Citação · Literatura · Palavra de escritor

Palavra de Clarice Lispector

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Voltei a ler Clarice Lispector. Digo voltei porque há tempos não a lia. É que certos autores demandam do leitor algum distanciamento, um como que afastamento por completo, para que sobrevenha_ após essa voluntária abstinência_ uma certa saudade, algo assim como uma falta de. Certos autores são por demais profundos e podem nos deixar num estado assim, digamos, melancólico. Reflexivo. Meditativo. Se é bom? É. Mas cansa, exaure.

Exauridos, precisamos nos afastar. Buscar amenidades, distração, algum entretenimento. Buscar outras formas de linguagem e pensamento. Distanciar-se para melhor retornar. Para melhor absorver. Para verdadeiramente: desejar o retorno.

Clarice é dessas autoras que nos exigem. Não é sem algum esforço que a lemos. Não é jamais sem o íntimo e expresso desejo de lê-la. Sim, há que se desejar ler Clarice. Porque só o desejo nos demove de nós mesmos. E, afinal, é preciso ser um pouco destemido para deixar-se conduzir pelo seu pensar, para deixar-se entranhar. E, no entanto, depois de entranhada, Clarice nos exige ainda mais. Impregnados de sua linguagem, de seu modo de ver e, sobretudo, sentir, queremos duplamente: o afastamento e o regresso.

Clarice é como o mar. Impõe-se, para nós, nesse movimento contínuo de ir e vir. Fluxo e refluxo. Como o mar, impõe-se com sua grandiosidade. Com sua profundidade. Como o mar, Clarice é simplesmente inesgotável.

Banhos de mar

Clarice Lispector

     Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

     Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

     Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.

     Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.

     Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

     No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

     Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo.Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.169-171.

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6 comentários em “Palavra de Clarice Lispector

  1. Você tem toda a razão Cris, Clarice é um verdadeiro bombardeio no nosso interior, impossível sair ilesa de um texto que nos diz, ao se referir à sua viagem diária à praia de Olinda, “me serviu como promessa de felicidade para o futuro.” Voltamos à nossa própria infância e, por um instante, cheiros, cores, imagens pipocam em nossa frente, tais quais bolinhas de sabão.
    Beijos

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