Citação · Literatura · Poema · Poesia · Ver e ouvir

Ver e ouvir Elisa Lucinda

“Durante todas as primaveras
um cardume de cinderelas
ainda insiste dentro dela.”

Elisa Lucinda

Dei para remexer memórias por esses dias. Memórias de experiências literárias. São lembranças que se achegam de mansinho, como um animal que pede colo. Olho para elas com ternura, e aceito o convite que invariavelmente me fazem para alguma releitura. Vou à estante, apanho um livro, e colho versos, crônicas, contos, ou passagens de romances. Ponho-os para arejar, ressignifico-lhes sentidos e sensações, trago-lhes a renovação da primavera. O que quer dizer: da palavra.

Assim foi que a entrada da primavera remexeu memórias de um poema de Elisa Lucinda. Tive o privilégio de ouvi-lo em sua própria voz num grandioso evento literário. Elisa é atriz. E escritora. Falou o poema com sua voz rouca, pouca, mas intensa. Lembro do silêncio que se fez para ouvi-la. Lembro de uma plateia hipnotizada e com a respiração suspensa. Lembro de como espocaram as palmas ao final do texto: es-tron-do-sa-men-te. Só não lembro como foi que acabei sem comprar um único livro dela.

Assim é que hoje me dou conta de que a memória é mesmo uma cidade repleta de ruas ilusórias. A ilusão de alguma dessas ruas me fez associar o poema à primavera. Talvez porque ele, o poema, nos reserva uma surpresa ao final. Da mesma forma como nos surpreendem os cheiros e as cores da estação. Mas sem  livro onde conferir o poema, como desfazer a ilusão?

Elisa Lucinda. Lancei o nome ao oráculo. Mr. Google me devolveu não apenas o procurado poema, mas outras tantas faces da atriz-escritora. Elisa Lucinda declamando Adélia, Elisa Lucinda cantando, Elisa Lucinda concedendo entrevista, Elisa Lucinda dizendo, tonta de emoção, uma poesia sua.

Andei remexendo memórias literárias. Encontrei um baú de encantamentos, de onde retiro mais, bem mais do que simples lembranças. Retiro a poesia que há em viver.

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Aqui, o poema remexido na memória:

Ele

Elisa Lucinda

 

Já começa a beijar o meu pescoço

com sua boca meio gelada meio doce,

já começa a abrir-me seus braços

como se meu namorado fosse,

já começa a beijar a minha mão,

a morder-me devagar os dedos,

já começa a afugentar-me os medos

e dar cetim de pijama aos meus segredos.

Todo ano é assim:

vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,

vem ele disposto a quebrar meus galhos

e a varrer minhas folhas secas.

Já começa a soprar minha nuca

com sua temperatura de macho,

já começa a acender meu facho

e dar frescor às minhas clareiras.

Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,

seu discurso sedutor de renovação,

suas palavras coloridas,

e eu estou na sua mão.

 

Todo ano é assim:

mancomunado com o vento, seu moleque de recados,

esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,

levanta-me a saia, beija meus pés,

lábios frios e língua quente,

calça minhas meias delicadamente

e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

 

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,

meu jogo e minhas varetas.

Parece Deus, posto que está no céu, na terra,

nas inúmeras paisagens,

na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,

dentro e fora dos meus vestidos,

na minha cama, nos meus sentidos.

 

Todo ano é assim:

já começa a me amar esse atrevido,

meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,

meu preferido.

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Aqui, Elisa Lucinda diz o poema “Uma lembrancinha do tempo” e Renato Farias recita “Poemeto de amor ao próximo”.

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