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Ver e Ouvir Hilmar Örn Hilmarsson

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Procuro o sentido da vida. Não este: o filosófico. Mas o filme. Que sim, também filosófico, por que não o dizer. Procuro notícias desse documentário que Miguel Gonçalves Mendes está a produzir já há uma eternidade (ou ao menos, assim me parece). Falta-lhe patrocínio para concluir o projeto. É o que descubro em uma conferência sua para o TEDEx. Descubro também que Hilmar Örn Hilmarsson, músico islandês a quem Valter Hugo Mãe dedica “A desumanização”, é um dos protagonistas do filme.

E vou descobrindo, maravilhada, a música de Hilmar. Não sei descrevê-la. É por demais etérea. Sublime. Sensorial.

Mas ‘O sentido da vida’ me leva também a um outro Hilmar. Um Hilmar recitando Álvaro de Campos. Na voz do músico, na sua música, revisito o poema. Ressignifico o poema. E, de súbito, ressignifico _ agora sim_ o próprio sentido da vida.

LISBON REVISITED
(1923)

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)_
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da
Técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul _ o mesmo da minha infância_
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca
tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar
sozinho.

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2 comentários em “Ver e Ouvir Hilmar Örn Hilmarsson

  1. Cris, o documentário que levou-te à música, que levou-te à poesia, deve ser sublime, assim que concluído. Ele já existe em ti, existe em mim, em tantos significados e sons, aurora boreal ao fundo, sobem os letreiros. Obrigada por me apresentar o som da distante Islândia, viajei pra lá, pro Tejo, com muito gosto!!
    Beijos querida

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    1. Marina querida,

      Estou à espera desse documentário desde que o Mãe postou alguma coisa sobre as filmagens na Islândia. Mas como você bem disse, ele já está em nós!
      Fico feliz que também tenha apreciado Hilmar e sua música! É tão boa essa proximidade que estabelecemos uns com os outros pelas artes, afinal!
      Bjo grande

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