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O rio da ignorância (ou: pretexto para “Marcha de Radetzky”)

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ROTH, Joseph. Marcha de Radetzky. São Paulo: Editora Mundaréu, 2014.

A ignorância é um rio que desemboca, sempre e inevitavelmente, no mar do conhecimento. Só assim pode deixar de ser ignorância. Como um rio que corre, seu destino é único e fadado: conhecer. Se não for assim, jamais passará de rio a mar, de rio a manancial, de rio a abundância.

Cheguei à “Marcha de Radetzky” como um rio, ou seja, de todo ignorante. Acreditava estar apenas diante de um título bonito, bélico, buliçoso. Não pressentia a corrente do rio, a me levar por águas nunca dantes navegadas. Ao fluir da leitura, fui conhecendo: “Marcha de Radetzky” é uma das mais brilhantes composições de Johann Strauss, o mesmo da mais célebre das valsas, a “Danúbio Azul”. Não por acaso dá título ao livro. É a marcha de Strauss que dá o tom do romance sobre a dinastia dos Trotta. A devoção do pai, filho e neto ao Kaiser do império austro-húngaro se faz acompanhar por essa trilha sonora: “Sabia de cor os nomes de todos os membros da casa real. Amava-os sinceramente, com um coração devotado e infantil, sobretudo o Kaiser […]. O melhor era morrer por ele ao som de música militar. O mais fácil era morrer por ele ao som da Marcha de Radetzky.”

O rio das letras, em que para mim se transformou o livro de Joseph Roth, me conduziu a um oceano musical. Urgia, durante a leitura, conhecer o rufar dos tambores, o assoviar das flautas, o orquestrar dos instrumentos todos. Urgia conhecer a “Marcha de Radetzky”, com a qual iniciavam “Todos os concertos apresentados na praça”, diante do terraço do comissário distrital, o senhor Franz von Trotta. Urgia desfazer-se a ignorância.

Assim, busquei ouvi-la. E ouvir a famosa marcha, tantas vezes no romance mencionada, foi uma experiência mais do que gratificante. Foi um momento de puro êxtase diante da beleza que uma única música pode conter. É preciso ouvi-la repetidas vezes, deixá-la entranhar-se pelos sentidos para saber-lhe a emoção e o alcance. E mais: ter ouvido a “Marcha de Radetzky” intensificou minha experiência de leitura dessa belíssima obra de Roth.

“Marcha de Radetzky” conta, pois, uma linda e comovente história. E só não me salvou por completo da ignorância por uma única razão:  a ignorância nunca se desfaz por completo. Outras águas pelo rio ainda correm e necessitam _ sempre necessitarão_ chegar ao mar. É preciso que haja sempre algo que se ignore. Para que assim, e só assim, não se perca o fascínio, o encantamento, que é: conhecer.

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3 comentários em “O rio da ignorância (ou: pretexto para “Marcha de Radetzky”)

  1. Ai..ai…ai…que lindoooo!
    Mais uma vez comprovado, a música, a literatura, a dança….só trazem sentimentos bons…alegria, felicidade até, mesmo numa manhã chuvosa e cinza…..há beleza…bendita Internet….bendita Mania de Citação!

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