Consueloblog · Minhas "croniquetas"

Artigo raro

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Artigo raro

Cris M. Zanferrari

Eu não tenho, tu não tens, ele não tem. Nós não temos, ninguém mais parece ter. Parece até uma aula de concordância verbal, mas é apenas uma constatação. Estou falando de um artigo raro, escasso, em falta no mercado atual: paciência. Será? Sejamos sinceros: muito provavelmente você já se impacientou às primeiras linhas por não saber do que tratava esse texto. Assim é que é. Consolo se há, é que você não é o único a se impacientar com as coisas, as pessoas, o trânsito, o escambau.

A verdade é que o tempo está curto, a grana está pouca, o mundo está louco. Como haver paciência? É preciso estar por dentro de tudo na economia, na política, na moda, na ciência, nas artes, na saúde e na doença até que a morte nos separe, amém. O quê? Você não sabe quem é o novo ministro da educação? Quem é que ganhou o Nobel de Literatura? Qual a cotação do dólar hoje? Se é cor, renda ou transparência que está ditando tendências? Não sabe que Hamilton já ultrapassou a marca de Senna? Que há uma nova polêmica do silicone? Que o quê?

Haja paciência! Há mais informação nesse vasto mundo do que somos humanamente capazes de assimilar. Não há como negar que se manter atualizado é importante, é necessário para conservarmos o emprego e a saúde, para passarmos num concurso público ou mantermos a conversa em um evento social, para nos posicionarmos diante de um impeachment ou da contratação da empregada. Do macro ao micro mundo em que vivemos, estar atualizado é condição para nos sentirmos mais cidadãos e mais gente.

Há, no entanto, um lado perverso em tudo isso. O lado cruel dessa necessidade de constante atualização é a ansiedade que ela gera. E é essa ansiedade, gerada pelo excesso de informação, que nos torna impacientes. Temos pressa o tempo todo. Se o elevador “demora” a chegar, apertamos de novo o botão, como se isso (o) adiantasse. Se o garçom “demora” a chegar à mesa, nos irritamos e destemperamos a comida e o momento. Se o site “demora” a carregar, abrimos nova aba e soltamos o verbo. Se o sinal “demora” a abrir, abrimos a buzina. Ao menor sinal de “demora”, acionamos o botão da impaciência. Afinal, tudo urge, tudo atropela, a vida é on demand. Como haver paciência?

Creio que nossa visão do tempo anda distorcida. As “demoras” e “atrasos” no mais das vezes não passam de alguns segundos ou minutos. Basta lembrar que nem sempre foi assim. Tempo houve em que se esperavam meses por uma carta, dias por uma visita, horas por um trem. Em que se esperava o Natal ou o aniversário para se ganhar presente_ o que não quer dizer que não seja bom e surpreendente ganhar um presente quando menos se espera. Mas houve, sim, um tempo em que a necessidade ou o desejo das coisas precedia a sua aquisição. Tempo houve em que cada fruta tinha sua estação, e elas amadureciam no pé. Tempo houve em que tudo tinha seu próprio tempo. E esperar era tão natural quanto haver sol e mar. Tempo houve em que se esperava.

Não me interprete mal, não estou propondo uma volta ao passado. Nem pensar. Nem há como. Proponho apenas redimensionar o tempo. Reaprender do que é feita a paciência. Reaprender a arte da espera. Da mansidão. Sim, porque há uma certa brandura em esperar. Em ser paciente. Em manter a calma. A pressa nunca nos leva a lugar algum. Só nos leva a sermos apressados. Esperar é dispensar a pressa, entreter pensamento, contemplar o entorno e a vida. Esperar é simplesmente deixar que o momento presente seja.

Às vezes, quando viajo para alguma cidadezinha do interior, tenho a vaga impressão de que lá o tempo custa a passar. De que lá, o tempo tem mesmo uma outra dimensão. E esse simples pensamento me traz paz e paciência. E, então, bem devagarinho me chega também a sabedoria do mestre Rosa: “devagar e manso se desata qualquer enliço, esperar vale mais que entender, janeiro afofa o que dezembro endurece, as pessoas se encaixam nos veros lugares.”

Sim, eu sei que paciência é artigo cada vez mais raro. E por isso mesmo, valioso.  Sei também que em tempos de Instagram e Twitter qualquer leitura mais longa acaba com a paciência alheia. Então, se você conseguiu chegar ao final do texto é porque foi muito, muito paciente. E ter um leitor assim compensa toda e qualquer falta de paciência. Um leitor assim também é artigo raro.

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Este texto, e todos os outros da categoria “Saiu no Consueloblog”, foi publicado em primeira mão no site da minha querida musa-incentivadora-promotora Consuelo Blocker: www.consueloblog.com !!! Minha primeira experiência em publicação on line foi no www.4insiders.com.br , mas foi no site da Consuelo que meus textos passaram a ter um verdadeiro feedback dos leitores e, principalmente, foi lá que passei a interagir com quem me lê! E foi também a partir dessa interação, além do incentivo de queridos amigos e familiares, que o Mania de Citação foi tomando forma. Então, hoje, achei que estava mais do que na hora de dizer aqui no blog o que não me canso de repetir à própria Consuelo: muito obrigada!! Muito obrigada pela oportunidade, pela visibilidade, pelo carinho e pelo incentivo sempre!! E, claro, obrigada, muito obrigada a vocês todos: aos que apenas passam por aqui, aos que voltam aqui, e aos que me fazem saber de sua visita através dos comentários! Obrigada a tanta gente querida! Vocês acalentam a minha Mania de Citação!

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6 comentários em “Artigo raro

  1. Suas palavras é que acalentam o meu dia….penso em abrir meu e-mail ansiosa para ver se chegou texto novo, indicação nova de livro ou trechos de poesia que me faça iniciar bem o dia e desenrolar o restante dele…..bjos

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  2. A Consuelo tem olho bom, porém quem tem luz própria precisa de muito pouco para brilhar. Seus textos são ótimos e precisam ser espalhados aos quatro ventos. Beijos.

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