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Guardar livros

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Que grande alegria é ter uma biblioteca em casa. Poder achegar-se diante das prateleiras forradas de sabedoria, conhecimento, entretenimento. Que grande êxtase é postar-se diante de uma infinidade de livros e poder tomá-los nas mãos, resgatá-los da solidão e abandono, selecioná-los a nosso bel-prazer. Que grande conforto sabê-los ali, tão ao alcance, tão obedientemente disponíveis.

Livros são companheiros fiéis. Seu único destino é destinarem-se a serem lidos, devorados, digeridos, saboreados, apreciados. Seu único destino é que se destinam a tornar as pessoas mais sábias, mais reflexivas e mais contentes. Quem lê um livro torna-se mais dono de si.

Por isso, ter livros _ muitos livros_, livros à profusão, é algo assim como ter um sem-fim de possibilidades: todas à espera, à espreita, ao alcance. Eis a fidelidade maior que os livros nos prestam: eles existem. Para nós e por nós.

Manuel Antônio Pina, escritor e poeta, explica melhor: “Os livros não servem apenas para serem lidos, ou apenas para serem lidos do modo mais usual da leitura. Servem também, por exemplo, para serem tidos. Tenho muitos livros que nunca li, e que provavelmente nunca lerei. Como li outros que não tenho. Ter um livro na estante, ter a possibilidade de o ler, é talvez uma forma secreta de leitura. […] talvez ao manusearmos e arrumarmos um livro, ao mexer-lhe, passemos às vezes os olhos por uma página ou outra, uma hoje, outra no mês que vem, e pouco a pouco o leiamos assim, embora de modo não linear. […] isto é, um livro não tem necessariamente que ser lido para cumprir a sua função, basta-lhe poder ser lido, ser leitura em potência.”

Por isso há que guardá-los, a eles, os livros. Não naquela velha e gasta acepção de que guardar é manter intacto, longe da vista, trancafiado. Mas na concepção poética, de Antônio Cicero, que reencontrei num dos livros mais bem “guardados” de minha estante.

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por usa vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

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8 comentários em “Guardar livros

  1. Cris, este livro fica bem guardado na minha estante, ele guarda amostras das poesias dos nossos, da nossa língua, da nossa terra. Há livros na minha estante que ainda quero ler e nesta poesia Antônio Cicero captou todo o sentimento dos amantes dos livros, é uma “coisa”, uma admiração, vigiar, olhar, cheirar a capa, o livro e, um dia, tomá-lo pra si. Beijos

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