Citação · Literatura · Palavra de escritor · Prosa

Palavra de Rubem Braga

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“Um sonho de simplicidade”

Doar palavras*. Pode parecer estranho, mas não é. Doa-se sangue, doam-se órgãos, doam-se bens materiais. Por que não palavras? Palavras têm muitas utilidades. Fazem rir, fazem chorar, fazem um bem danado pra alma se a intenção for boa e do bem. Fazem cócegas ao pensamento e atiçam o filosofar. Com palavras pode-se até brincar. Que o diga Manoel de Barros, que com elas brincou até chegar ao “antesmente verbal: a despalavra mesmo.”

Doar palavras é algo que “O menino que vendia palavras” nem cogitou. O personagem do livro de Ignácio de Loyola Brandão cedo aprendeu a tirar vantagem das letras, negociando os significados das palavras. Luís Fernando Veríssimo confessou, numa belíssima crônica, ser “O gigolô das palavras.” E Mia Couto fez saber que contar uma história pode salvar uma vida, como no conto “A menina sem palavra.” Affonso Romano mostrou que há “Palavras que atrapalham e ajudam a viver.” Millôr Fernandes desafiou: “Uma imagem vale por mil palavras; mas diga isso sem as palavras.” Por tudo isso, uma coisa é certa: palavra que se preza tem um caráter literário.

Todo esse palavreado é para introduzir uma nova seção aqui no blog: Palavra de [escritor]. Poderia ser palavra de honra, palavra de ordem, palavra de escoteiro, qualquer coisa assim, que conferisse um teor de autoridade sobre o assunto, um teor de promessa que será cumprida. Eventualmente, poderá sê-lo. Mas será antes um espaço para abrigar a palavra de um determinado autor sobre um determinado tema. Da forma como ele o concebeu. “Palavra de” é como se fosse uma pequena doação ao leitor. A doação da palavra.

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* Vale a pena conhecer um projeto que visa levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna. É literalmente um projeto de doar palavras: www.doepalavras.com.br .

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Um Sonho de Simplicidade

Rubem Braga

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.

A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.

Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.

Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?

Mas para instaurar uma vida mais simples e sabia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas… Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número… Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

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5 comentários em “Palavra de Rubem Braga

  1. Cris, que lindo o lugar da foto!!
    Ah, que sábio Rubem Braga, tira, corta, retira, pra nos levar até a natureza. Ele nos dá a rota do sossego, mas o caminho, o telefone que toca e quem nos acompanha, são tantas histórias. Beijos

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