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Seleta de Letras: Rilke

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Diz o ditado que se “conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”. Mas eis que um dos maiores poetas da língua alemã, Rainer Maria Rilke, muito aconselhou a seus amigos, familiares, amores, e outros mais. Aconselhava-os, despretensiosamente, através de suas cartas. Em missivas as mais diversas, exprimia o que era fruto de seu viver e de seu pensar sobre o vivido. Rilke busca dar sentido a todos os pequenos acontecimentos da vida diária e, assim, extrai do cotidiano  lições que servem a todos nós, porque afinal, em termos de vida, “Nada é perdido. Tudo se passa adiante.”

Assim é que em “Cartas do poeta sobre a vida”, os conselhos do poeta são tematicamente passados adiante. Dividido em seções, conforme o aspecto da vida a ser abordado, o livro nos presenteia com profundas reflexões, instigantes aforismos, uma singular visão de mundo e, sobretudo, uma imensa e admirável sabedoria.

Na Seleta de Letras de hoje, um pouquinho (mas só um pouquinho mesmo) da grandiosidade do pensamento de Rilke expressa em suas belíssimas cartas.

  Sobre Vida e Viver:

“A vida foi verdadeiramente feita para nos surpreender (e isso não nos espanta de jeito nenhum).” (p.64)

“Como é numeroso e variado tudo que está por vir, e como tudo sobe à tona e passa diferente do que pensamos. Como somos pobres de imaginação, fantasia e expectativa, e como nos conduzimos de forma leviana e superficial no planejar; até que vem o real e toca sua música em nós.” (p.64)

“E, contudo, a vida é transformação: o que é bom é transformação, e o que é ruim também. E, por isso, tem razão quem aceita tudo o que lhe ocorre como algo que não retornará. […] Elevar as coisas ao essencial depende muito de nossa participação. Quando sentem nossa intenção, elas se concentram e não se retardam e são tudo o que podem ser; e em cada coisa nova o velho está todo contido, só que diferente e bastante aumentado.”(p.74-75)

“Acredito na velhice; trabalhar e envelhecer: é isso o que a vida espera de nós. E um dia, então, ser velho e ainda estar longe de compreender tudo_ não; mas começar, mas amar, mas pressentir, mas conectar-se com o distante e indizível, até dentro das estrelas.”(p.78)

Sobre Ser com os Outros

“[…] Quem se empenha por outra pessoa, em grande submissão, pode de novo cultivar nela o que negligenciou em si próprio. E, para algumas pessoas, florescer numa criatura amada ou numa coletividade grandemente concebida pode parecer mais belo e recompensador do que florescer em seu próprio ser.”(p.89)

Sobre Trabalho

“Antes que tivessem um conhecimento autêntico do trabalho, as pessoas inventaram a distração como um desprendimento e um oposto do falso trabalho. Ah, se tivessem esperado, se tivessem tido um pouco mais de paciência, então o verdadeiro trabalho teria estado um pouco mais a seu alcance, e elas teriam percebido que o trabalho não pode ter um oposto, assim como o mundo não o pode ter, nem deus, nem viva alma. Pois ele é tudo, e o que ele não é _ é nada e lugar nenhum.”(p.100)

Sobre Dificuldade e Adversidade

“Sem dúvida, o consolo mais divino está contido no próprio humano. Não saberíamos muito bem o que fazer com o consolo de um deus. Ao contrário, basta apenas que nossos olhos sejam um pouquinho mais contempladores, nossas orelhas mais receptivas, que o sabor de uma fruta entre em nós mais completamente, que toleremos mais cheiro e que no tocar e no sermos tocados tenhamos mais presença de espírito e menos esquecimento_ para imediatamente recebermos de nossas próximas experiências consolos que seriam mais convincentes, preponderantes e verdadeiros do que todo sofrimento que possa um dia nos abalar.” (p.114)

Sobre perda, morrer e morte

“Nem mesmo o tempo “consola”, como se diz superficialmente; ele, na melhor das hipóteses, põe as coisas no devido lugar e cria ordem_ e isso apenas porque a ordem para a qual ele contribui tão serenamente nós mais tarde assumimos de modo tão pouco exato, a observamos tão pouco, que, em vez de admirarmos aí o que agora está ajustado, apaziguado, conciliado no grande Todo, nós o vemos como esquecimento e fraqueza do coração, só porque isso não nos causa mais tanta dor.” (p.165)

“Sim: quanto mais uma pessoa reconheceu aqui, tanto mais despedidas ela terá de fazer ao longo da vida. […]” (p.173)

