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Das pequenas (e ternas) coincidências

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“Campo de Flores”, da artista plástica Ilse Ana Piva Paim. Para conhecer mais sobre a vida e obra de Ilse Ana, visite http://www.ilseana.com.br .

Coincidências não movem o mundo, mas certamente acrescentam uma aura de sensitividade ao comum dos dias. Penso em alguém e, de súbito, recebo uma mensagem desse mesmo alguém. Sonho com uma pessoa e a encontro, casualmente, na manhã seguinte. Tudo parece estar sutilmente conectado, amalgamado e, por que não dizer, abençoado.

Essas pequenas sincronias, coincidências mesmo, podem às vezes ser assustadoras. Encaradas como prenúncio ou mau agouro, de fato, assustam. Mas, no mais das vezes, são pequenas ternuras que servem para nos lembrar que este mundo pode ser um lugar bom. E conter sua própria dose de beleza.

Enamorei-me, pois, desse quadro. Uma obra de arte não precisa de explicação. Precisa apenas emocionar. Calar fundo. Tocar a alma. E assim foi. Decidi levá-lo comigo, para que a experiência da primeira vez que o vi se intensifique e se renove todos os dias. E então, ao levá-lo, descubro-lhe a coincidência. Poderia intitular-se “Mulher no campo”. “Papoulas e lavanda ao vento”. “Cores da natureza.” Mas intitulava-se, com maior simplicidade e beleza, “Campo de flores”.

“Campo de flores” é também meu poema preferido de Drummond. Agora, por uma terna coincidência, o quadro virou poesia e a poesia converteu-se, docemente, em uma imagem.

CAMPO DE FLORES

Carlos Drummond de Andrade

Deus me deu um amor no tempo de madureza,

quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.

Deus _ ou foi talvez o Diabo_ deu-me este amor maduro,

e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos

e outros acrescento aos que amor já criou.

Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso

e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia

e cansado de mim julgava que era o mundo

um vácuo atormentado, um sistema de erros.

Amanhecem de novo as antigas manhãs

que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra

imensa e contraída como letra no muro

e só hoje presente.

Deus me deu um amor porque o mereci.

De tantos que já tive ou tiveram em mim,

o sumo se espremeu para fazer um vinho

ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa

a tirar sua cor dessas chamas extintas

era o tempo mais justo. Era tempo de terra.

Onde não há jardim, as flores nascem de um

secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso

para arrecadar as alfaias de muitos

amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,

e ao vê-los amorosos e transidos em torno

o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece

na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia

os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura

e o mistério que além faz os seres preciosos

à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,

há que amar diferente. De uma grave paciência

ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia

tenha dilacerado a melhor doação.

Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos

e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

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8 comentários em “Das pequenas (e ternas) coincidências

  1. Bom dia Cris,
    Belíssimo post!!!
    Admiro muito quem transforma tinta em arte..como bem disse Ruben Alves “A arte são as asas do corpo.Por ela voamos!”.
    E não acredito em coincidências, penso que é o universo sempre a conspirar heheh 😉
    Grande beijo….

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    1. Mari querida!!
      Obrigada por suas visitas e comentários carinhosos! Obrigada também pela citação do inesquecível Rubem Alves!!
      Às vezes também acho que tudo é uma grande conspiração universal…hehehe…
      Beijão, amada!

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  2. Cris, hoje postei um flor branca tão linda no face. Aqui, coincidentemente, vc nos fala dessa pintura tão bela, Campo de Flores, de tantas cores. Coincidência? Não pode ser! Nosso Drummond transmite cores e sons em suas palavras, há uma cadência que nos abraça e nos faz conhecer tantos segredos do amor maduro, florido e, como diz, “de uma grave paciência ladrilhar minhas mãos”. Será possível alguém sentir e expressar um sentir tão bem descrito na idade crepuscular? E um quadro retratar flores em cores tão sentidas? Oh Cris, hoje vc me presenteou com tua compreensão disso tudo e por sentir que não estou só ao admirar tanto as flores. Beijos querida

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    1. Querida Marina!!
      Que lindo tudo o que disse!! Estamos em perfeita sintonia… e é muito bom sentir-se acompanhado e compreendido em nossa jornada. A literatura aproxima as pessoas, tenho essa convicção reafirmada a cada novo dia!
      Obrigada pela presença afetuosa!!
      Beijão!!!
      P.S.: Como você, também cultivo essa paixão por flores! 😊😍

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