Citação · Literatura · Para inspirar · Prosa

Abrir janelas (ou: da alegria de ler Cecília Meireles)

1416017506448Em dias assim, quando a ternura é um bem escasso no mercado e a gentileza some das prateleiras e da vida, só mesmo a literatura de Cecília Meireles pode trazer algum alento. E alguma paz interior.

Cecília sempre tem palavras doces e ternas, com as quais não só enfeita a vida, mas também colore a alma. Sua poesia, mesmo quando melancólica ou triste, traz n’alguma rima uma pontinha de esperança. Talvez porque, como bem sabia Quintana, “quem faz um poema abre uma janela.” Cecília nos abre várias. Ao abri-las, inaugura mundos e resgata o que há de bom em nossa maneira de ver e sentir a própria vida. Ao abri-las, é como se nos enviasse um convite simplesmente. Daqueles imperdíveis e irrecusáveis.

Que se abram todas as janelas. Que se permita à luz de Cecília entrar.

A ARTE DE SER FELIZ

Cecília Meireles

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

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2 comentários em “Abrir janelas (ou: da alegria de ler Cecília Meireles)

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