“Não há tarefa mais urgente para nós que a de aprender diariamente a morrer; mas não é com renúncia à vida que aumenta nosso aprendizado sobre a morte; apenas o fruto maduro do aqui-e-agora apanhado e mordido espalha em nós seu sabor indescritível.” (p.173)

Sobre o amor

“Não há força no mundo exceto o amor,[…]” (p.243)

“Não existe prisão pior do que o medo de causar dor a quem nos ama.” (p.248)

“Ser amado significa inflamar-se. Amar é luzir com óleo inesgotável. Ser amado é perecer; amar é durar.” (p.252)

“Nunca entendi como um amor genuíno, elementar, totalmente verdadeiro pode permanecer não correspondido, pois ele não é outra coisa a não ser o apelo urgente e venturoso ao outro para que seja belo, abundante, grande, intenso, inesquecível: nada senão o transbordante compromisso de que o outro se torne alguma coisa. E, diga-me, que pessoa poderia recusar tal apelo, quando é dirigido a ela, quando a escolhe e a encontra entre milhões de seres onde talvez estivesse oculta num destino ou inabordável no meio da fama… Ninguém pode segurar, agarrar e conter em si tal amor: ele é tão completamente destinado a ser passado adiante para além do indivíduo e necessita do amado apenas para que este lhe dê o impulso mais extremo que o lançará em sua nova órbita entre as estrelas.” (p.256-257)

RILKE, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. São Paulo: Martins, 2007.

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15 comentários em “Seleta de Letras: Rilke

  1. Tomarei o seu post como um conselho! Certamente lerei esse livro.
    Li Rilke na minha juventude e lembro-me do encantamento que senti. Nem tenho mais a edição de bolso. Pelo pouquinho que nos presenteou, certamente haverá encantamento!
    Mas, antes lerei Sinfonia em Branco de Adriana Lisboa que comprei após indicação lá no seu instagram. Chegou por esses dias!
    Beijo!

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    1. Querida Ana Paula!
      Obrigada pelo carinho! Haverá, sim, encantamento com as cartas de Rilke! Há muitas outras temáticas abordadas na obra, e você verá o que se anuncia no prefácio: “O guia PARA a vida é também um lembrete DA vida.”
      “Sinfonia” também tem seu encanto! Belas escolhas as suas… Boas leituras, querida!!
      Beijo grande

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  2. Depois desta belíssima compilação, fiquei com vontade de ler esse autor.. Não o conhecia..
    Muito legal esta nova “categoria” (Seleta de Letras), aguardarei ansiosamente as próximas postagens hehe 🙂
    Abraço carinhoso e bom final de semana!

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  3. “…apenas o fruto maduro do aqui-e-agora apanhado e mordido espalha em nós seu sabor indescritível.” A vida vivida, a experiência de comer o fruto que se apanha, dele gostar ou não, não importa isso, importa passarmos nada
    incólumes por ela. Tão breve para alguns. Para estes (este), a intensidade, a luz, a vontade de viver, são extremas, este é o seu legado. Beijos Cris

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  4. Quem lê e reescreve o que lê, não apenas gostou, mas sentiu, respirou cada palavra que leu, e isso você fez Juliana. Belo Trabalho!
    Rilke nos incentiva a explorar a nossa sensibilidade, os nosso sentidos, e não nos limitarmos apenas ao que nosso cérebro…

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      1. Não é você? Pensei que fosse o seu nome.
        Seria bom se pudéssemos ler Rilke na língua que ele escreveu, e sentir o ritmo das frases, a musica das rimas. Li em algum lugar que a sonoridade de seus versos traz algo de mistico, misterioso como entrar numa caverna de noite, ou acender uma vela de madrugada num quarto solitário de um hotel. Obrigado pelas belas frases desse grande poeta que você teve a paciência e a vontade de copiar. Num tempo corrido como é o nosso será cada vez mais saboroso parar para ouvir o vento, numa fazenda distante, entre as serras de Minas Gerais. Um Excelente dia pra você Cris,
        Até…

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      2. Thiago,
        Deve ser mesmo lindo ler Rilke em sua língua-mãe. Aliás, todos os autores deveriam ser lidos somente em sua língua original. Quando soube que Grande Sertão, do Guimarães Rosa, foi vertido para o alemão, lamentei que os leitores alemães jamais chegarão a conhecer a verdadeira beleza da obra roseana, que está fundamentalmente na linguagem. Enfim, há que se contentar com as boas traduções!
        Gostei muito da ideia de sossegar a alma pelas serras das Gerais…deve ser por isso também recordei Guimarães por aqui!
        Obrigada pela visita!
        Abraços
        Cris

