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As mortes de Carpinejar

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Carpinejar exercita morrer. Parece até manchete jornalística, mas é só uma constatação. Que me vem da leitura de seu mais recente livro, “Todas as mulheres”. Que me vem dessa leitura somada à leitura de seu “Terceiro sede”. Ambos são livros de poesia. Fina poesia.

Na obra recém-lançada, o poeta imagina-se morto, e pergunta reiteradamente: “Quem será a minha viúva?” Na obra de 2001, Fabrício Carpinejar imagina-se velho, ele próprio o viúvo. Exercícios, portanto, da imaginação poética de quem se antecipa à própria vida. Da vida com seus amores, memórias e dores. Será a dor imaginada menos dor que a dor deveras vivida? Não creio. Não o crê o poeta: “Aqui nada é real. Mas o que é real?/ A literatura ou o que escapa da escrita?”

Ao poeta, como a todo artista, é lícito viver muitas vidas em uma. E ao fazê-lo, permite que também nós o façamos. Por intermédio de sua obra, também nós nos vemos velhos, mortos, chorados ou a chorar. Também nós exercitamos morrer. Também nós exercitamos viver.

Ler a poesia de Carpinejar faz doer a alma. Faz entrar em transe. Desprepara sentimentos. Desnorteia a emoção. Ler a poesia de Carpinejar é enternecer-se de humanidades.

“Quem será a minha viúva?”, pergunta o poeta a costurar curiosidades.

Somos nós as tuas viúvas.
As que te leram com arroubos de um primeiro amor.
As que te leram da única forma possível: com profunda devoção.
Seremos sempre nós.
Incuráveis da viuvez.
Incuráveis da tua voz.
Da tua poesia.
Da fina poesia tua.

————————————————————

“Quem será a minha viúva?

Quem, dentre todas as que me amaram, realmente

[me guarda intacto?

Quem não mentiu seu amor, não desistiu de mim

[desfeito o trato?

Quem é o cristal no meio das garrafas lascadas e

[anjos caídos?

A que está perto do caixão ou a dissimulada do

[fundo da sala,

que pintou as unhas das mãos e dos pés para

[minha morte?

A que segura a argola do féretro como se fosse seu

[bracelete

ou a férrea e orgulhosa, que nem veio se despedir?”

Fabrício Carpinejar, no poema de abertura de seu mais recente livro: “Todas as mulheres.”

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7 comentários em “As mortes de Carpinejar

  1. Como não amar Carpinejar?
    Ele deveria ler este texto seu.. Tenho certeza que o próprio se emocionaria ao ler palavras tão tocantes a seu respeito..
    Entro de vez em quando e sempre me surpreendo com esses textos tão belos!!
    Pena que são poucas as vezes em que temos tempo de deixar um comentário afetuoso.. 🙂
    Parabéns pelo blog, mais uma vez!
    Bjs

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    1. Clara querida,

      Eu certamente ficaria muito lisonjeada se ele chegasse a ler o texto!
      Mas já me considero feliz por haver quem, como você, leia o blog e retorne!
      Muito obrigada por suas queridas palavras, e volte sempre, tá?
      Beijo grande

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