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Seleta de Letras: Drummond

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A seleta de letras de hoje é como um vinho. Daqueles que combinam uvas de diferentes qualidades e promovem, nessa harmonização, um paladar único e refinado.

Assim é “O poder ultrajovem”, de Carlos Drummond de Andrade, que alterna prosa e poesia em mais de 200 páginas de puro deleite. Um livro para ser lido assim, da mesma forma como se aprecia um bom vinho: com vagar e sofreguidão.

Permitamo-nos, pois, uma pequena degustação.

“Meu Deus,

só me lembro de vós para pedir,

mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.”

(Versos iniciais do poema “Prece do brasileiro”, p. 26)

“Você, meu brasileiro,

não acha que já é tempo de aprender

e de atender àquela brava gente

fugindo à caridade de ocasião

e ao vício de esperar tudo da oração?”

(Sétima estrofe do mesmo poema, p. 28)

“Olhe, Jesus Cristo, não reclamo honras  especiais, comidas especiais, tapetes especiais, nem estou nesta jogada para atrair sobre mim os holofotes da publicidade. Pelo contrário. […] Queria só uma coisa. Que o Senhor (ia dizer Você, mas ainda não estou de todo habituado ao novo estilo) faça alguma coisa para salvar outra vez o Homem, tomando conhecimento de que ele, eu, nós todos, estamos aqui muito sem jeito, sem rumo e sem sentido.”

(Da crônica “J.C., eu estou aqui”, p. 32)

“O mal de dois falarem um com o outro é que os dois acabam não se escutando a si mesmos, e corre-se o risco de aderir ao que o outro vai blablablando.”

(Da crônica “Monodiálogo”, p. 62)

“_ Acredita em Deus?

_ Ele é que não acredita em mim.

[…]

_ Acha que China e URSS irão à guerra?

_ Não. A guerra é sempre feita entre um que quer e outro que não quer brigar. Quando os dois querem, verificam que estão de acordo, e detestam-se em paz.

[…]

_Seu prato predileto?

_ Vontade de comer.

_Cor?

_ A do vinho no copo; da luz no mar; dos olhos inteligentes.”

(Fragmentos soltos da crônica “Entrevista solta”, p. 82-83)

“Quem disse que a poesia anda desvalorizada? A bossa dos anúncios prova o contrário. E ao vender-nos qualquer mercadoria, eles nos dão de presente “algo mais”, que é produto da imaginação e tem serventia, como as coisas concretas, que também de pão abstrato se nutre o homem.”

(Trecho final da crônica “Olhador de anúncio”, p.168)

“Querida, mando-te

Uma tartaruguinha de presente

e principalmente de futuro

pois viverá uma riqueza de anos

e quando eu haja tomado a estígia barca

rumo ao país obscuro

ela te me lembrará no chão do quarto

e te dirá em sua muda língua

que o tempo, o tempo é simples ruga

na carapaça, não no fundo amor.”

(Primeira estrofe do poema “Três presentes de fim de ano”, p.192)

ANDRADE, Carlos Drummond de. O poder ultrajovem. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015).

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7 comentários em “Seleta de Letras: Drummond

  1. Adorei a cor predileta, nas três possibilidades, não é apenas cor, é vinho no copo, é luz do mar, é dos olhos inteligentes. Para cada um de nós, seus leitores, elas terão uma representação e um sentido e o poeta passa os enigmas pra frente, generosamente infinitos.

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