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  5. Oi Cris, vou usar uma palavra que li de você: vagabundeei pelo seu blog e fiquei atônito do tanto que você lê. Rubem Braga é seu mentor até hoje?
    A palavra vagabundear eu li na sua descrição do prazer em vagabundear pelo dicionário. Você abre para procurar uma, e olha para as outras e elas te chamam. Isso tem nome: fome de conhecimento, vontade pelo desconhecido. Hoje tava brincando de ler Machado Assis em Voz alta (Sim, sei que ele é enfadonho, pessimista, melancólico sem brilho, lusitano no modo de escrever, e que vai cansando, mas mesmo assim eu quis brincar com ele, só pra sentir a acústica, E deus do céu! como ele é romantico! Piegas! O Guimaraes Rosa é bem diferente, Lendo o Grande Sertão sinto uma coisa bruta, um Bicho feroz querendo sair, é quando o Riabaldo espanta pra longe a Sombra do Cujo com este LeitMovif O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO, E tem alguém ouvindo a estoria do Riablado, ele é oculto, não fala, O Riobaldo chama-o de senhor, dizendo que queria ser como ele, instruído, assissado. Esse interlocutor Oculto é um misterio, e se voce prestar atenção, tem momentos em que o Riobaldo sente medo dele, como se ele fosse levantar e ir embora, ou como se fosse mesmo tentar contra a vida do Riobaldo “Não terá sido até mesmo o sinhô, quem assim se anunciou por prazido divertimento engraçado? Ha-dé! Não me dê Crime. Sei que não foi e mal eu não quis” Esse não me “dê crime” dá a sensação que o Riobaldo pode ser fustigado com chicotadas pelo oculto interlocutor se caso se desviar muito do MIOLo da narrativa. É um espécie de inteligencia oculta que vai regulando a narração do Riobaldo. Agora,,,,,,,,,, compara esse misterio de medo ( a palavra Demo é anagrama de Medo) com as estorias enfadonhas e pessimistas do mestre Machado. Acho que nem cabe comparação, Guima rães Ro sa subiu pro Nivel de Dante e de Shakespeare, já nem tá entre nós, que mal sabemos o que significa sentir uma força colossal tentando te estrangular por dentro do corpo,!!!!!!
    Será porque eu tô te escrevendo tudo isso? Achei crível que você tem realmente o Gosto pela leitura, o que é raro, e periga para principiar. Uma coisa é ler por prazer, outra é….
    Agora essa época, a moderna idade, tem por oficio, torna-nos dispersos, e impedir-nos de sentir o fundo das sensações. por isso, existe essa Apologia do Muito: muito livro, muitas viagens, muitas pessoas, e tudo é melhor se a quantidade é de destamanho. Assim não se chega nunca ao caroço das frutas, pois já no inicio do saborear, largamos e pegamos outra, e assim vai, de jabuticaba em maracuja, de maracuja em manga, de manga em laranja, de livro em livro, autor em autor. Rilke dizia: Queres sentir a fonte de onde jorra tua vida? Então, aprende a Pobreza, saiba o ser da fome, deixe-se revirar no amago ou no estomago a falta de prazer. Pobreza aqui é como assim: Não mais o urro das vozes, mas o mel das flores, Não mais o enxame, mas apenas a gota que parece que vai cair, mas nunca cai, preza no caiBro do Telhado.
    Desculpe se estou desvirtuando a lingua portuguesa, mas creio no pensamento Vivo, que espatifa a memoria, e faz redemunho de tudo que o livro nos deu.
    Um Bom Domingo pra você Criz

    Fique Bem!

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    1. Thiago,
      Você escreveu profundidades…temáticas pra render seminários!! Gostei desse ponto de vista sobre o interlocutor de Riobaldo, vou ter de fazer uma nova leitura para ver se tenho essa mesma impressão. Quanto a Machado, eu simplesmente gosto e ponto final. Não me importo que digam que ele é enfadonho, pessimista ou antiquado. Tampouco me interessam as suas fases literárias. Leio Machado porque mais do que contar uma história, ele sabe manusear a linguagem. É um verdadeiro artesão das palavras. Um artesão à moda antiga, vá lá. Mas um exímio artesão! É o quanto me basta.
      Você pergunta se Rubem Braga é meu mentor até hoje e eu respondo: o velho Braga, o Mestre Braga, é meu mentor imortal, colossal, inigualável.
      Valter Hugo Mãe disse, recentemente, uma frase espetacular: “entre as melhores pessoas da minha vida estão alguns livros.” Os livros do Braga são, para mim, algumas dessas pessoas.
      Uma boa semana pra você!
      Abraços

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