o meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo.”

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Mamãe Noel

Martha Medeiros

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.

 

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4 comentários em “A pretexto

  1. É cômico para não dizer que é trágico constatar esse evento de apócrifos nas redes sociais. Algumas pessoas ainda comentam “só podia ser de…”, “adoro….”. Confesso que parei de chamar a atenção para o fato de ser falsa autoria.

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