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Seleta de Letras: Mário de Andrade

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A literatura não se cansa de me surpreender. Quando pensava não haver jeito para determinado autor, quando o primeiro contato com a obra resultou em completa aversão, cai-me às mãos um novo exemplar do famigerado escritor. E porque caiu-me às mãos como caem frutos maduros (ou seja, caem porque é chegada a hora), decidi conceder-lhe uma nova oportunidade de leitura, esperando, quem sabe, conhecer-lhe um outro sabor.

Falo de Mário de Andrade. À época de minha adolescência havia que ler, por obrigação escolar, “Macunaíma”, reconhecidamente a obra-prima do autor modernista. Linguagem difícil, temática nebulosa, desastre total. Leitura abandonada antes, bem antes, do final do primeiro tempo. Foi o quanto bastou para riscar o nome do rol da próxima escalação. Mário de Andrade, never more!

Mas “nunca mais” é um tempo muito comprido, quase sempre abreviado por alguma circunstância do acaso. E então aconteceu de Mário de Andrade entrar em campo outra vez. Explico: estava em uma livraria com uma lista de livros e autores pretendidos, alguns para estudo, outros para saciar curiosidades e uns tantos outros para fruição literária. Uma lista longa e diversificada. E então, o fato insólito: leio “Manuel Bandeira” na listagem e peço por “Mário de Andrade”! Não só peço como o levo confiante junto de todos os outros. Levo-o crendo estar levando Bandeira. Só muito, muito depois é que me dou conta do ato falho. Mário de Andrade _ pelo insondável mistério que é a mente humana _ marcou de goleada.

Entre surpresas, da vida e da literatura, essa é a pequena história de como vos chega a Seleta de Letras de hoje. Dos contos e crônicas selecionados, pincei excertos que considero de extrema beleza: uma frase bem escrita, uma sabedoria de vida, uma ternura qualquer. Ou simplesmente_ com a alegria do trocadilho_ verdadeiros  “gols de letra”.

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Do conto “Jaburu malandro”

“Não carece a gente ser de muitos livros, nem da alta, pra inventar a poesia das coisas, amor sempre despertou inspiração… […] Pois então podiam passar muitos minutos sem falar nada, que é a melhor maneira de fazer vibrar o sentimento.” (págs. 70-71)

“O mal é a gente vestir a pessoa amada com um despropósito de atributos divinos, que chegam a triplicar às vezes o volume do amor, […]” (pág. 82)

Do conto “Frederico Paciência”

“Como que havia entre nós dois um sol que não permitia mais nos vermos mutuamente.” (pág. 94)

“Era mesmo um aperfeiçoamento de amizade, porque agora nada mais nos interessava senão o outro tal como era, em nossos encontros a sós: nos amávamos pelo que éramos, tal como éramos, desprendidamente, gratuitamente, sem o instinto imperialista de condicionar o companheiro a ficções de nossa inteira fabricação. Estou convencido que perseveraríamos amigos pela vida inteira, se ela, a tal, a vida, não se  encarregasse de nos roubar essa grandeza.” (pág. 104)

“O melhor alívio para a infelicidade da morte é a gente possuir consigo a solidão silenciosa duma sombra irmã. Vai-se pra fazer um gesto, e a sombra adivinha que a gente quer água, e foi buscar. Ou de repente estende o braço, tira um fiapo que pegou na vossa roupa preta.” (pág. 104)

Do conto “Túmulo, túmulo, túmulo”

“Que olhos sossegados! você não imagina. Adoçavam tudo que nem verso de Rilke.” (pág. 131)

“A força do amor é que ele pode ser ao mesmo tempo amizade. Mas tudo o que existe de bonito nele, não vem dele não, vem da amizade grudada nele. Amor quando enxerga defeito no objeto amado, cega: “Não faz mal!” Mas o amigo sente: “Eu perdoo você.” Isso é que é sublime no amigo, essa repartição contínua de si mesmo, coisa humana profundamente, que faz a gente viver duplicado, se repartindo num casal de espíritos amantes que vão, feito passarinhos de voo baixo, pairando rente ao chão sem tocar nele…” (pág. 141)

Do conto “O peru de Natal”

“Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. […] sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim.” (pág. 161)

“O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós redescobrira em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre de amor digno do Natal de um Deus.” (págs. 164-165)

Da crônica “Assim seja!”

“[…] estou mas é pensando nesta paz indiferente ao mundo que a gente adquire quando descansa, principalmente descansa de si mesmo, no convívio da roça. Se as almas têm cor, a minha, depois que se completou, é vermelha. […] A minha alma será dum vermelho humildezinho, cor de sangue velho, cor de desgosto derramado, e ineficaz não-conformismo. Ora nem bem penetrei morando no sábio aspecto de entre roça e civilização desta chacra que não vende fruta, meu vermelho se alagou de não sei que alvuras contemplativas que tudo me virou cor-de-rosa, um rosa velho, pensamento não tem dúvida, mas cheio de paciência e muita paz. São inúteis os rancores trazidos da capital desta colônia brasileira. Todos os meus amargores e revoltas são inúteis neste suave recompor de forças diante duma natureza tão sincera que desafia as metáforas dos mais ardidos caçadores de imagens. Aqui, poetas, lua é lua mesmo, passarinho é passarinho. […] Ora, dados tais açúcares, era natural que minha alma em férias se roseasse toda, vestindo de paciências seu vermelho. Meu mundo por um mês desejo que se restrinja ao visto, e o visto é manso.” (págs. 251-252)

Da crônica “O mar” 

“[…] é mesmo uma tendência minha, isso de sentir sempre um respeito quase religioso por qualquer espécie de grandeza.” (pág. 267)

Fonte:  ANDRADE, Mário de. O melhor de Mário de Andrade. 1.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

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6 comentários em “Seleta de Letras: Mário de Andrade

  1. Magnífica sua análise da obra. Realmente os clássicos da literatura brasileira não deveriam ser apresentados a adolescentes. Isso faz com que grande parte deles não tenham afeição pelo autor no futuro. Muitos dos temas e abordagens eles ainda não tem maturidade para interpretar.
    Que bom que deu uma nova oportunidade ao autor, pois sua resenha está rica em detalhes.
    Abraços ☺

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    1. Juliana querida!!
      Que bom que você gostou!
      De fato, concordo inteiramente com isso que você disse. Também a apreciação da literatura requer uma maturidade que só vem com o passar do tempo.
      Também fiquei feliz de descobrir um “outro” Mário de Andrade…hehehe…
      Abração!!

      Curtido por 1 pessoa

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