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Seleta de Letras: Hatoum, Gullar, Tezza, Loyola Brandão, Santiago, Tavares

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A palavra como ofício. Como matéria-prima do tecido a tecer: o texto. Eis a arte-ofício do escritor: fazer literatura. Sim: literatura se faz, se produz, como um trabalho. Exige técnica, disciplina, dedicação, obstinação, e, claro, uma certa vocação. É preciso ser vocacionado para a escrita de uma forma visceral, mais ou menos como a que Clarice Lispector manifestou em uma entrevista. Quando perguntada “Por que você escreve?”, Clarice devolveu: “Por que você bebe água?”.

Pois é justamente sobre as razões pelas quais escrevem, sobre seus métodos, sobre o processo de criação literária, sobre a vida mesma, que nos falam os escritores participantes do projeto literário “Ofício da palavra”. Onze dos sessenta e cinco autores dos encontros promovidos pelo projeto mineiro estão reunidos nessa obra que leva o mesmo nome do programa. Aqui, apenas alguns deles e algumas de suas palavras. Que essa pequena seleta seja um convite para a leitura do texto em sua íntegra, porque é nele que “brilha e se esparrama o desempenho dos escritores e dos leitores que amam a Literatura como forma privilegiada de se aprofundar o conhecimento da precariedade da Vida.”

Milton Hatoum

“Quando alguém lê uma ficção, abstrai por um momento a realidade e ingressa num outro mundo, transfigurado pela linguagem. E quando volta para o seu dia a dia, eventualmente se lembra daquela experiência literária. Às vezes, quando você está no seu trabalho, ou imerso no cotidiano, você se lembra de um livro que leu ou que está lendo, e nesse momento acontece uma ambiguidade latente, algo bastante provocador, entre a ilusão da obra e a sua realidade.” (pág. 35)

“O livro não se encerra quando você o publica, a leitura dá continuidade ao processo, ela é transformadora. Cada leitor faz daquele texto um livro único.” (pág. 41)

Ferreira Gullar

“Eu estou convencido de que a vida é uma coisa inventada. […] Por ter nascido incompleto, o homem teve que se inventar. […] Às vezes, eu fico imaginando quantos fios e quanta tecnologia há debaixo da terra, para que possamos ter a eletricidade, o telefone, o computador. O ser humano é essa extraordinária acumulação de coisas inventadas.” (págs. 45-46)

“Nós estamos todos no mesmo barco, nossa fragilidade é enorme, então não estou aqui para afundar o barco. O que for possível para tornar a vida melhor eu faço. Eu não sou o bom samaritano, mas por minha própria fragilidade eu sei que as pessoas são frágeis e eu não estou aqui pra tornar a vida pior.” (pág. 55)

“Como dizia o Eliot: “Eu escrevo para me livrar da emoção.” E pode ser tanto uma coisa boa ou alegre, como o cheiro do jasmim, quanto algo mais dolorido, como foi o caso da morte do meu filho. […] Um dia, eu estava andando pela praia de Copacabana, onde moro, e me lembrei dele. Eu percebi que ele estava vivo, em mim, vendo aquela mesma praia. Aquilo me comoveu e eu logo escrevi um poema que fala assim: “Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos.” Afinal, nós carregamos conosco as pessoas queridas que foram embora e elas continuam vivendo em nós, vendo o mundo através dos nossos olhos. Então, no momento que criei o poema, eu superei a emoção, fazendo nascer algo que me comove de uma outra maneira. […] não é a dor que é o conteúdo da arte, e sim a alegria estética inventada para transfigurar a vida.” (págs. 55-56)

 “Eu aprendi por onde a poesia anda, onde buscá-la. Isso eu aprendi com os poetas.” (pág. 60)

“A vida é inventada. Não é fatal. […] Tem mais alguma coisa no universo. É inventado, e como é inventado, pode ser mudado. A sociedade que é inventada pode ser mudada e pode ser melhor do que é.” (pág. 61)

Cristovão Tezza

“A literatura nos revela coisas que às vezes são óbvias, mas que não percebemos. A ideia de que o sentimento de vergonha é um motor social, por exemplo, nunca tinha me ocorrido antes de forma objetiva. Muitas vezes, parece que a vergonha é somente um acidente na vida das pessoas. Ao escrever o livro [O filho eterno], no entanto, percebi que ela é um dos modeladores sociais mais poderosos do nosso dia a dia. Nós somos movidos a vergonha. A tensão entre os indivíduos na sociedade é o tempo todo mediada por emoções nas relações sociais que têm uma alta dose de irracionalidade. São sentimentos que não chegam a se configurar racionalmente. Nós sempre damos uma explicação de superfície. Se alguém te pergunta: Por que você fez isso? A resposta deveria ser: Foi por vergonha. Mas jamais dizemos isso.” (pág. 75)

Silviano Santiago

“Somos artesãos. Numa sociedade que se torna cada vez mais tecnológica, talvez a literatura e as artes sejam as últimas formas de artesanato. Assim como os artesãos, todos os escritores trabalham com as mãos e com a sensibilidade. A diferença está nos materiais.” (pág. 101)

“Quando nos aproximamos de um livro, nos aproximamos da experiência do outro.” (pág. 103)

“A literatura é uma forma de sabedoria em que você procura trabalhar os materiais da vida para melhor conhecê-los, assim como os artesãos trabalham os materiais da natureza para melhor utilizá-los. E, do mesmo modo que existe uma função para cada uma das peças do artesanato, a literatura também tem sua função. Ezra Pound foi muito claro quando falou a respeito disso: literatura é aquilo que comove (ut moveat), é aquilo que deleita (ut delectet), é aquilo que ensina (ut doceat). Eis a função da literatura: comover, deleitar e ensinar.” (pág. 104)

“[…] vontade de ser o outro. A literatura é isso. Ela é esse mecanismo em que você sai do seu mundo _ seja ele rico, pobre, amplo, estreito…_ para conhecer um outro mundo e viver uma experiência notável dentro dele. E, ao viver dentro daquele mundo, você está se reinventando, não somente na condição de leitor, mas também na condição de sujeito.” (pág. 108)

“A arte é esse supérfluo que, no entanto, é mais significativo do que aquilo que a gente acredita ser útil.” (pág. 112)

Ignácio de Loyola Brandão

“ ‘Quando alguém vai me olhar com admiração?’Porque todo mundo é carente, todo mundo quer esse olhar, todo mundo quer alguém passando a mão na cabeça. Eu quero até hoje.” (pág. 117)

“A poesia está em vários lugares e cabe a nós descobrirmos. […] Um dia me ocorreu uma das maiores demonstrações de poesia. Acho que todo mundo já passou por isso. Você está caminhando na rua e dá de frente com uma pessoa. Aí você vai para um lado, ela vai para o mesmo. Você vai para o outro, ela também. Mais uma vez e acontece de novo. Em São Paulo, onde todo mundo é estressado, quando isso acontece, a pessoa geralmente te empurra e fala: “Pô, deixa passar! Sai da frente, tô com pressa!.” Nesta manhã, eu dei de cara com uma senhora, de uns 60 anos, com o cabelo branco muito bem cuidado, portando um tailleurzinho Chanel. Depois do zigue-zague, nós paramos um na frente do outro. Ela olhou para mim e disse: “Muito obrigado, meu senhor, por ter dançado comigo nesta manhã.” (págs. 126-127)

“O que a literatura faz é povoar as cabeças. Ela vai conscientizando. Vai mostrando as coisas como elas são. Às vezes boas, às vezes ruins. A literatura procura dar um sentido para a vida. Porém, como nós não descobrimos esse sentido, continuamos a escrever.”´ (pág. 127)

Gonçalo M. Tavares

“[…] a literatura é capaz de provocar uma mudança de trajetória. […] eu vejo os livros como uma hipótese de um encontro.”(pág. 175)

“Uma das raras vezes em que se aceita que o outro esteja em silêncio, sozinho e quieto é no ato da leitura.” (pág. 176)

“Abrir um livro é o mesmo que entrar num espaço sagrado.”( pág. 176)

“Após passarmos uma hora lendo um bom livro _ ou vendo um bom filme_, temos a clara sensação de nos tornarmos mais lúcidos. E nós não podemos desprezar esses 100 gramas de lucidez. De fato, é interessante pensar na possibilidade de absorvermos 100 gramas a cada livro que vamos lendo, até completarmos nosso peso ideal em lucidez.” (pág. 177)

“Se nós não absorvermos coisas interessantes, se não lermos bons livros, se não falarmos com pessoas interessantes, não se adquire lucidez e inteligência. Não é algo como oxigênio, que absorvemos sem esforço. E, nesse aspecto, apesar de eu gostar muito de teatro, de cinema e de artes plásticas, não acredito que haja nenhuma outra arte que implique tanta mudança na vida de uma pessoa como a literatura. Nada tem a força do livro.” (pág. 177)

Fonte: GONÇALVES, José Eduardo (Organizador). Ofício da palavra. Belo Horizonte: Autêntica , 2014.

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5 comentários em “Seleta de Letras: Hatoum, Gullar, Tezza, Loyola Brandão, Santiago, Tavares

  1. Cada depoimento mais interessante que o outro. Adorei a historinha de Ignácio de Loyola Brandão na qual a senhorinha agradece a dança. Qualquer que seja a motivação dos escritores desejo-lhes inspiração, sede de escrever e paciência. A minha sede para ler eu garanto. Abraços,Cris.

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  2. Querida Cris, obrigada pela indicação, o tema é tão abrangente e especial. Comovente as págs. 55-56, de Ferreira Gullar. E a dose enorme de esperança, ao dizer que “A vida é inventada. Não é fatal.”
    Beijos, Marina

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